Neste sábado (27), um homem armado abriu fogo na sinagoga Árvore da Vida em Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, matando pelo menos 11 pessoas e deixando outras feridas.

A organização Liga Antidifamação descreveu o ataque como sendo provavelmente o mais sanguinário ataque à comunidade judaica na história dos Estados Unidos. Autoridades identificaram o suspeito, que foi capturado após uma troca de tiros com a polícia. Trata-se de Robert Bowers, de 46 anos, um anti-semita que supostamente teria anunciado o ataque na rede social Gab.

O Gab e seu fundador, Andrew Torba, gostam de colocar o site como uma central da liberdade de expressão para todos. Porém, o Gab é mais conhecido por ser um local para a proliferação de ideias de neo-nazistas, supremacistas brancos e de outros extremistas, que enxergam a rede como uma câmara de ressonância (em muitos casos, esses usuários vão para o Gab após serem removidos de plataformas mainstream).

Agora, uma dos principais meios de arrecadação de fundos da rede social foi cortada. No sábado, o PayPal confirmou em um e-mail enviado ao Gizmodo que encerrou a conta do Gab após o ataque:

O PayPal cancelou a conta do Gab.Ai. A companhia é zelosa na realização de análises e na tomada de ações em relação a contas. Quando um site está explicitamente permitindo a perpetuação do ódio, violências e intolerância discriminatória, agimos imediatamente e com convicção.

A conta do Gab no Stripe, uma outra empresa de processamento de pagamentos, também foi congelada. Além disso, a empresa de hospedagem da nuvem Joyent também suspendeu os serviços ao Gab.

O atirador teria publicado conteúdo contra a Sociedade de Ajuda aos Imigrantes Hebreus (HIAS, na sigla em inglês) antes de ir até a sinagoga. Ele escreveu: “A HIAS costa de trazer invasores que matam o nosso povo. Não posso ficar sentado assistindo o meu povo ser massacrado. Que se dane a sua visão, estou indo nessa”.

De acordo com o Pittsburgh Post-Gazette, a mesma conta do Gab em seu nome teria ameaçado a HIAS anteriormente, publicando este comentário: “Vocês gostam de trazer invasores hostis para morar entre nós? Agradecemos a lista de amigos que vocês forneceram”.

Outros comentários anteriores com conteúdo de ódio em sua conta incluem referências a imigrantes como “invasores”. Ele também chegou a insultar outro usuário com comentários anti-semitas e sugeriu que uma “infestação de judeus” controlou os níveis mais altos do governo federal (incluindo a presidência), de acordo com a Post-Gazette. Nenhuma dessas publicações são incomuns no Gab, que continua sendo abrigo para usuários como o supremacista branco Chris Cantwell e o organizador de protestos Jason Kessler.

Em um comunicado enviado à imprensa, o Gab disse que sua missão era “defender a livre expressão e a liberdade individual online para todas as pessoas” e que violência e ameaças a isso eram comuns em outras redes sociais como o Facebook e Twitter, e que eles seguem a lei e que estão trabalhando com as autoridades para assegurar que eles possuam acesso a todos os dados da suposta conta de Bowers. No entanto, o comunicado também sugere que, se alguns indivíduos foram impedidos de se “expressarem livremente”, o resultado seria mais violência.

“Não desejamos nada além de amor para todas as pessoas e à liberdade”, escreveu o Gab. “Temos “rejeitado consistentemente toda a violência. A liberdade de expressão é crucial para a prevenção da violência. Se as pessoas não puderem se expressar por meio das palavras, elas o farão através da violência. Ninguém quer isso. Ninguém”.

Procurado por e-mail, Torba disse ao Gizmodo que “não tinha mais comentários”. No entanto, a conta do Twitter do Gab passou as últimas horas tecendo críticas, chamando o repórter Mike Isaac do New York Times um “presunçoso elitista”, acusando o BuzzFeed de ser racista contra pessoas brancas e dizendo que o Twitter é “uma gigantesca fossa de lunáticos que odeiam os judeus“. Eles também reservaram algum tempo para mencionar a quantidade de atenção que o ataque de Bower levou ao site, escrevendo: “Temos recebido 1 milhão de acessos por hora durante todo o dia”.

“Andrew Torba, CEO do Gab, vai ficar bravo quando as pessoas disserem que seu site é um website nacionalista branco ou um website da extrema direita, mas qualquer pessoa que passa algum tempo lá sabe que trata-se de um paraíso para extremistas”, disse ao Gizmodo Michael Edison Hayden, analista de inteligência open-source da Storyful, que se especializou em extremismo e desinformação. “Grupos de supremacistas brancos violentos como o Patriot Front e Atomwaffen Division se organizam abertamente no Gab. Usuários frequentemente falam sobre assassinar mulheres, judeus e outras minorias no Gab, e são recompensados com likes e reposts. Dylann Roof é tratado como herói por muito usuários do Gab”.

“Robert Bowers, que era um dos seus, receberá o mesmo tratamento”, acrescentou Hayden. “A hashtag #HeroRobertBowers chegou a cerca de 20 postagens em apenas algumas horas após a história aparecer no Gab e continua a crescer”.

No Brasil, a rede social Gab também tem atraído grupos da direita e extrema direita. O MBL, por exemplo, anuncia em redes como Instagram para que os usuários os sigam por lá.

Bryan Menegus contribuiu com esta publicação.

Imagem do topo: Primeiros socorristas na sinagoga da Árvore da Vida em Pittsburgh, onde um atirador matou 11 pessoas e feriu várias outras em 27 de outubro de 2018. Crédito: Gene J. Puskar (AP)