As mudanças climáticas estão rapidamente alterando tudo, incluindo nossa linguagem.

As novas palavras que estamos utilizando são impulsionadas pelo crescente entendimento da humanidade de que atingimos um nível muito ruim. Essa mudança foi reforçada pela escolha do Oxford Dictionary para o termo do ano: “emergência climática”.

Houve um aumento impressionante do termo que mal era mencionado ou pesquisado antes de 2019. Eu poderia falar sobre o notável aumento do uso de “emergência climática”, mas acho que os gráficos mostram isso melhor do que as palavras. Aqui está o gráfico do Oxford Dictionary mostrando o uso monitorado por seu projeto de pesquisa de linguagem conhecido como Oxford Corpus:

Gráfico: Oxford Corpus

E aqui está o histórico de pesquisas do Google Trends nos últimos cinco anos, globalmente:

Gráfico: Google Trends

A seleção anual tem como objetivo escolher um termo que defina o ano que se passou, e os dados certamente apoiam a decisão do Oxford Dictionary de eleger “emergência climática”. Mas o que isso realmente nos diz sobre a sociedade em 2019?

Até o momento, nossas emergências mais comuns eram relacionadas à medicina. Porém, em seu anúncio, o Oxford Dictionary observou que “a emergência climática superou todos os outros tipos de emergências e se tornou aquela sobre a qual as pessoas mais escrevem com uma margem enorme, com mais de três vezes a frequência do uso do termo saúde, que ficou em segundo lugar no ranking”.

O fato de a palavra “emergência” ser agora mais frequentemente associada ao clima revela uma urgência renovada sobre as mudanças climáticas jamais vista em praticamente qualquer ponto da história. E parece, pelo menos do ponto de vista da conscientização pública, um ponto de inflexão. Citar a definição de uma palavra é um clichê de redação da faculdade, mas, neste caso, é um lembrete adequado e comovente do que estamos enfrentando: uma emergência, de acordo com o Oxford English Dictionary, é “um estado das coisas que surge inesperadamente, e que exige urgentemente ação imediata”.

Vivemos com as mudanças climáticas há mais de um século e, desde os anos 1980, os cientistas alertam regularmente que precisamos reduzir a poluição por carbono. Mas as coisas mudaram drasticamente nos últimos dois anos. A primeira delas é a ciência das mudanças climáticas, que produziu descobertas cada vez mais terríveis. Uma série de relatórios publicados desde o final do ano passado defendeu que a humanidade está enfrentando uma crise. As emissões estão aumentando, as espécies estão em extinção e o tempo é limitado para evitar danos mais sérios ao clima que permitiu que a espécie humana prosperasse. Ao mesmo tempo, incêndios destrutivos, furacões e inundações levaram a um ponto nos relatórios de que a situação tende a piorar muito nas próximas décadas se não agirmos.

Juntos, os relatórios e o próprio clima disparam alarmes. Mas os protestos climáticos têm sido um grande amplificador, aumentando os pedidos para que tratemos as mudanças climáticas como uma emergência. Greta Thunberg iniciou uma greve solitária em agosto deste ano, e o movimento que ela liderou explodiu com milhões de jovens adultos saindo às ruas para exigir um futuro melhor. (Talvez não seja surpresa que o Dicionário Collins tenha escolhido “greve climática” como um termo do ano.) Entre as falas mais famosas dos discursos de Thunberg, há uma que encapsula a mentalidade de emergência: “Quero que vocês ajam como se nossa casa estivesse pegando fogo. Porque está”.

Aparentemente, os governos estão ouvindo pelo menos parcialmente ela e outros manifestantes, principalmente a Extinction Rebellion, que lista os governos que declaram uma emergência climática como uma demanda central. O Reino Unido se tornou o primeiro país do mundo a declarar uma emergência climática em maio. Desde então, foi seguido pelo Canadá e há uma proposta nos EUA.

Mas o verdadeiro aumento nas declarações literárias de emergência climática ocorreu no nível local. Quase 1.200 declarações de emergência climática foram emitidas em todo o mundo por governos locais e regionais representando 454 milhões de pessoas, de acordo com dados mantidos pelo Climate Mobilization, outro grupo que pediu declarações de emergência climática e fornece um kit de ferramentas para ativistas. Para transmitir a rapidez com que tudo isso aconteceu, vamos novamente aos gráficos.

Gráfico: Climate Mobilization

“Passamos alguns anos à margem do movimento, em parte porque nossa análise da situação é extrema”, disse Margaret Klein Salamon, fundadora e diretora executiva da Climate Mobilization, ao Gizmodo por e-mail. “As pessoas ainda não estavam prontas para falar sobre a natureza emergencial da situação. É muito gratificante ver esse despertar coletivo para a gravidade da Emergência Climática e a necessidade de Mobilização Climática em uma escala e velocidade nunca vistas desde a Segunda Guerra Mundial”.

A revolta da sociedade também se manifestou nos outros finalistas do termo do ano no Dicionário Oxford. Entre eles estão “crise climática”, “ ecocídio”, “ eco-ansiedade”, “flight shame” (culpa por viajar de avião), e “extinção”.

Cada um deles tem apresentado um aumento drástico (eco-ansiedade aumentou em 4.280% no Oxford Corpus, por exemplo), mostrando que as pessoas estão realmente assustadas. Mas termos como “ação climática”, “net zero” (termo utilizado para referir-se à edifícios inteligentes com energia autossustentável), e “ à base de plantas” também mostram que as pessoas estão procurando soluções (talvez o termo do próximo ano será “julgamentos de combustíveis fósseis”).

Por fim, o termo do ano mostra que estamos em uma encruzilhada onde nada mais será o mesmo. A maneira como reagimos à emergência depende de nós.

“O mais importante é que as pessoas reconheçam a Emergência Climática pelo o que ela é: um momento decisivo na história e uma ameaça gigante”, disse Klein Salamon antes de referenciar Thunberg. “Precisamos aceitar o fato de que nossa casa está pegando fogo e repriorizar nossas vidas em torno da luta por nosso futuro e por toda forma de vida”.