Apesar de milhares de anos de história tendo que lidar com a condição, surpreendentemente tem muito o que não conhecemos sobre a diarreia. Existem algumas formas de tratar os sintomas, mas grande parte do conhecimento dos cientistas sobre a diarreia, por doenças ou outras causas, é mais baseada em intuição do que dados.

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Um time internacional de pesquisadores está tentando descobrir como e por que o corpo joga tanta água extra no seu cocô. Ou, em certos casos, quando bactérias causam diarreia em ratos. O estudo pode ter vários tipos de implicação na forma como entendemos e tratamos o sintoma. Além de ser muito bom entendermos como e por que nosso corpo fica doente e sujo.

“Tentamos testar de forma mais detalhada”, o investigador principal do estudo, Jerrold Turner, do Brigham and Women’s Hospital e Harvard Medical Center, disse ao Gizmodo. “Perguntamos-nos: ‘Como a água passa pelo revestimento do seu intestino?’”

Lembrando que esse trabalho foi feito em ratos, não humanos. Mas os humanos têm essas mesmas proteínas em seus corpos, então pode ser um modelo útil para estudar o sintoma.

As paredes do intestino são cercadas de células bem parecidas com as da pele e um pouco de água, mas não muita, pode passar através dos furos do revestimento ou através das junções que normalmente selam o espaço entre as células.

Quando a cobaia ficou doente, as células imunes foram até a parede intestinal e liberaram a proteína chamada interleukin-22 (nós também temos essas proteínas). Essa proteína se juntou às células da parede do intestino, mandando-a liberar outra proteína, chamada claudin-2. Essa proteína causou um vazamento nas junções da célula que deixou a água entrar, fazendo as fezes do rato ficarem mais aguadas.

Os pesquisadores fizeram todos os tipos de testes em três tipos de ratos para tirar suas conclusões: ratos comuns de teste, ratos que produziam muita claudin-2 e ratos que não produziam nenhuma (os dois últimos foram modificados geneticamente nesse sentido). Os ratos normais ficaram com fezes mais aguadas quando ficaram doentes, e os ratos que produziam muita claudin-2 quase sempre tinham fezes aguadas.

Mas os ratos sem claudin-2 tiveram a pior experiência. “Seu sistema imune ficou louco tentando limpar a infecção que não conseguia”, disse Turner. Esses ratos tiveram danos mais sérios nas paredes de suas células e também tiveram diarreia, já que parece que o sistema imune atacou as células para ajudar a criar algumas bactérias liberadoras de diarreia. Os pesquisadores publicaram seu resultado no periódico Cell Host and Microbe.

Lembrando mais uma vez, “testes clínicos em ratos não levam sempre a sucesso em pessoas”, disse Turner. Mas o mero fato de entender como a diarreia acontece em resposta a uma infecção bacteriana é informação importante. Ainda existe dúvida se o propósito real da diarreia é na verdade expelir patógenos do corpo, por exemplo. Esse estudo corrobora essa hipótese.

Mandei o estudo para Michael Helmrath, um cirurgião que trabalha com intestinos e criou intestinos em seu laboratório. “Bom estudo”, ele disse por email. “Um ótimo trabalho.” Mas ele apontou alguns problemas. “O ponto chave aqui é que o mecanismo para o interleukin-22 e a resposta inata é prevenir diarreia infecciosa. Não é claro se esse é o mecanismo para todas as infecções, mas o conceito é novo e interessante.” Obviamente ,é apenas um estudo sobre um mecanismo dos nossos complexos corpos.

Porém, o estudo tem implicações além do mero entendimento da diarreia comum. Alguns cientistas consideraram entender o papel do claudin-2 na síndrome do intestino irritável, por exemplo. Mas se o corpo está usando essa química para se livrar de infecções, as coisas podem terminar ainda piores. Ninguém quer ser um rato com um sistema imune destruído.

“A diarreia é uma das principais causas de doenças e mortes no mundo todo”, disse Turner. “As pessoas pensam em remédios que previnam a diarréia. Mas eles nos dizem para… tomar cuidado com eles. Nesse caso, se você bloquear o patógeno, pode tornar a infecção ainda pior”.

De qualquer forma, a diarréia é um enigma. Mas a próxima vez que você for correndo à busca de uma privada, lembre que o seu corpo está provavelmente fazendo isso por um bom motivo.

[Cell Host and Microbe]

Imagem do topo: Ryan F. Mandelbaum/Pogrebnoj-Alexandroff/katoisi/Wikimedia Commons