Onde você estava quando a novela O Clone passava na televisão entre 2001 e 2002? Se você não lembra, a narrativa foi responsável por levar ao debate público um tema de desenvolvimento social. A ‘clonagem’ que foi abordada na trama envolvia o surgimento de um personagem (Murilo Benício) a partir de DNA humano. Apesar de ser um produto da cultura de massa, o drama de ficção trouxe ao público a divulgação da ciência.

Eu estou trazendo essa referência para explicar que o processo de clonagem é real, já aconteceu anteriormente em animais, mas é proibido em humanos no Brasil. 

Em 1997 nasceu a ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado a partir de uma célula somática adulta. Uma cópia perfeita de outra ovelha. Três animais (mães) contribuíram para seu nascimento. Numa mistura incrível, uma das mães forneceu ovócito (células germinativas produzidas no ovário), outra foi responsável pelos cromossomos (DNA) que foram inseridos no ovócito, e por último, a que segurou o B.O – responsável pela gestação.  

Você deve ter aprendido lá no ensino médio que, para reproduzir, apenas o óvulo não é suficiente. Precisa da outra parte do cromossomo para que a geração seja completa, ou seja, um espermatozoide que vem do macho. No entanto, para fazer o clone ou híbridos, é necessário tirar parte do DNA que já está acoplada ao óvulo e substituí-la por uma carga genética. A partir disso é necessário um estímulo artificial para que o óvulo (completo com a carga originária e com a inserida) se torne uma vida dentro do útero da ‘barriga de aluguel’. 

Isso não acontece somente por reprodução induzida. Você sabia que organismos que apresentam reprodução assexuada, como algumas espécies de bactérias, hidras, entre outras podem gerar clones? Nela, um único indivíduo origina seus descendentes, e não existe troca de material genético com outro organismo, assim, todos os ‘filhos’ – por assim dizer – são idênticos a quem os gerou. 

Parece surreal imaginar que a ciência avançou tanto que daqui a pouco consegue até copiar seres vivos – imagine uma cópia de Hitler? Ainda que estejamos falando do futuro, uma vez o cientista responsável pela clonagem da ovelha Dolly disse anos atrás ao The Guardian que a inovação abriria caminho para um ‘banco de amostras genéticas’ que seriam usadas por cientistas do futuro, com técnicas muito mais avançadas que permitiriam uma ‘Arca de Noé’ genética – capaz de trazer de volta animais já extintos e preservar aqueles que estão ameaçados. E isso graças à engenharia genética. 

Estou te contando isso porque Sir Ian Wilmut, o pesquisador que prometia isso, estava certo. A empresa americana Colossal anunciou que tem planos de trazer à vida um mamute extinto há 10 mil anos. Como? Utilizando reprodução híbrida a partir do DNA. 

A volta dos que não foram 

Se você já assistiu A Era do Gelo dificilmente vai se esquecer de como um mamute se parece. Nunca vimos um ao vivo, mas o fato é que ele nunca se foi – pelo menos não animações. Aliás, se você vir um elefante irá lembrar do mamute e está tudo bem – eles são parentes distantes. 

A vontade de ver o animal é tanta – além da adição para a ciência – que a empresa americana quer replicar o DNA. Foi analisando os genomas de mamutes-lanosos coletados de fósseis, que Eriona Hysolli, ex-pesquisadora do laboratório de Churc, Estados Unidos, juntamente com seus colegas, elaboraram uma lista das diferenças mais importantes entre os animais e os elefantes. Eles se concentraram em 60 genes que seus experimentos sugerem serem importantes para as características distintivas dos mamutes, como cabelo, gordura e o crânio com uma cúpula alta do mamute. 

Apesar de toda essa história que te contei sobre clones, dificilmente vamos ver um mamute 100% fiel ao que imaginávamos. Segundo os pesquisadores, o experimento não vai representar uma cópia exata do animal extinto – estaria mais para algo híbrido com outros animais. Ainda assim, a não-cópia, pode ter pelos, presas e outras características do mamute.

O novo desenvolvimento, que arrecadou cerca de 80 milhões de dólares, quer, na verdade, adaptar partes do material genético de elefantes asiáticos – o mamífero possui carga genética semelhante às do mamute. 

Os pesquisadores disseram que isso é possível graças ao habitat do animal, que normalmente era em regiões congeladas em que muitos mamutes morreram, mas nunca se deterioraram completamente. (As baixas temperaturas permitiram que amostras de tecido dos animais continuassem com o DNA inato). 

Para fazer isso, os cientistas vão tentar fazer um embrião de elefante com seu genoma (sequência completa do DNA) modificando para se parecer com um mamute antigo, removendo o DNA de um óvulo de elefante e substituindo-o pelo código genético do mamute – formando um embrião. (Lembra de toda história que te contei sobre reprodução? Ela entra aqui).

Restos mortais de um bebê mamute bem preservado, chamado Lyuba, exibidos em Hong Kong em 2012. Foto: Aaron Tam (Getty Images)

Esses embriões seriam então levados a uma mãe de aluguel (que seria algum elefante fêmea) ou potencialmente em um útero artificial – semelhante ao órgão do mamute. Se tudo correr conforme o planejado – e os obstáculos estão longe de serem triviais – os cientistas esperam ter seu primeiro par de filhotes em seis anos. 

E isso pode ajudar o meio ambiente

Cerca de 13 mil  anos atrás, mamutes lanudos foram fundamentais na pavimentação de um ecossistema chamado estepe de mamutes, uma vasta pastagem glacial que ajudou a moderar o clima mundial. O ambiente, que seria quase que uma paisagem coberta por musgos, não só prende o carbono, como também cria um local que reflete a luz do sol e o calor com um fenômeno chamado efeito albedo

Os cientistas acreditam que trazer de volta o mamute em uma forma híbrida poderia ajudar a restaurar o frágil ecossistema da tundra ártica, ajudar na crise climática e preservar o elefante asiático, ameaçado de extinção

Não veremos um clone de mamute tão cedo, como foi a ovelha Dolly ou Murilo Benício, mas seria ótimo ter um Manny de A Era do Gelo para chamar de nosso.