Uma tarefa de recesso escolar para estudantes de geologia resultou na descoberta de isótopos radioativos em níveis mais altos do que o esperado no mel produzido ao longo da costa leste dos EUA. A quantidade de radiação não é considerada perigosa, mas a descoberta aponta para o legado dos testes nucleares feitos durante a Guerra Fria.

Em 2017, os alunos do primeiro ano de geologia da William & Mary, no estado da Virginia, foram encarregados de coletar amostras de alimentos durante suas férias de primavera. O objetivo do exercício era demonstrar como, mesmo 60 anos depois, a precipitação radioativa dos testes nucleares da Guerra Fria ainda persiste nos alimentos.

No início, as amostras produziram os traços típicos, mas as coisas ficaram estranhas quando Jim Kaste, professor associado do Departamento de Geologia da universidade e principal autor do novo estudo, usou seu detector gama para escanear uma amostra de mel. O aparelho mostrou que o césio-137, um isótopo radioativo, estava em níveis 100 vezes maiores do que os outros alimentos.

“Eu medi novamente porque pensei que algo aconteceu com o recipiente ou meu detector poderia estar maluco”, explicou Kaste em um comunicado da universidade. “Eu reproduzi a medição. E era, novamente, 100 vezes mais quente do que qualquer um desses outros alimentos.”

Deste modo, o que era para ser uma simples e interessante tarefa para estudantes de geologia foi subitamente transformado em um estudo completo, cujos resultados agora aparecem na Nature Communications. Kaste e seus colegas obtiveram amostras de mel de produtores locais verificados ao longo da costa leste americana, descobrindo que 68 das 122 amostras de mel, do Maine à Flórida, continham quantidades variáveis de césio-137 radioativo, embora em níveis não considerados perigosos para a saúde humana. E não estamos falando de potes de mel que ficaram parados nas prateleiras das lojas por anos ou décadas — mas sim do seu estado natural.

“Não estou tentando dizer às pessoas que não devem comer mel. Eu alimento meus filhos com mel”, disse Kaste. “Eu como mais mel agora do que quando comecei este projeto.”

O risco de a precipitação radioativa atingir a cadeia de produção de alimentos depois dos desastres nucleares de Chernobyl e Fukushima é uma preocupação legítima. Mas, de novo, volto a enfatizar: os níveis de césio-137 detectados no mel dos EUA não são um problema para a saúde. O que o novo artigo mostra, no entanto, é até que ponto os testes de armas nucleares feitos durante a Guerra Fria continuam a afetar a atmosfera.

Dos testes para o mel

“Durante meados do século 20, cinco países testaram mais de 500 armas nucleares no ar, que, juntas, liberaram muito mais radiação ionizante para a atmosfera do que qualquer outro evento ou combinação de eventos na história da humanidade”, indica o novo estudo.

A maioria desses testes foi realizado nas Ilhas Marshall no Oceano Pacífico e na região do arquipélago russo de Novaya Zemlya na antiga União Soviética. Em grande parte, esses testes atmosféricos foram interrompidos após o Tratado de Proibição de Testes Nucleares de 1963, exceto por alguns feitos na China e na África durante as décadas de 1960 e 1970. As evidências desses testes ainda podem ser encontradas em todo o planeta na forma de césio-137 — um subproduto da fissão nuclear.

Não é possível comparar os níveis atuais desta precipitação radioativa com um teste nuclear específico, mas os cientistas “sabem que a produção de césio-137 do Pacífico e da Rússia foi 400 vezes maior do que a produção das explosões do Novo México e Nevada”, disse Kaste. Na verdade, uma única Tsar Bomba soviética era pelo menos “50 vezes mais poderosa do que todos os testes de Nevada e Novo México combinados”, acrescentou.

Mas como as consequências nucleares da Guerra Fria foram para no mel? Essa é uma excelente pergunta, e o novo artigo narra a provável rota tomada pelo césio-137 enquanto ele viajava por todo o planeta e, especificamente, para a costa leste dos Estados Unidos. Além do mais, o documento também fornece uma explicação de por que parte dessa radiação residual aparece em maiores quantidades em certos locais.

Como explicam os geólogos, a maior parte das partículas radioativas pousaram nas imediações dos testes, mas algumas subiram para a estratosfera. Com isso, os ventos predominantes a leste levaram os isótopos aos céus dos EUA, e as chuvas frequentes ao longo da parte leste do continente os trouxeram para a superfície. Então, 60 anos depois, o césio-137 (que apresenta meia-vida de aproximadamente 30 anos) continua sendo a forma dominante de poluição por radiação ionizante no meio ambiente, de acordo com o estudo.

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Os níveis de césio-137 variaram ao longo da costa, com o mel da Virgínia exibindo praticamente nenhuma porcentagem, enquanto as amostras da Flórida continham uma quantidade considerável. Taxas variáveis ​​de precipitação podem parecer uma explicação lógica, mas os pesquisadores dizem que este não é o caso, apontando em vez disso para o teor de potássio dos solos locais. As regiões com baixo teor de potássio produziram as maiores quantidades de césio-137 no mel, enquanto as regiões com alto teor de potássio produziram alguns dos menores índices. Acontece que as plantas absorvem potássio para a alimentação e, como os átomos de césio e potássio parecem semelhantes, as plantas famintas em solos com baixo teor de potássio estão devorando o césio-137 disponível.

Insetos polinizadores — principalmente abelhas — coletam esses isótopos da Guerra Fria durante suas rondas diárias, resultando no mel (ligeiramente) radioativo. Como escrevem os geólogos, essa cascata de solo, plantas e polinizadores “pode aumentar” a presença de césio-137 em “várias ordens de magnitude” no mel proveniente de regiões específicas com baixo teor de potássio no solo. Contudo, embora não haja preocupação com a saúde humana, há preocupação com os insetos polinizadores.

“O que vemos hoje é uma pequena fração da radiação que estava presente durante as décadas de 1960 e 1970”, disse Kaste. “E não podemos dizer com certeza se o césio-137 tem algo a ver com o colapso das colônias de abelhas ou o declínio da população.”

Na verdade, nenhuma conexão foi feita para ligar essa poluição da Guerra Fria ao declínio dramático nas populações de abelhas, mas provavelmente é algo que vale a pena examinar. Infelizmente, o legado desses testes continua a nos assombrar, de maneiras que nunca poderíamos ter imaginado.