Quase todo mundo que tem cachorro já parou para pensar em que idade ele teria se fosse humano. Uma das regras mais usadas é multiplicar a idade do animal por 7. Uma nova pesquisa, porém, demonstrou que essa aproximação não corresponde à realidade e desenvolveu uma fórmula bem mais apurada. Usando uma análise química do material genético de cães e humanos, o estudo descobriu que os animais envelhecem muito rápido no começo da vida.

O trabalho foi feito por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego e foi publicado nesta quinta-feira no periódico científico Cell Systems. Os cientistas analisaram a presença de grupos metil no genoma dos humanos e dos animais.

O novo método, portanto, fornece um “relógio epigenético”, capaz de determinar o envelhecimento de um órgão ou tecido baseado nas mudanças químicas do material genético. A epigenética é a área da genética dedicada a estudar processos que alteram o funcionamento dos genes sem alterar a sequência genética em si.

A metilação do DNA, por exemplo, influencia em que genes estão “ligados” ou “desligados” sem alterar o genoma. De acordo com Trey Ideker, um dos co-autores do estudo, essas mudanças epigenéticas dão pistas do envelhecimento, como se fossem rugas no rosto.

Comparação entre fases da vida de um cachorro e fases da vida de um humano, representado aqui pelo ator Tom Hanks. Imagem: Trey Ideker/UC San Diego

O resultado do estudo é um gráfico que pode ser usado para estimar a “idade humana” de um cachorro. Ele é bem íngreme no começo e fica mais próximo da horizontal depois: os cientistas descobriram que os cães envelhecem muito mais rápido que os humanos no começo de suas vidas, mas esse ritmo diminui a partir dos 7 anos de idade, quando cada ano de vida canino equivale a dois anos humanos ou menos.

Pelo gráfico, um cachorro de um ano de idade teria o equivalente a 30 anos humanos — ou seja, seu bebê canino já não é nem um pouco bebê mais. Aos 4, é como se o cachorro já tivesse 52 anos humanos.

Ideker comenta que essas descobertas fazem sentido quando você leva em consideração que um cachorro já pode reproduzir aos nove meses de idade. Este conhecimento também pode ajudar veterinários a tomar intervenções antienvelhecimento.

De acordo com o comunicado da Universidade da Califórnia em San Diego, Ideker e outros pesquisadores já haviam criado outros relógios epigenéticos para humanos, mas sua aplicação era limitada aos indivíduos que serviam como base para os estudos, sem poder ser extrapolada para outras pessoas.

A ideia de estudar os cães veio de Tina Wang, que havia sido aluna de Ideker na graduação. O fato de os cachorros serem provavelmente os animais mais próximos dos humanos facilitou os trabalhos, já que eles estão expostos aos mesmos fatores ambientais e recebem nível de tratamento médico semelhante.

O estudo, porém, também tem suas limitações. Como ele foi feito com cães da raça labrador, talvez se aplique somente a ela, já que algumas raças vivem em média mais tempo do que outras. Os pesquisadores pretendem testar isso e verificar também se é possível conferir o relógio epigenético por amostras de saliva dos bichinhos. Eles também pretendem desenvolver um relógio epigenético para ratos com o objetivo de usá-los para estudar e desenvolver novas formas de combater o envelhecimento.