No último dia 15 de abril, a Agência Pública publicou uma série de reportagens sobre abusos sexuais supostamente cometidos por Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, morto em 2014. O “supostamente” aqui é só um cuidado legal: as acusações são numerosas e plenas em detalhes. Qualquer processo justo concluiria que são verdadeiras. Segundo contam as vítimas e testemunhas, Klein abusou sexualmente de meninas entre 9 e 17 anos. Você não leu errado: meninas de 9 anos.

Minha primeira reação ao ler a história foi um misto de tristeza profunda com indignação e culpa. Tenho três filhas e ler os relatos destas meninas me causou profundo mal-estar. A indignação é óbvia para qualquer pessoa que tome conhecimento desta história e tenha um mínimo de humanidade. São crianças sendo levadas a fazer sexo por dinheiro e presentes.

Sinto culpa porque sou homem, sinto culpa porque sou jornalista e porque já tinha ouvido estes boatos e nunca achei que devia ir atrás de nenhum deles. Sinto culpa, acima de tudo, porque sou brasileiro e o Brasil não só permite que isto aconteça como permite que esta história morra pouco tempo depois de ter nascido.


Samuel Klein morreu. Criminalmente, ninguém pode ser culpado pelo que ele fez. Na esfera civil, porém, a coisa é diferente. Seus herdeiros são responsáveis por indenizar aqueles a quem ele tenha feito mal. Os abusos foram cometidos dentro das Casas Bahia. Funcionários da empresa participaram das operações montadas para que os crimes acontecessem e fossem acobertados. As meninas eram “pagas” com vales que podiam ser descontados nas lojas. Se isto não torna a empresa, a pessoa jurídica, cúmplice, eu não sei o que tornaria.

A Casas Bahia ter sido vendida não muda nada. Os atuais proprietários, entre os quais os herdeiros de Samuel, compraram o bom e o ruim. A atual empresa é sucessora da anterior em suas obrigações. É possível dar um pouco de conforto e  justiça às famílias. No entanto, você não tem lido sobre isso na Folha, no Globo ou no Estadão. E as TVs não têm falado no assunto. O caso simplesmente “morreu”. E é sobre isso que nós precisamos falar.


A Agência Pública foi fundada em 2011 pelas jornalistas Marina Amaral, Natália Viana e Tatiana Merlino – e é dirigida até hoje pelas duas primeiras. De acordo com o site delas, “Fundada em 2011 por repórteres mulheres, a Pública é a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil. Todas as nossas reportagens são feitas com base na rigorosa apuração dos fatos e têm como princípio a defesa intransigente dos direitos humanos.” Desde 2011, a agência produziu dezenas de reportagens, que podem ser republicadas desde que identificada a fonte. Por que, então, a grande imprensa brasileira não republica, não continua a investigar, não continua a repercutir?

Por que isso importa? Porque a Pública ainda não consegue atingir a mesma quantidade de pessoas que a grande imprensa consegue. Porque mesmo que as redes sociais da agência sejam ativas, grandes e repercutam, ainda acabam relativamente restritas a uma bolha. Se todos sabemos que as redes mudaram a dinâmica da produção e divulgação da informação, os tomadores de decisão ainda são majoritariamente influenciados por jornais e TVs – ainda que redes em geral possam influenciar estes. A Pública publicou as reportagens em abril e até agora só o Ministério do Público do Trabalho anunciou que vai investigar.

Jornalões não gostam de repercutir o que não foram eles que descobriram. Uma mistura de ciúme com falta de vontade de promover um concorrente. Há casos clássicos, porém, em que um jornalão foi atrás de uma história publicada por outro e aprofundou o conhecimento sobre o caso –  Watergate foi um deles.

A outra possibilidade é bem mais complicada, e é a que muitas pessoas vêm dizendo nas redes: a Via Varejo, empresa que hoje é dona das Casas Bahia e do Ponto Frio, ainda é um dos grandes anunciantes do Brasil. O Grupo Pão de Açúcar foi dono da empresa por muitos anos, e certamente não tem interesse em ver esta história sendo escarafuchada de novo.


Por algum motivo, entretanto, o caso não “pegou” nas redes. Numerosas meninas de até nove anos obrigadas a fazer sexo com um homem poderoso. Mas o caso não ganhou repercussão. É óbvio que se fosse apenas uma menina e ela fosse branca e rica o escândalo seria outro mas essa é outra discussão – não menos importante, mas outra.

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Covid-19 e governo Bolsonaro juntos conseguem praticamente monopolizar as atenções hoje em dia, não dá pra ignorar. Mas o recente caso de homofobia do “apresentador” Sikêra Jr. conseguiu monopolizar as pessoas. O Sleeping Giants já conseguiu afastar do programa mais de 30 anunciantes.

É aqui que entram os limites para a sociedade da indignação espontânea, e é nesse sentido que o silêncio cúmplice dos jornalões e TVs sobre o caso faz diferença. Se um assunto desta gravidade não pegou fogo espontaneamente, tem que ter ajuda para pegar fogo. É uma questão civilizatória. Se não tem, isto é uma falha do modelo com a qual precisamos nos preocupar.


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