Duas décadas de crescimento saudável, seguidas de quatro a oito décadas de colapso físico e mental em câmera lenta — essa é a vida para a maioria de nós, apesar dos vários esforços de maníacos bilionários da tecnologia. O tempo não poupa nada e parece atacar especialmente os nossos rostos, prestando tanta atenção às deformações no nível da pele (linhas de preocupação, rugas, tumores) quanto às deformação em grande escala, como a perda de firmeza da nossa carne, que, com o tempo, muda até o formato dos nossos rostos.

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Em graus variados, todos somos marcados pelo tempo ou ficaremos em breve. Não podemos reverter esse processo, mas podemos tentar entendê-lo. Para este fim, neste Giz Pergunta, contatamos alguns especialistas em envelhecimento e cirurgiões plásticos para descobrir por que nossos rostos mudam de forma conforme envelhecemos. Acontece que o que algumas pessoas chamam de “ganho de peso facial” pode, na verdade, ser outra coisa – e esse processo, infelizmente, não é nem a metade do que está nos esperando.

Derek M. Steinbacher

Professor Associado de Cirurgia Plástica, Diretor do departamento Craniofacial e Chefe de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial de Yale

O envelhecimento facial e as alterações nos ossos, pele e tecidos moles são, em parte, geneticamente predeterminados. “Desgastes” e exposições ambientais também são fatores. Em uma pessoa jovem, as células que formam os tecidos faciais são vigorosas, e existem compartimentos claramente definidos com anexos intactos segurando as estruturas de pele e faciais nos locais apropriados. A aparência de pele firme, maçãs do rosto desenvolvidas, contornos bem definidos — com áreas preenchidas contrastando sutilmente com as depressões — é o que define um rosto jovem. Com a idade e o tempo, esses limites começam a esticar e a perder sua integridade, o que leva ao deslocamento da camada gordurosa até áreas onde não existia gordura antes (por exemplo, papada) e à queda da pele e dos tecidos moles da face. É quase semelhante ao derretimento da cera, e, com a gravidade, as estruturas “vazam” ou migram para baixo.

Quando se trata de rejuvenescimento e correção do rosto envelhecido, reconhecemos que uma face jovem é, na verdade, uma face bem suportada, com preenchimentos e cavidades apropriados (reflexos leves e sombras nas fotografias), sem a flacidez ou derramamento/queda de tecido que vemos com o envelhecimento. Em algumas áreas, a gordura atrofia (encolhe) e cria cavidades (por exemplo, ao redor dos olhos).

Quais são alguns dos efeitos mais comuns do envelhecimento no rosto?

Começando na área da testa e das sobrancelhas, devido à ação prolongada do músculo preso à pele, marcas e rugas evidentes se desenvolvem horizontalmente em vincos verticais (como um número “11”), aparecem entre as sobrancelhas, dando uma aparência envelhecida. As próprias sobrancelhas começam a cair mais perto das pálpebras; e a pele ao redor das pálpebras se torna amontoada (esticada e redundante) sobre os cílios, bloqueando a visão. Esta dermatocálaze oblitera a dobra da pálpebra e dá uma aparência velha e cansada. A pele da pálpebra inferior fica parecendo com papel crepom, com círculos escuros se formando e um vinco óbvio entre a pálpebra e a bochecha.

Os compartimentos de gordura do rosto, geralmente sustentados pela retenção de ligamentos, começam a sair e a migrar para áreas mais baixas. Por exemplo, a gordura da bochecha desce e se acumula embaixo do nariz e acima dos lábios (formando profundas dobras “nasolabiais”), fazendo com que as maçãs do rosto pareçam menos definidas. A pele e a gordura na face inferior viram uma hérnia abaixo do queixo. Abaixo do queixo, indo em direção ao pescoço, um músculo fino (platisma) se espalha, formando “faixas”, e a gordura se transforma em uma hérnia e a pele se retrai — dando uma aparência de “papada de peru”.

Além do afrouxamento dos ligamentos faciais, da perda de elasticidade e a flacidez da pele, os ossos também mudam. O esqueleto facial é um sistema biológico, que passa por remodelações regularmente. Alterações osteoporóticas e reabsorção óssea podem ser um componente do envelhecimento. A perda de dentes também é um problema — resultando não apenas em menos suporte de tecido labial e facial, mas também acentuando a reabsorção óssea dos ossos alveolares (arcos das mandíbulas). Na mandíbula superior (maxilar), o osso encolhe na direção “para cima e para trás”, enquanto na mandíbula inferior, “para baixo e para frente”. Isso dá uma aparência idosa “desdentada” (como quando você vê um idoso sem suas dentaduras). O queixo/mandíbula parece mais proeminente e fecha demais, enquanto o osso maxilar retrai e os lábios (sem suporte) vão para dentro.

O envelhecimento facial é um processo biológico normal, e existem diferenças baseadas no gênero, na geografia, exposição aos elementos, doenças e no cuidado com a pele. A diversidade da face humana e as diferenças antropológicas, em si, são normais e belas. No entanto, a capacidade de alterar o envelhecimento facial (bioquímica, cirurgicamente, geneticamente) existe agora e pode melhorar a função e alterar a nossa experiência humana.

“Se você olhar para os rostos de jovens, independentemente do peso, seus rostos são cheios de convexidades!”

Michael Alperovich

Professor assistente de cirurgia na Universidade de Yale

Basicamente, existem compartimentos de gordura distribuídos por todo o rosto — ao redor de suas maçãs do rosto, ao redor de suas linhas de expressão, em volta da sua boca. Esses compartimentos de gordura são mantidos por esses ligamentos que vão essencialmente do osso do esqueleto facial até a pele. À medida que você envelhece, esses compartimentos de gordura começam a cair — eles diminuem —, então, se você avaliar um paciente cronologicamente, dos 20 aos 30 anos até os 50 e 60 anos, verá que a gordura facial desce para a parte inferior do rosto. Por esse motivo, os rostos dos pacientes tendem a parecer mais alongados à medida que envelhecem.

A outra coisa que acontece é que, mesmo com sua pele e sua gordura descendente, esses ligamentos ainda são retidos das superfícies ósseas do esqueleto facial, e então aquelas linhas proeminentes que você encontra em torno de sua boca, ou que se dobram entre seu nariz e seu boca, ficam mais recuadas e aparentes conforme a frouxidão aumenta no resto da sua pele. Mas essas partes do osso são fixas e firmes e, dessa forma, elas se tornam mais aparentes à medida que você envelhece. Basicamente, parecem rugas muito profundas devido ao fato de ainda estarem presas à superfície óssea inferior.

Alexes Hazen

Professor associado em Cirurgia Plástica, NYU School of Medicine

Nossos rostos mudam principalmente devido ao componente de tecido mole ou gordura de nossos rostos. Se você olhar para os rostos dos jovens, independentemente do peso, seus rostos são preenchidos e cheios de convexidades! À medida que envelhecemos, a gordura em nossos rostos se dissipa e também desce, devido ao envelhecimento das estruturas e da gravidade. O componente ósseo permanece estável, mas todo o resto envelhece e muda. Nós normalmente observamos narizes que parecem mais compridos e, portanto, maiores, isso se deve à queda dessa estrutura, lóbulos de orelha mais alongados e pendurados, e o mesmo fenômeno com o queixo e a papada! No rosto comum, vemos a maçãs do rosto ficarem mais caídas e menos definidas. Normalmente, os lábios também ficam mais finos. Todos esses fatores influenciam a forma e a aparência do rosto.

Angela Cheng

Professora assistente de cirurgia plástica no Emory University Hospital e no Grady Memorial Hospital

O envelhecimento facial é a combinação de múltiplos processos. Primeiro, temos a pele em si. A pele em si atrofia (a derme fica mais fina), ficamos com menos fibroblastos, mastócitos e vasos sanguíneos conforme envelhecemos. A pele se torna mais propensa a enrugar e ficar pendurada, e finas linhas começam a ficar mais profundas, especialmente nas áreas de animação facial — na testa, entre as sobrancelhas, nos cantos dos olhos e ao redor da boca.

Com o tempo, a nossa pele é danificada (especialmente pela exposição ao Sol e por escolhas de estilo de vida, como o tabagismo), o que leva a rugas, manchas e até mesmo tumores. O Sol danifica as fibras elásticas e faz com que elas se acumulem em arranjos anormais. O número de fibras de colágeno diminui, e as fibras restantes se tornam desorganizadas. Uma fina camada de derme chamada zona verde se forma entre a derme anormal (uma camada mais profunda da pele) e a epiderme (camadas externas da pele).

A pele solta se torna visível muitas vezes com a queda da sobrancelha, sob o queixo, bochechas e pálpebras. Conforme o tecido fica mais fraco, ele estica. A gordura facial também atrofia e desce por causa da exposição crônica à gravidade. Isso pode ser notado na área das têmporas, que fica oca, ou nos olhos, que parecem afundados. A gordura da bochecha desce, e elas parecem afundadas, dobras nasolabiais aumentam e a papada aparece.

Ross Andel

Professor da Escola de Estudos do Envelhecimento, Universidade do Sul da Flórida

Ocorrem alterações óbvias e visíveis na epiderme, a principal camada da pele, que tornam a pele menos flexível. O processo é chamado de reticulação e envolve uma ligação mais rígida/menos flexível entre as moléculas de colágeno e elastina. Isso é ampliado pelo afinamento da pele e pelo fato de os músculos faciais se contraírem continuamente, particularmente durante períodos de concentração ou excitação emocional (estresse), fazendo com que as rugas pareçam maiores ao longo do tempo.

Quando se trata do formato do rosto, os principais fatores são os ossos e os tecidos conjuntivos. Ossos, em particular, são bastante dinâmicos. Com o tempo, eles não se reconstroem tão bem, levando à redução geral da massa, o que pode levar a alterações na forma do rosto. As órbitas oculares aumentam, e a mandíbula diminui em comprimento e altura. O tecido conjuntivo no nariz e algumas mudanças no ângulo fazem o nariz parecer maior.

“Nós podemos impedir com cirurgias de diversos tipos — apesar de eu suspeitar que só deixamos o rosto diferente.”

Christopher B. Forrest

Professor e líder de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva da Universidade de Toronto e Diretor Médico no The Centre for Craniofacial Care and Research

Tudo se resume a fatores intrínsecos e extrínsecos. Bons genes são os intrínsecos, tabagismo e exposição ao Sol são os fatores que podemos controlar. Fisiologicamente, à medida que envelhecemos, nossos rostos perdem gordura, nossas fibras de colágeno de elastina se degradam, e os ossos do rosto se desgastam um pouco. Tudo isso contribui para o envelhecimento. É um processo bastante complexo e fascinante que nós, como cirurgiões plásticos e reconstrutivos, achamos que podemos impedir com cirurgias de diversos tipos — apesar de eu suspeitar que só deixamos o rosto diferente.

Dr. Leonard Guarente

Diretor do Glenn Center for Biology of Aging Research no MIT e cientista chefe no Elysium Health

O envelhecimento é acompanhado por uma perda de gordura subcutânea e um enfraquecimento do músculo esquelético denominado sarcopenia. Ambas podem dar uma aparência mais acabada e flácida aos traços faciais e, mais importante, levar a um declínio na força física e no tônus.

Ilustração do topo: Angelica Alzona (Gizmodo)