O problemático projeto de criptomoedas Libra, do Facebook — que já enfrentou forte oposição no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara e no Comitê Bancário do Senado dos EUA — terá pela frente mais resistência dos reguladores.

Na quarta-feira (10), de acordo com a Wired, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o sistema de bancos centrais dos EUA, disse ao comitê da Câmara que ele tem “preocupações muito sérias” sobre a entrada do Facebook no setor de finanças nas áreas de privacidade, lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e estabilidade da estrutura financeira global.

Ele acrescentou que “o processo de abordar essas questões deve ser paciente e cuidadoso, não uma corrida apressada”, e que o Fed estava trabalhando com outras agências e bancos centrais estrangeiros para entender o possível impacto da Libra.

Segundo a Wired, os equivalentes de Powell em outros países estão levantando preocupações semelhantes sobre o projeto. Uma das questões é que a criptomoeda dependeria de uma associação que fica na Suíça para administrar sua plataforma, supervisionar seu fundo de reserva e, assim, “operar uma rede financeira global fora da estrutura normal de bancos centrais como o Fed”. (O Facebook está trabalhando com dezenas de empresas parceiras que teriam o poder de voto de 1% na associação, mas, seja como for, a companhia de mídia social é de longe a maior interessada, já que tem planos de integrar pagamentos com Libra via um serviço de carteira chamado Calibra em sua extensa rede social.)

A Wired escreve:

As preocupações de Powell vêm na esteira de comentários semelhantes dos principais reguladores na Europa e na Ásia. No domingo, Benoît Cœuré, um executivo do Banco Central Europeu, descreveu a Libra como um “alerta” para os reguladores, dizendo que ela não poderia operar em um “vácuo” fora da estrutura típica dos bancos centrais.

(…)

Powell também confirmou que havia se encontrado com representantes do Facebook nos meses que antecederam o anúncio de Libra como parte da turnê global da empresa de tecnologia para fazer reuniões com autoridades financeiras. Aparentemente, muitos reguladores deixaram essas reuniões insatisfeitos. Além da UE, reguladores do Reino Unido, Japão e Cingapura pediram um maior escrutínio sobre a Libra nas últimas semanas.

No início desta semana, o Facebook disse que não tem planos de oferecer os serviços da carteira Calibra na Índia, onde as autoridades proibiram os bancos de lidar com criptomoedas no ano passado e, segundo matérias publicadas, uma proibição total pode eventualmente ser implementada.

O secretário de Assuntos Econômicos da Índia, Subhash Garg, disse à Bloomberg nesta semana que o “projeto da moeda do Facebook não foi totalmente explicado. Mas seja o que for, seria uma criptografia privada, e isso não é algo com o qual nos sentimos confortáveis”.

O Facebook tem centenas de milhões de usuários na Índia, país que, segundo dados do Banco Mundial, é líder mundial em remessas. Isso faz com que o fracasso em lançar a carteira por lá seja um sério golpe nas ambições financeiras globais da empresa.

O Facebook não opera na China, embora a Bloomberg tenha informado recentemente que funcionários do Banco Popular da China (o banco central do país, chamado de PBC na sigla em inglês) levantaram preocupações sobre os efeitos da Libra sobre empréstimos, política monetária e “riscos cambiais em economias com uma moeda local volátil”, ou seja, uma mudança em massa da moeda local para a Libra.

De acordo com a reportagem da Bloomberg, o vice-diretor de pagamentos do PBC, Mu Changchun, também afirmou que o Facebook ainda precisa explicar como vai lidar com a privacidade do usuário, lavagem de dinheiro ou preocupações com o terrorismo. Ele também afirmou que a criptomoeda deve ser regulada pelas autoridades monetárias.

A deputada Maxine Waters — que pediu uma moratória sobre o desenvolvimento da Libra até que as preocupações sejam abordadas — também perguntou a Powell se o Facebook poderia se posicionar como uma instituição financeira “grande demais para falhar” sob a lei Dodd-Frank de reforma financeira. Powell respondeu que isso ainda não foi determinado, embora os reguladores estejam investigando o assunto.

Chris Hughes, co-fundador do Facebook que passou a criticar abertamente o poder maciço da empresa, recentemente alertou, em um artigo de opinião publicado no Financial Times, que “os objetivos da Libra Association dizem especificamente que a capacidade encorajará ‘formas descentralizadas de governança’. Em outras palavras, a Libra vai atrapalhar e enfraquecer os estados nacionais, permitindo que as pessoas saiam de moedas locais instáveis ​​e passem a usar uma moeda denominada em dólares e euros e administrada por corporações”.

De acordo com a CNBC, o crescente retrocesso resultou em um ceticismo da indústria de que o projeto Libra realmente irá ao ar até a data de lançamento, que está planejada para o primeiro semestre de 2020:

Para lançar a Libra e a Calibra com sucesso, o Facebook terá que superar várias regulamentações financeiras relacionadas a lavagem de dinheiro, transferência de dinheiro, títulos de crédito e privacidade de dados, disse Charley Moore, CEO da Rocket Lawyer, uma empresa de San Francisco que fornece serviços jurídicos on-line. O Facebook também terá que navegar por todos esses regulamentos, já que eles diferem de região para região, disse Nayar.

“Somente nos EUA, eles podem diferir por cidade, por estado e em nível federal”, disse ele. “Dada a amplitude do alcance do Facebook e as amplas ambições de sua nova moeda, é difícil prever qual área será mais desafiadora para eles.”

“Muitos países estão legitimamente assustados com a possibilidade de o impiedoso e imoral monstro do Facebook colocar seus tentáculos no controle de seus sistemas monetários e bancários”, disse Matt Ocko, um dos primeiros investidores do Facebook, à CNBC. “Espero em Deus que os reguladores esclarecidos matem essa coisa em seu caminho.”

A Wired pediu para o Facebook comentar as questões. Em resposta, a empresa encaminhou uma carta escrita pelo chefe da Calibra, David Marcus, a senadores céticos, e também disse ter concordado com o pedido de Powell por uma abordagem “paciente e cuidadosa” no lançamento do projeto Libra.

[Wired]