As geneticistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna foram anunciadas como as vencedoras do Prêmio Nobel 2020 em Química, nesta quarta-feira (7), por suas pesquisas sobre as chamadas “tesouras moleculares”, capazes de modificar genes humanos e ajudar principalmente na cura de doenças hereditárias. As duas vão dividir o valor de 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,3 milhões na conversão atual)

Charpentier, francesa de 51 anos, é diretora do Instituto Max Planck de Biologia de Infecções em Berlim. Já Doudna, americana de 56 anos, é professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Esta é a primeira vez na história que duas mulheres ganham juntas o Nobel de Química. Elas se juntam às outras cinco mulheres que já haviam vencido na categoria – a última vez aconteceu há mais de 100 anos, em 1901.

As vencedoras do Nobel 2020 em Química criaram um método conhecido como CRISPR-cas9, uma espécie de “tesoura genética” (ou molecular) que permite alterar parte do código genético de uma célula. O nome “tesoura” vem do fato de que é possível “cortar” uma parte específica do DNA, para que a célula em questão produza ou não determinadas enzimas. O método pode usar tanto células animais e vegetais quanto de microrganismos e humanos, alterando com precisão o código genético desses seres.

O trabalho das duas geneticistas foi publicado originalmente em junho de 2012 na revista Science.

Charpentier declarou que espera que seu trabalho encoraje outras pessoas a ingressar no campo científico, especialmente as mulheres. “Desejo que isso transmita uma mensagem positiva para as jovens que desejam seguir o caminho da ciência. Acredito que mostramos a elas que uma mulher pode ter impacto na ciência que elas estão fazendo”, afirmou.

Doudna, por sua vez, disse à Associated Press ter recebido com surpresa o anúncio de sua vitória no Nobel de Química. “Eu estou em choque. Minha maior esperança é que isso seja usado para o bem, para descobrir novos mistérios da biologia e para beneficiar a humanidade”, declarou.

“Há um enorme poder nessa ferramenta de genética que afeta todos nós. Não só revolucionou a ciência básica, mas também resultou em cortes inovadores e levará a novos tratamentos médicos inovadores”, disse Claes Gustafsson, presidente do Comitê do Nobel para Química e professor de bioquímica médica. Ele ainda comentou que qualquer genoma agora pode ser editado “para consertar danos genéticos” – no caso, doenças hereditárias ou que não possuam uma cura ou tratamento 100% eficazes.

No entanto, muitos cientistas alertam que a tecnologia desenvolvida por Charpentier e Doudna deve ser usada com cuidado, pois levanta questões éticas. Apesar de ter sido anunciada em 2012, as pesquisas com o CRISPR-cas9 ganharam notoriedade em 2018, quando o cientistas chinês He Jiankui revelou ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo. Na época, o pesquisador disse ter feito isso para tentar criar uma resistência a futuras infecções com o vírus HIV, mas seu trabalho foi denunciado como experimentação humana insegura devido ao risco de causar mudanças não intencionais que poderiam passar para gerações futuras. Atualmente, Jiankui está preso na China.

[Nobel, Phys.org]