Uma equipe de pesquisadores descobriu a pegada mais antiga do mundo, pertencente a civilizações pré-históricas que andaram pela Ilha de Creta, na Grécia. Os cientistas relataram as descobertas no jornal Scientific Reports.

As pegadas de sedimentos fossilizados da praia foram encontradas perto da aldeia de Trachilos, no oeste de Creta. A equipe de paleontólogos conseguiu datar os rastros usando métodos geofísicos e micropaleontológicos, e chegaram à conclusão de que tinham 6,05 milhões de anos antes dos dias atuais, tornando-as as mais antigas evidências diretas de um humano usando o pé para caminhar.

Uwe Kirscher, pesquisador que fez parte do estudo, disse que os rastros são quase 2,5 milhões de anos mais velhos do que os atribuídos ao Australopithecus afarensis (Lucy) de Laetoli na Tanzânia, e isso coloca as pegadas de Trachilos com a mesma idade dos fósseis do Orrorin tugenensis do Quênia. Os achados relacionados a este bípede incluem fêmures, mas não há ossos do pé ou pegadas. 

Sobre o vestígio, em si, Per Ahlberg, professor da Universidade de Uppsala e coautor do estudo explicou que o pé tinha uma sola mais curta que o AustralopithecusAhlberg disse que o pé humano mais antigo usado para andar ereto tinha uma bola, com um dedão forte, em paralelo e dedos laterais sucessivamente mais curtos.

Pegada descoberta em Creta tem mais de seis milhões de anos Crédito: Universidade de Tübingen

A descoberta marca um período importante, já que Creta não era apenas a ilha que conhecemos hoje há aproximadamente seis milhões de anos, mas sim uma massa de terra conectada à Grécia continental pela região chamada de Peloponeso. Nesse sentido, Madelaine Böhme, professora da  Universidade Uppsala, não descarta que o ‘pré-humano’ que deixou essa pegada tenha cruzado caminhos com o Graecopithecus freybergi – o mais antigo antepassado conhecido do homem moderno, tendo vivido há cerca de 7,2 milhões de anos. Um fóssil de sua mandíbula foi encontrado em Atenas em 1944 – a cidade fica a cerca de 250 quilômetros de Creta.

Expansão do Saara e migração para a África

A pesquisa também respalda estudos e teses recentes da equipe de Böhme, que indicam que há seis milhões de anos, o continente europeu e o Oriente Próximo foram separados do leste úmido da África por uma expansão relativamente breve do Saara. A análise geoquímica dos depósitos de praia de Creta com seis milhões de anos sugere que a poeira do deserto do norte da África foi carregada para lá pelo vento. 

A equipe chegou a uma idade entre 500 e 900 milhões de anos antes do presente, ao datar grãos minerais do tamanho de areia. Esses períodos de tempo são típicos da poeira saariana, segundo os autores.

Ainda assim, uma segunda alteração de terreno há 6 milhões de anos pode ter permitido a ocorrência de um processo evolucionário separado do solo africano, envolvendo algum humano pré-histórico europeu.

Alguns estudos descartaram o macaco africano Sahelanthropus como bípede – andava sobre os dois pés – elevando o Orrorin tugenensis à posição de mais antigo hominídeo africano, cerca 6,1 milhões a 5,8 milhões de anos atrás. 

Nesse sentido, o chamado “balanço do deserto” por Böhme, que são sucessivas desertificações de curto prazo na Mesopotâmia e no Saara, pode ter causado uma migração de mamíferos da Eurásia para a África. 

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Os pesquisadores estão animados, pois a descoberta da pegada sugere que as relações de desenvolvimento dos humanos pré-históricos podem ter sido mais próximas entre suas várias espécies do que se pensava.