Se você me pedisse para adivinhar os três países mais afetados pela crise climática, eu provavelmente escolheria três países do hemisfério sul. Eu poderia dizer que as Filipinas estariam na lista, porque o país tem sofrido com tufões muito potentes nos últimos anos. Talvez eu colocasse Uganda, porque passou por épocas de seca terríveis, ou o Iêmen porque a escassez de água piorou muito recentemente.

Provavelmente não imaginaria um país como a Alemanha. Mas, de acordo com um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (4), a Alemanha ocupa o terceiro lugar entre os países mais afetados pelos impactos do clima extremo em 2018.

O Índice de Risco Climático Global 2020 da Germanwatch descobriu que os três países mais afetados pela mudança climática extrema em 2018 foram Japão, Filipinas e Alemanha.

Os autores examinaram os impactos de enchentes, tempestades, ondas de calor e outras condições climáticas extremas sobre uma variedade de fatores socioeconômicos, desde o número de vidas perdidas até o número de dólares em danos sofridos ao longo de 2018.

Em seguida, analisaram os números para criar o índice deste ano (que, veja, nem sequer começa a incorporar impactos mais lentos da crise climática, como a elevação do nível do mar, o derretimento do gelo e a acidificação dos oceanos).

Em 2018, o Japão sofreu fortes chuvas que causaram a pior inundação em décadas, atingindo recordes de calor, e foi atingido pelo tufão Jebi. Todos estes desastres climáticos mataram um total de 1.282 pessoas. Tufões e deslizamentos de terra provocados pelas chuvas nas Filipinas mataram 455 pessoas ao todo. E a Alemanha viu fortes chuvas e ondas de calor que mataram 1.246 pessoas.

O relatório também se debruçou sobre as duas últimas décadas de catástrofes relacionadas com o clima. O relatório destaca Porto Rico do resto dos Estados Unidos e considera que a região está no topo do índice, embora não esteja sozinha.

“Ao todo, cerca de 495 mil pessoas morreram como resultado direto de mais de 12 mil eventos climáticos extremos em todo o mundo e as perdas entre 1999 e 2018 somaram cerca de US$ 3,54 trilhões (em paridades de poder de compra)”, diz o relatório.

Em suma, pessoas de todo o mundo foram prejudicadas. Mas, acima de tudo, esses resultados mostram que os países em desenvolvimento são os que sofrem os piores impactos. Nos países mais pobres, os choques relacionados com o clima podem durar mais tempo, embora os países mais ricos tendam a sofrer perdas monetárias mais elevadas.

Para enfatizar essas diferenças, o relatório analisa não apenas os impactos absolutos, mas também os impactos relativos ao poder econômico e à população. Os autores pedem um foco sobre esses tipos de injustiças climáticas nas negociações internacionais sobre o clima das Nações Unidas, conhecidas como COP25, que ocorrerão em Madri nas próximas duas semanas.

“Até agora, faltam regras políticas e jurídicas para determinar como os responsáveis pela mudança climática devem pagar pelas consequências de suas emissões”, diz o relatório. “No contexto das negociações da ONU sobre o clima, faltam recursos financeiros adicionais para ajudar as pessoas e os países mais pobres a lidar com as perdas e os danos.”

Ainda na semana passada, um relatório da ONU apelou aos países mais desenvolvidos do mundo para que assumam a liderança na ação climática, uma vez que contribuem com cerca de 78% de todas as emissões globais de gases com efeito de estufa.

O relatório da Germanwatch mostra que os países mais ricos não devem apenas reduzir as emissões por altruísmo. Quando se trata da crise climática, os países ricos não estão seguros.

“Os países de alta renda estão sentindo os impactos climáticos mais claramente do que nunca”, diz. “A mitigação eficaz da mudança climática é, portanto, do interesse de todos os países do mundo.”

Claro que nem todas as pessoas de um país são atingidas da mesma forma por condições climáticas extremas. Pessoas ricas podem ser mortas por tempestades, mas esses eventos expõem a desigualdade também. O relatório observa, por exemplo, que as pessoas que trabalham ao ar livre na agricultura ou na construção civil enfrentam maiores riscos à sua saúde durante as ondas de calor.

“É por isso que as medidas de adaptação devem apoiar especialmente os pobres e vulneráveis e devem evitar manter e reforçar as injustiças sociais e os desequilíbrios de poder”, afirma o relatório.

Isso pode não ser fácil, mas com desafios como esses, não há outra opção ética.