O rover chinês Zhurong, da missão Tianwen-1, que pousou recentemente em Marte, deixou cientistas empolgados, em especial geólogos que esperam encontrar vulcões de lama, crateras, gelo subterrâneos e dunas de areia no caminho que o chamado rover Zhurong deve percorrer.

A primeira imagem do rover, que chegou em Marte no último sábado (14) já foi divulgada pela Agência Espacial da China (CNSA). Os sinais de rádio enviados depois que o rover desenrolou seus painéis solares, sugeriam que ele chegou à borda oeste de Utopia Planitia, maior bacia de impacto reconhecida em Marte, e posteriormente foi confirmado com o envio das imagens.

O local fica perto da fronteira entre as terras baixas do norte de Marte e as terras altas do sul. Os rovers da NASA Curiosity (há nove anos no planeta) e o Perseverance,  que chegou em fevereiro, também pousaram perto desta região. Tudo indica que a área pode ter sido a linha costeira de um antigo oceano que cobria o norte do planeta. “Muitas missões desejam detectar se existe uma costa real ou não”, diz Xiao Long, geólogo planetário da Universidade de Wuhan.

Agora é hora de pensar no itinerário do Zhurong. De acordo com Long, “cientistas de toda China terão a oportunidade de influenciar na jornada da sonda.” “Diversas equipes tentarão planejar a missão de ‘onde você iria em um período de 90 dias para completar o máximo de metas possíveis’”, disse Joseph Michalski, cientista planetário da Universidade de Hong Kong, à revista Nature.

Yuyan Zhao, geoquímica planetária do Instituto de Geoquímica da Academia Chinesa de Ciências, está animada e diz à Nature que sua prioridade é estudar a composição dos sedimentos para obter evidências de que eles foram alterados pela interação com a água, o que sugere que a área já foi imersa. Em contrapartida, Michalski argumenta que os processos geológicos mais recentes na área provavelmente obscurecem as evidências desse antigo corpo de água.

De grande interesse para os cientistas, uma rocha em forma de cone, pontilhada, vista em imagens aéreas, que fica a cerca de três quilômetros a noroeste da posição de Zhurong, indica que se trata de um vulcão formado de lava ou lama. Na Terra, os vulcões de lama estão associados à produção de metano por bactérias. “Sua presença em Marte pode ajudar a explicar grandes quantidades de metano que foram detectadas anteriormente na atmosfera marciana, mas ainda há um longo caminho”, diz Michalski.

Para descobrir o que de fato é essa rocha, Long explica que seria necessário o uso de um sistema baseado em laser ligado ao espectrômetro da sonda para mapear as rochas e analisar sua composição, bem como um radar de penetração no solo para estudar estruturas abaixo da superfície.

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Alfred McEwen, cientista planetário da Universidade do Arizona em Tucson, e principal investigador das imagens da HiRISE, câmera dentro da Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), sonda americana, defende à publicação que o cone perfurado também seria o “número um” em sua lista de objetos a serem investigados.

Mas, Zhao alerta que o cone pode estar fora do alcance de Zhurong. O objetivo da missão é cobrir uma distância de centenas de metros nos próximos três meses – embora o rover possa permanecer ativo por mais tempo.

Dunas de areia e gelo subterrâneo

A área onde Zhurong pousou também apresenta grandes dunas de areia que revelam que os ventos fluem em direção sudeste e noroeste,. É provável que o local também contenha rochas que foram ejetadas de crateras, então “haverá alguns tipos diferentes de rochas para explorar”, completa.

Os pesquisadores também esperam encontrar gelo abaixo da superfície. “Os penhascos e vales rasos que aparecem nas imagens aéreas lembram muito as formas vistas em regiões com camadas de permafrost do Canadá e da Sibéria – o que sugere que as feições em Marte também podem ter sido formadas por processos impulsionados pelo gelo”, analisa o cientista planetário.

Nos próximos dias, a equipe da CNSA verificará se os instrumentos de Zhurong estão funcionando, antes de dirigi-lo por uma rampa para fora do módulo de pouso. Para explorar todas essas características na superfície de Marte, o rover chinês pode se mover a uma velocidade de 0,2 km por hora. Mas é provável que o veículo espacial de 240 quilos se mova muito mais devagar, informa David Flannery, astrobiólogo da Queensland University of Technology em Brisbane, Austrália, que faz parte da equipe que trabalha no Perseverance.

O principal desafio será navegar pela paisagem rochosa complexa de forma autônoma, diz ele. Até mesmo o Perseverance – um veículo espacial do tamanho de um carro comum pesando mais de uma tonelada – provavelmente cobrirá apenas 100 metros por dia, tornando-o muito mais rápido do que qualquer outro veículo espacial antes dele.

[Nature]