Entre todas as criaturas neste mundo que podemos considerar vivas, incluindo as pessoas, existe uma verdade universal: nós morremos. Mas nem todos nós passamos pelo processo gradativo (e às vezes rápido) de autodestruição que chamamos de envelhecimento. Alguns animais e plantas, como espécies de medusas, tartarugas e árvores, parecem ter uma espécie de imortalidade biológica. Um estudo recente publicado na eLife fornece mais provas de que existe pelo menos mais um animal que deveríamos acrescentar a essa lista: o rato-toupeira-pelado.

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Cientistas da Calico, uma empresa de pesquisas sob o comanda da empresa-mãe do Google, a Alphabet, vêm estudando mais de 3.000 ratos-toupeira há anos. Armados de registros de nascimento e óbito detalhados, eles criaram um modelo do quão provável é que um rato-toupeira individual morra a um determinado ponto de sua vida.

Os ratos-toupeira morrem muito frequentemente, mas os pesquisadores não conseguiram encontrar nenhum aumento no risco de morte dos ratos-toupeira conforme eles envelhecem. O rato-toupeira-pelado mais velho a morrer no fim do período de estudos foi de um pouco mais de 30 anos de idade.

Para dar um contexto, roedores aproximadamente com o mesmo tamanho mantidos em cativeiro podem viver até cerca de 6 anos de idade, um número que, hoje, o rato-toupeira a morrer mais velho supera em cinco vezes. Além disso, um roedor comum de 6 anos de idade já mostra sinais de envelhecimento e perde a capacidade de reproduzir. Enquanto isso, as fêmeas mais velhas dentre os ratos-toupeira da Calico ainda são perfeitamente capazes de dar à luz, desde que não tenham passado pela menopausa.

“Esse é o primeiro mamífero no qual existe uma falta de mortalidade intrínseca ao aumento da idade”, a autora do estudo, Rochelle Buffenstein, contou ao Gizmodo.

Os cientistas, incluindo a própria Buffenstein, já detalharam esse tipo de longevidade impressionante entre os ratos-toupeira anteriormente, mas esse é o primeiro estudo a contar com uma amostragem grande e detalhada.

Os ratos-toupeira-pelado vivem no subterrâneo em grandes sistemas de tocas, como parte de uma colônia que pode conter centenas de animais, com três fêmeas para cada macho e alguns poucos machos selecionados para serem responsáveis de procriar de cada vez.

De acordo com Buffenstein, o que torna os ratos-toupeira ainda mais estranhos é o fato de que as fêmeas responsáveis pela procriação na verdade parecem menos propensas a morrer do que as que não procriam. Isso tornaria a espécie uma exceção à teoria de envelhecimento do soma descartável, que afirma que organismos têm uma quantidade finita de energia para gastar em processos biológicos importantes, como a reprodução.

Ao longo do período de 30 anos que os cientistas observaram, apenas cerca de 400 ratos-toupeira-pelado morreram de causas naturais. “Vemos animais morrerem com sinais de doença periodontal, do rim ou desgaste muscular, mas isso pode ocorrer em qualquer idade”, disse Buffenstein. Eles também parecem desenvolver apenas muito raramente outras doenças relacionadas ao envelhecimento, como o câncer. E seu comportamento, em grande parte, permanece o mesmo conforme eles envelhecem.

Tudo isso sugere a Buffenstein e sua equipe que os ratos-toupeira-pelado poderiam, teoricamente, viver enquanto tivessem a sorte de evitar doenças ou lesões. Eles também admitiram que pode haver um limite superior em que a idade começa a fazer a diferença para a espécie, mas que, se houver, ainda não vimos esse número.

O rato-toupeira-pelado mais velho que eles têm agora é um procriador de 35 anos, e os cientistas da Calico planejam ficar de olho nele e em seus compatriotas enquanto for humanamente possível (Buffenstein manteve sua própria colônia, obtida inicialmente na África, por muitos anos, através de seus vários trabalhos acadêmicos e, agora, na Calico). Esses e outros cientistas também estão, diligentemente, realizando pesquisas para tentar descobrir até quando os ratos-toupeira conseguem manter sua longevidade e se alguma coisa disso poderia, um dia, ser aplicada aos humanos.

Buffenstein afirma que seu objetivo a longo prazo nessa pesquisa é “reunir as informações que coletamos dos ratos-toupeira-pelado para descobrir maneiras de anular o processo de envelhecimento nos humanos”.

Qualquer descoberta que a Calico possa fazer talvez não seja tão compartilhada quanto você imaginaria, no entanto, pelo menos por um bom tempo. A empresa de pesquisa e desenvolvimento, fundada em 2013 e apoiada pelo Google, descreve sua missão como o aproveitamento “tecnologias avançadas para aumentar nossa compreensão em torno da biologia que controla a duração da vida”. Mas a Calico sempre foi muito extraordinariamente secreta sobre suas pesquisas atuais e também os projetos planejados, tanto com o público quanto com outros cientistas.

[eLife]

Imagem do topo: AP