O Google avançou com seus esforços de fornecer soluções de inteligência artificial para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, apesar de uma petição de funcionários contra o envolvimento da companhia com o programa piloto que analisa gravações de drone usando inteligência artificial e de funcionários que se demitiram em oposição.

No entanto, o Google não é a única companhia trabalhando em parceria com o Departamento de Defesa no Project Maven — o programa piloto de inteligência artificial que é o cerne da controvérsia —, e o Pentágono explorou a possibilidade de trabalhar com outras gigantes da tecnologia na iniciativa.

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O envolvimento de outras empresas de tecnologia no Project Maven faz o projeto parecer mais como uma concorrência entre diversos líderes no ramo de inteligência artificial e menos como um esforço liderado pelo Google. Também levanta questões sobre se os funcionários de outras empresas vão levantar as mesmas questões éticas que os funcionários do Google levantaram.

A DigitalGlobe, uma empresa baseada no Colorado especializada em imagem geoespacial, supostamente fornece imagens e algoritmos para o Project Maven. A IBM foi abordada para participar do projeto, usando inteligência artificial para analisar vídeo em streaming, segundo uma pessoa familiar com o assunto disse ao Gizmodo. A Nvidia também mostrou interesse no projeto, mas não está claro se a companhia tem um contrato oficial com o Maven — a IBM diz que não, enquanto a Nvidia se recusou a comentar. A DigitalGlobe ainda não respondeu ao nosso pedido de comentário.

A NGA (National Geospatial-Intelligence Agency), que fornece imagens e mapas para análise para as agências de inteligência dos EUA e o exército, abordou a IBM para participar do Project Maven, segundo o Gizmodo apurou. A NGA exerce uma função de apoio no Project Maven e fornece alguns treinamentos para uso de dados no desenvolvimento da inteligência artificial, segundo um relatório de julho de 2017 do Comitê de Inteligência da Câmara.

Um porta-voz da NGA confirmou ao Gizmodo que a agência contatou a IBM sobre o Project Maven, mas ressaltou que não concede contratos para o projeto — essa responsabilidade é do Departamento de Defesa. “A NGA teve uma série de engajamentos relativos ao Project Maven com múltiplas companhias, embora nós não tenhamos feito nenhum convite em específico”, acrescentou o porta-voz. “Nós queremos encorajar os relacionamentos da indústria e com todos que podem ter um papel para refinar as capacidades de agências de inteligência e do Departamento de Defesa no que diz respeito à automação, aprendizado de máquina e inteligência artificial.”

A IBM não assinou um contrato para trabalhar no Maven, explicou um porta-voz da companhia ao Gizmodo. “A IBM não tem e não teve nenhum contrato de trabalho no Project Maven”, disse. “Nós não temos como saber quais informações de outros projetos podem ter sido compartilhadas com o Maven.”

O contrato oficial do Google com o Maven é por meio de uma agência terceirizada, a ECS Federal, um arranjo que ajuda a esconder o quanto que o Google recebe e outros detalhes do contrato. Várias fontes do Google disseram ao Gizmodo que executivos afirmaram que o contrato com o Maven é de cerca de US$ 9 milhões, embora contratos de serviços nuvem tendem a ser cobrados pelo uso de dados; ao analisar a última divulgação de resultados financeiros do Google, é possível deduzir que o contrato é muito maior que isso. Um porta-voz do Google não respondeu quando questionado sobre o valor exato.

A IBM oferece uma série de serviços de inteligência artificial sob a marca Watson, batizada em homenagem ao fundador da companhia, Thomas Watson. A IBM tem historicamente contratos com militares e mantém fortes parcerias de negócios com o governo federal dos EUA — então a companhia poderia ser uma escolha mais lógica que o Google para o Project Maven. O Watson está sendo usando agora para prever as necessidades de manutenção de frotas de veículos blindados do exército, segundo informa a Trajectore, uma revista publicada pela ONG United States Geospatial Intelligence Foundation.

A fabricante de chip Nvidia, que teve uma recente alta no mercado financeiro ao se dedicar a produtos de inteligência artificial, tem também se associado ao Project Maven. Representantes da companhia falaram publicamente em eventos sobre o projeto, já convidaram representantes do Maven para falar em eventos corporativos e até testemunharam perante o Congresso dos EUA sobre o Maven. Um porta-voz da Nvidia se recusou a dar mais detalhes da empresa sobre o Project Maven.

“O Departamento de Defesa recebe um grande fluxo de vídeos. Dentro dessas gravações estão pedaços de inteligência, mas tem muita coisa para analisar, entender e, então, transformar isso em inteligência”, disse Kevin Berce, gerente de desenvolvimento de negócios da Nvidia, à Trajectory. “O aprendizado de tecnologia vai ajudar a mostrar aos analistas onde eles devem olhar. Se você busca por um caminhão branco? Então dê aos analistas apenas o vídeo em que o caminhão está.”

Durante um testemunho no congresso dos EUA em fevereiro, o vice-presidente da Nvidia e gerente de negócios da Tesla, Ian Buck, citou o Maven como um projeto exemplar para a rápida adoção de inteligência artificial pelo governo. “Usar inteligência artificial para reconhecimento aéreo é uma grande promessa para livrar os aviadores de terem de ficar olhando telas por oito horas por dia procurando por algum tipo de problema”, explicou Buck. O Departamento de Defesa se recusou a dar detalhes sobre contratos com empresas de tecnologia em específico, no entanto, o órgão disse que trabalha com vários fornecedores no Maven.

“Nós interagimos regularmente com uma variedade de fornecedores sobre capacidades que eles podem fornecer em apoio às atividades futuras e planejadas do Maven. Estamos interessados em uma grande variedade de companhias fornecendo tecnologia, automação de dados e capacidades de inteligência artificial”, disse um porta-voz do Pentágono sobre o Project Maven. “Não fornecemos detalhes sobre contratos em específico.”

O Project Maven deve se beneficiar bastante de suas parcerias com o setor privado. Mais de mil analistas rotularam imagens para fornecer treinamento de dados para os algoritmos do Maven, o que inclui os algoritmos desenvolvidos pela DigitalGlobe. Mas, no início do ano, esses algoritmos da DigitalGlobe conseguiam entregar um nível de acerto de 70%, segundo a Trajectory. Parcerias com líderes no campo de inteligência artificial, como Google, IBM e Nvidia, poderiam aumentar essa taxa. E embora funcionários do Google tenham mostrado insatisfação com a iniciativa, ainda não está claro se empregados de outras companhias fizeram o mesmo. Em uma petição solicitando que o Google deixasse a iniciativa, os Googlers já falavam dessa possibilidade.

“O argumento de que outras empresas, como Microsoft e Amazon, também estão participando não torna a decisão menos arriscada para o Google. A história única do Google, o seu lema “não seja mau” e sua influência na vida de bilhões de pessoas no mundo diferenciam a companhia dos outros”, escreveram.

No entanto, o Project Maven — e sua ligação com uso militar de drones — pode ser onde os funcionários da IBM traçaram um limite ético. “Há muitos trabalhadores da IBM que rejeitarão projetos que facilitem ataques ilegais de drone e outras violações internacionais de direitos humanos feitas pelo Exército dos Estados Unidos”, disse um funcionário da IBM que pediu anonimato, pois eles não estão autorizados a discutir sobre engajamentos da empresa com o Project Maven. Uma petição lançada por uma Coalizão de Trabalhadores de Tecnologia em abril pede que a IBM, junto com Google, Amazon e Microsoft, não aceite contratos do Pentágono, citando objeções ao Project Maven.

Em um post de blog, a IBM disse que tem o compromisso ético e responsável sobre o avanço da tecnologia de inteligência artificial e que a inteligência artificial deveria ser usada para aumentar a capacidade de decisão humana, e não substitui-la.

Se empresas como o Google querem que seus funcionários e o público confiem em suas decisões de aceitar contratos militares envolvendo inteligência artificial, transparência é crucial, disse Miles Brundage, especialista em políticas de inteligência artificial e pesquisador associado no Instituto do Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford.

“Eles podem fazer muitas coisas a esse respeito. Não está claro se eles querem tomar partido. A primeira coisa a ser feita é ser transparente, e as explicações até o momento não têm sido coerentes”, disse. “Quais são os princípios deles? Por que isso não é algo que é de interesse de acionistas ou do interesse público?”.

Imagem do topo: Pilotos usam cockpit de estação de controle terrestre para manejar aeronaves pilotadas remotamente durante missão de treinamento na base aérea de Creech em Indian Springs, Nevada (EUA). Crédito: Isaac Brekken/Getty Images