Os americanos Harvey J. Alter e Charles M. Rice e o britânico Michael Houghton foram os vencedores do Prêmio Nobel de Medicina de 2020. Eles foram anunciados nesta segunda-feira (5) pela Academia Sueca, em Estocolmo, por terem descoberto o vírus causador da hepatite C. Os cientistas receberam 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,3 milhões), e dividirão o prêmio em partes iguais.

O Nobel de Medicina é o primeiro de uma série de seis prêmios que serão anunciados até 12 de outubro. Nesta terça-feira (6), serão revelados os ganhadores do Prêmio Nobel de Física; na quarta (7), o de Química; na quinta (8), o de Literatura; e na sexta-feira (9), o Nobel da Paz. Haverá ainda o Nobel de Economia, que será entregue na próxima segunda-feira (12).

“Graças à descoberta, testes de sangue altamente sensíveis para o vírus agora estão disponíveis e estes testes essencialmente eliminaram a hepatite pós-transfusão em muitas partes do mundo, melhorando a saúde global. A descoberta também permitiu o rápido desenvolvimento de medicamentos antivirais direcionados à hepatite C. Pela primeira vez na história, a doença agora pode ser curada, aumentando a esperança de erradicar o vírus da população mundial”, declarou o comitê do Nobel.

Alter, que é virologista, nasceu em 1935 em Nova York (EUA) e se formou em medicina pela Escola da Universidade de Rochester. Seus estudos premiados pelo Nobel aconteceram no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (também conhecidos pela sigla NIH), em Bethesda, onde atua até hoje. Alter associou sua pesquisa a transfusões de sangue, que por sua vez demonstraram que um vírus, até então desconhecido, era uma causa comum de hepatite crônica.

Também virologista, Rice nasceu em 1952 em Sacramento, na Califórnia, e estudou a hepatite na Universidade de Washington, em St. Louis. Hoje, trabalha na Universidade Rockefeller, em Nova York. Rice foi responsável por detectar que o vírus da hepatite C podia causar a doença sozinho, sem interferência de outros fatores.

Por fim, Houghton nasceu em 1950 na Grã-Bretanha e também atua como virologista. Ele estudou na Chiron Corporation, na Califórnia, antes de se mudar para a Universidade de Alberta, no Canadá, onde ocupa o cargo de diretor do Instituto de Virologia Aplicada. Houghton conseguiu isolar o genoma do vírus que mais tarde veio a se tornar o vírus da hepatite C.

Nobel de Medicina 2020. Imagem: Nobel

As descobertas de Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice ajudaram na criação de medicamentos contra a hepatite C. Imagem: Nobel

Graham Foster, professor de hepatologia da Queen Mary University, em Londres, disse que a descoberta da hepatite C evitou que milhões de pessoas ficassem doentes ou morressem da doença ou por outros problemas hepáticos. O acadêmico ainda destaca que a descoberta do vírus teve impactos significativos em países em desenvolvimento, como Egito e Paquistão, onde milhões de cidadãos foram infectados por meio de equipamentos ou procedimentos médicos contaminados. Segundo Foster, os medicamentos atuais oferecem uma eficácia de 96% em um tratamento que dura cerca de oito semanas.

Sobre o vírus

O vírus da hepatite C causa uma inflamação no fígado que pode se tornar crônica e evoluir para cirrose e um tipo de câncer chamado carcinoma hepatocelular. Aproximadamente 30% das pessoas infectadas eliminam o vírus dentro de seis meses após a infecção, enquanto os outros 70% desenvolvem a pior forma da doença. No entanto, a maioria dos infectados não sabe que está com o vírus, já que 8 em cada 10 pessoas não apresentam sintomas.

Em alguns casos, o paciente precisa passar por cirurgia de transplante de fígado. O vírus é transmitido pelo sangue ou outros fluidos corporais e não existe vacina, porém o tratamento oferece chance de cura acima de 95%. Os pacientes são medicados com antivirais de ação direta e se submetem ao tratamento por um período de dois a três meses.

Diferente da hepatite A, que é transmitida por alimentos ou água contaminada e pode causar uma infecção aguda que chega a durar algumas semanas, as hepatites B e C são transmitidas diretamente pelo sangue. As hepatites A e B possuem vacinas, ambas distribuídas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Existem ainda outros dois tipos de hepatite: a D, que só pode infectar quem já pegou o vírus da hepatite B, e a E, que tem um medicamento imunizador, mas que é produzido e licenciado na China e não é acessível em todo o mundo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2017, mais de 70 milhões de pessoas conviviam com a hepatite C na forma crônica. Só naquele ano, foram registradas mais de 400 mil mortes. No Brasil, estima-se que, em 2016, cerca de 657 mil pessoas estavam com vírus ativo. O tratamento é oferecido no SUS e é 100% gratuito.

A OMS estima que, graças às descobertas mais recentes, a doença será erradicada até 2030.

[Nobel, AP, G1]