Está ficando cada vez mais claro que prejudicar a indústria de combustíveis fósseis e fazer o mundo descarbonizar o mais rápido possível é a nossa melhor esperança para evitar  impactos mais catastróficos do aquecimento global.

Um novo estudo publicado na revista científica Nature, feito por pesquisadores da University College London (UCL), descobriu que precisamos manter quase todas as reservas mundiais de carvão e mais da metade do petróleo e gás no solo se quisermos manter o aquecimento abaixo de 1,5ºC. 

A pesquisa usa modelos de carbono global “não combustível”, ou seja, basicamente combustíveis fósseis que simplesmente não podem ser queimados se quisermos cumprir os objetivos do Acordo de Paris. Os exemplares levam em consideração as diferenças de intensidade de carbono em várias partes do mundo. As areias betuminosas do Canadá, por exemplo, têm uma pegada de carbono muito maior do que outros tipos de combustíveis.

O estudo é, na verdade, uma atualização de outra análise semelhante feita em 2015, pouco antes de o mundo se reunir em Paris para acertar os detalhes do acordo internacional. Na ocasião, os pesquisadores analisaram o que seria necessário para manter o aquecimento abaixo de 2ºC, descobrindo que 80% do carvão, 30% do petróleo e 50% do gás precisavam ser mantidos no solo para que o aquecimento fique abaixo daquele limiar que acabou sendo consagrado no evento. Além disso, o tratado também incluiu a meta de 1,5ºC como um objetivo ambicioso que poderá determinar vida ou morte para muitas pequenas nações de ilhas.

Contudo, os números atualizados na nova pesquisa são diferentes e mais impactantes. O carvão que ainda está no chão ao redor do mundo tem 90% de necessidade de continuar lá se quisermos manter o aquecimento abaixo de 1,5ºC. E mais, quase 60% das reservas mundiais de petróleo e gás também também precisam ser mantidas. 

“Cortes imediatos na produção de combustível fóssil são extremamente necessários para que possamos limitar o aquecimento global a 1,5 grau”, disse Dan Welsby, principal autor do relatório e pesquisador da UCL, em uma conferência na terça-feira (07). “Mas as trajetórias de produção de combustível fóssil atuais, e indicadas globalmente, estão nos levando na direção errada”.

No geral, o estudo descobriu que a produção global precisa diminuir a uma taxa de cerca de 3% ao ano até 2050. E também explicou porque diferentes áreas do mundo têm variedade na intensidade de carbono nas reservas de combustível que ainda estão no solo; cada região tem um ‘dever de casa’ diferente para garantir que o mundo não queime até ficar ‘crocante’.

O Canadá, por exemplo, tem um trabalho enorme em suas mãos em termos de disputas na indústria do petróleo: o estudo constatou 83% das reservas de petróleo do país, incluindo 84% das areias betuminosas, têm necessidade de permanência no solo. Enquanto isso, a meta de petróleo do Oriente Médio está mais perto da média global de 60%. 

Apesar desse número ser menor do que o do Canadá, não significa que a região não sentirá tanto aperto; pelo contrário, as análises alertam para “enormes riscos de transição” em países com economias focadas exclusivamente na extração de combustível fóssil. As conclusões da pesquisa respaldam o consenso crescente entre os especialistas de que precisamos livrar o mundo dos combustíveis sujos o mais rápido possível. 

No início deste ano, a Agência Internacional de Energia afirmou que a produção de combustíveis fósseis precisa atingir o pico no próximo ano, se quisermos manter a meta de 1,5ºC. Este estudo oferece uma ideia semelhante, embora ainda mais rigorosa: a produção global de combustível fóssil em geral deveria ter atingido o pico no ano passado para nos manter no caminho certo com as metas do Acordo de Paris.

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A produção de petróleo, especificamente, tem um pouco mais de espaço de manobra. O pico deve ser 2025, concluíram os pesquisadores, enquanto o pico do gás depende da localização. Independentemente das datas, a diminuição dos combustíveis fósseis precisa estar próxima. No entanto, a indústria está buscando uma expansão agressiva e permanece uma chamada “lacuna de produção” com o mundo produzindo mais combustíveis fósseis do que o que é seguro. Mas, como mostra a análise, mudanças drásticas precisam acontecer – e logo.