O cientista chinês He Jiankui, da Universidade do Sul da Ciência e Tecnologia da China em Shenzhen, diz ter participado do processo de remoção do gene CCR5, crucial para a infecção por HIV, de duas garotas gêmeas nascidas este mês. A alegação, entretanto, levanta dúvidas.

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Uma matéria da MIT Technology Review publicada hoje cedo traz a revelação de que cientistas vêm fazendo experimentos com edição genética para criar seres humanos resistentes ao HIV. Horas depois, uma entrevista com He Jiankui foi publicada pela agência de notícias Associated Press. Nela, o cientista diz que duas garotas gêmeas nasceram no começo deste mês após ele ter editado o DNA delas para remover o gene CCR5 usando a tecnologia conhecida como CRISPR. He também divulgou um vídeo institucional falando sobre o nascimento.

Esse gene, segundo a matéria da AP, “forma um portal de proteínas que permite que o HIV, o vírus que causa a AIDS, não entre em uma célula”. A intenção do teste era criar descendentes com resistência ao HIV e também à varíola e à cólera.

A afirmação de He, no entanto, causou estranheza e desconfiança. O trabalho não foi publicado em nenhum periódico científico, o que significa que não houve uma revisão da metodologia usada. Além disso, nenhuma fonte independente confirma o nascimento das crianças com DNA editado. A matéria da revista do MIT, no entanto, traz diversos documentos do site do Registro Chinês de Ensaios Clínicos (ChiCTR).

O TechCrunch falou com uma representante do hospital que supostamente aprovou o estudo de He. Ela declarou: “O que podemos dizer com certeza é que o processo de edição genética não ocorreu em nosso hospital. Os bebês não nasceram aqui também.” Geneticistas consultados pela AP avaliaram os materiais que He entregou à agência e dizem que os testes são insuficientes para garantir ou descartar que a edição realmente aconteceu e foi bem sucedida.

Cientistas ouvidos pela AP também criticaram a iniciativa de He. Kiran Musunuro, especialista em edição genética da Universidade da Pensilvânia, disse que o experimento “não é moralmente ou eticamente defensável”. Eric Topol, que chefia o Scripps Research Translational Institute, disse que a questão é muito delicada. Já George Church, da Universidade Harvard, diz que a tentativa é justificável como tentativa de combater o HIV, que é uma “grande e crescente ameaça à saúde pública”.

A revelação dos supostos primeiros bebês com genes editados também não foi notificada aos organizadores da Segunda Conferência Internacional em Edição de Genoma Humano, que deve começar nesta terça-feira (27) em Hong Kong. A Universidade do Sul da Ciência e Tecnologia da China em Shenzhen, que abriga o laboratório de He, diz que o trabalho do cientista “violou seriamente padrões e valores éticos da academia” e que planeja investigar.

[MIT Technology Review, AP, TechCrunch]