Após a conclusão da missão Chang’e 5, que em dezembro de 2020 trouxe a primeira coleta de amostras lunares desde 1976, a China abriu novas possibilidades na exploração do satélite. O gelo lunar, descoberto na última década, deve ser um dos principais alvos das futuras missões. Isso, porém, tem preocupado cientistas: como coletá-lo sem contaminá-lo?

Um relatório, publicado na última semana pela Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM), descreve o impacto que as ações humanas podem ter no recurso, que é considerado volátil. O valor científico é perscrutado para que exista uma  compreensão de que a superfície e regiões subterrâneas da Lua devem ser protegidas da contaminação orgânica e biológica.

A entidade não é a única preocupada com o assunto. Em um white paper, 19 cientistas propõem uma missão que eles chamam de “origins-first”, cuja finalidade é criar mecanismos para a coleta pura do gelo. Desta forma, haveria menos tráfego envolvido e as amostras não teriam alterações. A partir dos resultados obtidos, poderia ser investigado o registro científico do gelo e se a mineração pode ser efetuada.

Quando questionado pela comunidade científica planetária sobre o impasse da situação, o Comitê de Pesquisa Espacial (COSPAR) afirmou que nos próximos meses irá emitir novas orientações para as espaçonaves. Em 2020, eles já haviam realizado uma pesquisa a respeito desta discussão e mais de 70% dos entrevistados mostraram receio de a contaminação comprometer o registro científico mantido no gelo da Lua.

Por sua vez, a NASA está no aguardo das orientações do COSPAR. Ela, contudo, deverá atualizar seu regulamento por conta própria, já que tem planos atuais de enviar duas sondas robóticas para o polo sul da Lua em 2022 e 2023.

A NASA não estará sozinha. Países como Rússia, Índia, China e Japão devem enviar espaçonaves e pousá-las na superfície lunar nos próximos três anos.

O objetivo destas próximas viagens é a busca por explorar as regiões polares da Lua, pois o gelo que será analisado terá muitas aplicações importantes, como na procura por informações astrobiológicas sobre a origem da vida. A descoberta da água em estado líquido aconteceu somente na última década, quando as escuras crateras lunares foram encontradas.

Acredita-se que o recurso tenha chegado à Lua por meio de asteroides, cometas ricos em gelo ou pelo vento solar que afetou sua superfície. Parte dele também pode ter vindo de dentro da Lua, após erupções vulcânicas de um interior rico em água. Independentemente de sua origem, a água encontrada no satélite contém informações científicas cruciais.

A partir de sua mineração, também será possível desenvolver combustível para foguetes, de forma a criar uma fonte sustentável de abastecimento no espaço, o que significa redução de custos e riscos associados a decolagens pesadas. De acordo com uma estimativa da NASA, pode haver mais de 600 milhões de toneladas métricas de gelo lunar para ser minerado.

[Nature, The Science Times, MIT Technology Review]