Como adiantamos por aqui, a Nasa anunciou hoje uma descoberta importantíssima: uma bactéria que consegue viver em um ambiente bastante tóxico, com arsênio, e o incorpora em seu corpo no lugar do fósforo (um dos 6 componentes da cesta básica necessária para todos os organismos-vivos) para formar o DNA. Por que tanta empolgação? O que isso tem a ver com aliens?

Recapitulando: a estrela da festa hoje atende pelo nome de GFAJ-1, a bactéria que foi descoberta no lago Mono, um piscinão salgado da Califórnia que tem toda a pinta de paisagem alienígena. Além do nome engraçado, o lugar é conhecido pelos altíssimos níveis de arsênio na água, que impossibilitariam a vida. Pelo menos é o que acreditavam até outro dia. (Para entender por que o arsênio é do mal e qual a função do fósforo, dê uma olhada neste ótimo infográfico da Folha). Uma equipe chefiada por Felisa Wolfe-Simon, do U.S. Geological Survey, em parceria com astrobiólogos da Nasa, pegou a bactéria para passear e cultivar e encontrou a peculiaridade em sua composição. O artigo explicando todos os detalhes da descoberta sai na próxima edição da Science, mas em resumo é esse: há um micro-organismo que se dá bem com o arsênio e parece não precisar de fósforo.

Achar um ser vivo novo, em condições tão estranhas e com essa mutação, seria importante por si só. Mas a expectativa era que a Nasa anunciaria a descoberta de vida alienígena. E aí, fomos enganados? Precisamos buscar mais conhecimento?

Veja como são as coisas: fiz em agosto de 2008 (no mesmo mês que entrei no Giz, por acaso) uma reportagem de capa para a Superinteressante sobre a busca de vida em outros planetas. Havia uma empolgação pela missão da Phoenix à Marte (que acabaria encontrando água) e recentes descobertas de "SuperTerras", planetas gigantes fora do sistema-solar (bastante longe) que poderiam ter um ambiente favorável ao aparecimento de organismos vivo. Parecia que a descoberta de um alien não-Bilu seria iminente, e eu e o editor-chapa Alexandre Versignassi apuramos quais eram os esforços que estavam rolando e o que faltava. Alguns astrobiólogos com quem conversei – alguns da NASA, inclusive – disseram que o problema de não acharmos algo rápido é que estávamos procurando, basicamente, por cópias da Terra e de organismos que conhecíamos. Nossa capacidade de observação e pré-conceitos seriam limitantes. Escrevi (versão director’s cut – diferente do texto final, reduzido)  

Se não dá para tirar fotos das outras estrelas, há outras maneiras de procurar vida lá fora, como estudar a composição de meteoritos ou cometas. A astrobióloga mexicana Graciela Matrajt, da universidade de Washington, desenvolveu um método de analisar, pelo radiotelescópio, a poeira cósmica para procurar nelas moléculas de carbono em compostos complexos, um dos ingredientes básicos para a vida. Como todos os astrobiólogos, ela segue a cartilha do que procurar em termos de indícios de vida: carbono, metano, oxigênio, aminoácidos, água… Mas não descarta a possibilidade de o exemplo terráqueo ser diferente da regra. “A vida como conhecemos é composta de carbono. Mas eu facilmente acreditaria que um ser é formado por outro elemento básico, como silício ou que tenha amônia como solvente em vez de água. Tenho certeza que a vida no universo é bastante diversificada, assim como é na Terra”, acredita. A tese dela vem sendo corroborada com a descoberta de seres cada vez mais estranhos na Terra, chamados de extremófilos. Catalogados principalmente a partir da década passada, esses seres, especialmente bactérias, vivem próximos a fendas marinhas, em temperaturas que beiram os 200°C e que não têm contato com a claridade, além de suportar uma pressão terrível. Eles poderiam facilmente viver em um oceano submerso em Europa e Titã. Extremófilos podem ser resistentes, mas estão longe de serem os animais inteligentes que muita gente espera encontrar em outros planetas. Aliens-micróbios são importantes para a ciência.

A descoberta hoje abre novos horizontes para a astrobiologia, ciência que estuda (por enquanto a possibilidade de) vida fora da Terra. Aliás, a astrobiologia está em um momento importante. As agências espaciais internacionais estão gastando como nunca em novos instrumentos de observação para achar exoplanetas, além de financiar pesquisas como essa, que aumentam o leque de opções biológicas. Tudo para aumentar a chance de encontrarmos um alien. E isso é importante, não apenas porque eu gosto de ficção científica.

Aí eu ouço algo do tipo: "Mas Pedro, tem tanta coisa acontecendo, gente morrendo e a gente gastando dinheiro com bactéria maluca e caçando aliens a milhares de anos-luz?"

Como eu falei, a descoberta de hoje é importante. E pode ser que nem saibamos por quê. E isso é lindo. Com o perdão pela auto-referência, terminei aquela reportagem assim:

“Na verdade a absoluta falta de certeza sobre o que vamos encontrar quando nos depararmos com a vida extraterrestre é o que faz a procura especialmente interessante”, afirma Yvan Dutil, que tem uma citação favorita para explicar o seu interesse. “Cristóvão Colombo viajou para o Novo Mundo disposto a achar especiarias, ouro e diamante. Voltou com batata, tomate e milho. E isso é 50% de nossa alimentação hoje. O que nos impactou não foi o que procurávamos”, dizia Daniel Goldin, diretor da Nasa entre 1992 e 2001, sobre porque gastar dinheiro procurando vida extraterrestre. A verdade está lá fora. E o que importa, afinal, é a busca.