O tratamento com dexametasona é capaz de reduzir em até um terço a mortalidade entre os pacientes graves com COVID-19, de acordo com resultados de um teste clínico randomizado realizado no Reino Unido que foram divulgados nesta terça-feira (16).

Esse é o primeiro tratamento a mostrar a possibilidade de melhorar as chances de sobrevivência dos pacientes mais graves. O ensaio controlado com grupos randomizados, considerado o padrão mais alto na ciência, foi realizado pelo grupo RECOVERY, da Universidade de Oxford.



A pesquisa envolveu mais de 6.000 pacientes. Desses, 2.104 receberam 6 miligramas de dexametasona uma vez por dia, por via oral ou intravenosa, durante 10 dias. O grupo de controle foi formado por 4.321 pacientes que receberam um tratamento convencional.

Em pacientes que precisaram de um ventilador pulmonar, a dexametasona reduziu a taxa de mortalidade em 35%, o que significa que os médicos preveniriam uma morte a cada oito pacientes ventilados. Nos que precisaram de oxigênio mas não foram ventilados, a taxa de mortalidade foi reduzida em 20%, o que significa que os médicos salvaram uma vida a cada 25 pacientes tratados. Ambos os resultados são estatisticamente significativos.

Não foram encontrados benefícios em pacientes com sintomas leves e que não precisaram de oxigênio.

O estudo completo ainda não foi publicado, nem revisado por pares. As autoridades britânicas, no entanto, anunciaram que irão adotar o tratamento em seu sistema de saúde imediatamente.

A dexametasona é um medicamento pertencente à classe dos corticosteroides e está disponível amplamente, a preços relativamente baratos. A droga é utilizada desde 1960 para tratar diversas doenças, como artrite reumatoide, asma, doenças autoimunes e alguns cânceres. Assim como outros esteroides, a dexametasona reduz a inflamação e suprime o sistema imunológico hiperativo.

Um dos maiores problemas com o COVID-19 é justamente a inflamação e o sistema imunológico dos pacientes. Depois que as pessoas adoecem gravemente, o próprio sistema imunológico ataca os pulmões.

O Stat News aponta que outros estudos demonstraram benefícios no uso de dexametasona em casos de síndromes do desconforto respiratório agudo não relacionados ao COVID-19, embora o benefício tenha sido menor do que os apontados pelo RECOVERY.

Os estudos do grupo RECOVERY, do Reino Unido, são as maiores pesquisas controladas e randomizadas para encontrar tratamentos potenciais para COVID-19. Foi esse o grupo que revelou que a hidroxicloroquina não se mostrava efetiva para a diminuição da letalidade do novo coronavírus – depois de alguns dias da revelação, a Food and Drug Administration (FDA, órgão equivalente à Anvisa) anunciou que interromperia o uso da hidroxicloroquina e cloroquina em casos de emergência de COVID-19.

“Este é um resultado extremamente bem-vindo”, disse o autor do estudo Peter Horby, especialista em doenças infecciosas de Oxford, em um comunicado divulgado pela universidade. “O benefício da sobrevivência é claro e grande naqueles pacientes que estão doentes o suficiente para necessitarem de tratamento com oxigênio, portanto a dexametasona deve agora se tornar padrão de cuidados nestes pacientes. A dexametasona é barata, está disponível amplamente e pode ser usada imediatamente para salvar vidas em todo o mundo.”

O Stat News pinçou um tuíte importante de Atul Gawande, cirurgião, escritor e pesquisador em saúde pública, pedindo cautela. “Depois de todos os recuos, é inaceitável divulgar os resultados do estudo por meio de um comunicado à imprensa sem a divulgação do artigo [científico].”

O RECOVERY afirma que “dada a importância dos resultados para a saúde pública, os pesquisadores estão trabalhando para publicar os detalhes completos o mais breve possível”.

O Reino Unido começará a administrar imediatamente dexametasona em pacientes com COVID-19, conforme anunciou o ministro da Saúde, Matt Hancock. “Estamos trabalhando com o Serviço Nacional de Saúde para que o tratamento padrão contra a Covid-19 inclua a dexametasona a partir desta tarde”, disse Hancock.