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“Palworld” se inspira em “Pokémon”, mas não comete plágio, explica advogado

Apesar das inspirações claras em Pokémon, não é dá para dizer que existe plágio da franquia da Nintendo em Palworld — pelo menos por enquanto
Imagem: Pocketpair/Divulgação

Quanto mais “Palworld” faz sucesso, maiores são as polêmicas envolvendo o jogo. O título tem chamado atenção pelas criaturas parecidas com Pokémon, que também podem ser capturadas e treinadas, e por trazer também outros elementos da franquia — como os “tipos” elementais ou um “catálogo” de espécies que registra os monstrinhos avistados, por exemplo. Com isso, o estúdio de por trás do jogo vem sendo acusado de plagiar a Nintendo

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Apesar das semelhanças entre “Palworld” e “Pokémon” serem bastante claras, não é tão simples dizer que existe plágio, somente com capturas de tela e análises superficiais das redes sociais. Para entender melhor a história, o Giz Brasil conversou com um advogado especializado em jogos.

Como a polêmica começou

Palworld

Gameplay de Palworld (Imagem: Pocketpair/Divulgação)

Palworld deu início ao período de acesso antecipado, em 19 de janeiro, e logo se tornou um sucesso. Em apenas uma hora, o jogo vendeu 1 milhão de unidades e bateu recordes no Steam. Em três dias, porém, foram 5 milhões de cópias vendidas, ultrapassando sucessos da plataforma da Valve como “Counter-Strike 2” e “PUBG”.

Os jogos de sobrevivência em mapas sandbox são tendências há alguns anos e costumam se tornar bastante populares, em especial entre streamers. “Palworld” surfa essa onda e ainda traz a mecânica que tornou “Pokémon” um sucesso: monstrinhos simpáticos que podem ser capturados, colecionados e usados em batalhas.

Alguns Pals, inclusive, se parecem bastante com certos monstrinhos de bolso. Nas redes sociais, a usuária @CeciliaFae postou no X (antigo Twitter), uma lista com exemplos de criaturas com visuais semelhantes.

Ela encontrou 63 monstros parecidos, sendo que “Palworld” tem 111 Pals — ou seja, para ela mais da metade das criaturas seriam inspiradas de alguma forma em Pokémon.

Essas semelhanças dividiram os jogadores em dois grupos: quem acredita que não tem problema se inspirar em outros jogos e os que querem ver a Pokémon Company ou a Nintendo processando os criadores de “Palworld”. Porém, a história não é tão simples assim.

Inspiração é diferente de plágio

Apesar da Nintendo ter realmente a fama de exigir na Justiça o cancelamento de vários projetos, a empresa só pode fazer isso caso alguma de suas propriedades intelectuais sejam plagiadas na íntegra.

Em entrevista ao Giz Brasil, o advogado especialista no mercado de games Marcelo Mattoso explicou que “obras inspiradas em outras obras não caracterizam plágio”. Para ele, há inspirações de “Pokémon” em “Palworld”, assim como em “Digimon”, “Monster Rancher” e diversas outras franquias que apostam na mecânica de batalha entre monstros.

“Se você pegar o Bulbassauro, mudar a cor dele para rosa e colocar um girassol nas costas dele, já não é mais o Bulbassauro, e a Nintendo não pode fazer nada”, explicou o advogado.

A Nintendo costuma processar casos específicos

Na última quinta-feira (25), a Pokémon Company divulgou um comunicado oficial no qual citava “Palworld” de forma indireta. O texto original em japonês e inglês foi publicado no site oficial da empresa, e aqui o trazemos traduzido na íntegra:

“Recebemos muitas perguntas sobre um jogo de outra empresa lançado em janeiro de 2024. Não concedemos nenhuma permissão para o uso de propriedade intelectual ou elementos de Pokémon nesse jogo. Pretendemos investigar e tomar as medidas adequadas para resolver quaisquer atos que violem os direitos de propriedade intelectual relacionados à franquia Pokémon. Continuaremos a valorizar e nutrir cada Pokémon e seu mundo, e trabalharemos para unir o mundo por meio dos Pokémon no futuro”.

The Pokémon Company.

Esse comunicado foi publicado logo após a popularização de um vídeo que mostrava uma modificação criada por jogadores, que trocava alguns modelos de “Palworld” por personagens oficiais de Pokémon.

Enquanto os jogadores ficavam com a aparência de Ash e Misty, alguns monstrinhos eram transformados em Pikachu e outros Pokémon.

Nesse caso, a Nintendo agiu rapidamente, e derrubou o vídeo em menos de 24 horas, já que violava diretamente a propriedade intelectual da franquia. Por outro lado, a versão tradicional de “Palworld” não corre o mesmo risco, pois, apesar das inspirações, não há nada plagiado.

Em relação às acusações de plágio, Mattoso ainda explicou o seguinte:

“Tem vários jogos nessa temática de captura, treinamento, batalhas… E a Nintendo nunca fez nada. O que ela faz é quando de fato alguém utiliza a propriedade intelectual, como o Pikachu, o Bulbassauro, o Charizard. Nesse caso, eles derrubam, como derrubaram ROMs e sites de emulação. A Nintendo é conhecida por isso. Agora, o conceito de monstrinhos de batalha não pode ser exclusivo da Nintendo. Qualquer um pode utilizar, desde que não use a propriedade intelectual da Nintendo”.

Marcelo Mattoso, sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados (BTLAW) e especialista em mercado de games e esports.

No final da história, “Palworld” deve continuar sendo um sucesso. Muitas pessoas não acham o jogo interessante, mas isso não significa que existe plágio.

O antigo chefe da divisão jurídica da Pokémon Company, inclusive, disse em uma entrevista ao Game File que o jogo de sobrevivência “parece com os absurdos usuais que eu via mil vezes por ano” e que estava “surpreso do jogo ter chegado tão longe”. Mesmo assim, “Palworld” continua sendo um dos jogos mais acessados do Steam.

Murilo Tunholi

Murilo Tunholi

Jornalista especializado em tecnologia, jogos, entretenimento e ciência. Já passou por grandes redações do Brasil (TechTudo, Tecnoblog, Terra e Olhar Digital) e trabalhou com relações públicas e assessoria de imprensa na Theogames, atendendo à Blizzard Entertainment e mais clientes do mercado de videogames. É apaixonado pela cultura geek, música e produção de conteúdo. Nas horas vagas, é aspirante a artista marcial e cozinheiro.

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