De acordo com uma pesquisa recente, ração para cães contém quantidades alarmantes de bactérias resistentes a antibióticos, o que a torna um “risco para a saúde pública internacional” pouco discutido.

Cientistas, incluindo aqueles do Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), aconselharam contra a tendência crescente de alimentar animais de estimação com comida crua, citando o risco de espalhar germes como Escherichia coli, Salmonella e Listeria. Uma nova pesquisa apresentada no Congresso Europeu de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas destaca outro perigo representado esses alimentos para animais de estimação: a exposição a bactérias multirresistentes a medicamentos.

A equipe encontrou níveis perturbadores de bactérias resistentes a antibióticos em dezenas de produtos de ração para cães comprados em supermercados e pet shops em Portugal. Algumas destas superbactérias foram consideradas iguais às documentadas em doentes de hospitais europeus, expondo potencialmente a comida de cão a um “risco internacional para a saúde pública”, conforme Ana Freitas, co-autora do estudo e investigadora da Universidade do Porto em Portugal, disse em um comunicado de imprensa.

Para entender melhor isso, a equipe analisou 55 amostras de alimentos para cães comprados em lojas em Portugal. Elas incluíram 25 marcas internacionais e nacionais, e foram categorizadas como úmidas, secas, semi-úmidas, guloseimas e congeladas cruas, sendo que esta última incluía alimentos como pato, salmão, aves, cordeiro, ganso, carne bovina e vegetais.

Destas amostras, 54% continham vestígios de Enterococcus. A bactéria está presente no intestino humano e no trato vaginal, e também no solo e na água, mas pode “se espalhar de uma pessoa para outra através do contato com superfícies ou equipamentos contaminados ou através da disseminação de pessoa para pessoa, muitas vezes através de mãos contaminadas”, de acordo com o CDC.

Todos os alimentos crus para cães no estudo continham múltiplas Enterococcus resistentes a drogas — apenas três amostras não matérias continham a bactéria. Mais de 40% das Enterococcus foram consideradas resistentes a antibióticos comuns, como eritromicina e tetraciclina, bem como a antibióticos de último recurso, como vancomicina, teicoplanina e linezolida.

As Enterococcus estão se tornando cada vez mais tolerantes aos antibióticos. Em 2017, as bactérias resistentes à vancomicina foram responsáveis por cerca de 54.500 infecções e 5.400 mortes em algumas regiões nos Estados Unidos.

Bactérias resistentes a medicamentos são um risco significativo para a saúde porque tornam arranhões e infecções menores muito mais perigosas e às vezes até fatais. Os números fornecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, globalmente, cerca de 700 mil pessoas morrem a cada ano por causa desses micróbios. E é um problema que só vai piorar: a OMS estima que, em 2050, 10 milhões de pessoas morrerão a cada ano de germes multirresistentes aos medicamentos. Daí a importância de identificar a origem desses patógenos e encontrar maneiras de prevenir sua disseminação contínua.

“Dietas à base de carne crua são cada vez mais populares para a alimentação de cães, mas a extensão das bactérias resistentes aos antimicrobianos nesses alimentos raramente é abordada a nível global”, escreveram os cientistas em uma carta de pesquisa publicada pelo CDC. 

Outro ponto do estudo foi a taxa de diversidade de Enterococcus que, segundo os pesquisadores, foi inesperadamente alta. O sequenciamento genético confirmou alguns dos germes como sendo do mesmo tipo encontrados em pacientes de hospitais na Alemanha, Reino Unido e Holanda, e também em gado e águas residuais no Reino Unido. Um estudo da mesma equipe sugere que genes associados com bactérias resistentes estão sendo passados para os seres humanos através de alimentos para cães.

Outra equipe de Portugal apresentou evidências na mesma reunião mostrando que o gene mcr-1, que ajuda as bactérias a resistir aos antibióticos, está sendo passado entre humanos e seus animais de estimação. Este artigo de pesquisa, que ainda precisa ser submetido a um periódico científico, apresenta um “cenário de pesadelo” em que o mcr-1 está “se combinando com bactérias já resistentes aos medicamentos para criar uma infecção verdadeiramente intratável”, de acordo com um comunicado à imprensa.

Freitas e seus colegas alertam que os alimentos crus para cães podem ser um veículo emergente de transmissão da resistência aos antibióticos, e isso porque esse tipo de alimento consiste em muitos ingredientes crus retirados de diferentes fontes, incluindo animais de criação envolvidos na criação intensiva.

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“As autoridades europeias devem aumentar a conscientização sobre os riscos potenciais à saúde ao fornecer dietas crus para animais de estimação e a fabricação de alimentos para cães, incluindo a seleção de ingredientes e práticas de higiene, deve ser revista”, disse Freitas no comunicado. Quanto aos donos de cães, eles devem lavar as mãos com água e sabão imediatamente após manusear a ração e depois de recolher o cocô do cachorro. Portanto, pare de alimentar seus animais de estimação com carne crua.