Um grupo de cientistas tem uma proposta inusitada para proteger as pessoas da COVID-19. Em um novo artigo publicado quinta-feira (11), eles argumentam que podemos usar vacinas existentes, como a vacina oral contra a poliomielite, para fornecer algum grau de imunidade temporária contra o coronavírus.

Entre os autores, está Robert Gallo, cientista da FDA (Food and Drug Administration) dos EUA e um dos pesquisadores que descobriram o HIV. Como explicam na revista Science, o conceito teórico de redirecionar vacinas para outras doenças é muito antigo. Ele remonta a quando a vacina oral contra a poliomielite foi amplamente utilizada nas décadas de 1960 e 1970.

Eles citam estudos de campanhas de vacinação em massa sugerindo que a vacina — que pode induzir imunidade a três tipos de vírus da poliomielite — reduziu a mortalidade ou acelerou a recuperação de outras doenças virais, como gripe e herpes genital. A vacinação contra a poliomielite em crianças também tem sido associada a taxas mais baixas de infecções que podem ser causadas por bactérias e vírus, como as do ouvido e respiratórias, além de diarreia.

A imunidade a um determinado germe pode vir de anticorpos e outras células imunes que se formam logo após uma nova infecção e são criados especificamente para desativá-la. Mas é o nosso sistema imunológico inato que é a primeira linha de defesa.

Os cientistas teorizam que algumas vacinas são capazes de mobilizar o sistema imunológico inato para fornecer uma maior imunidade inespecífica contra a maioria dos invasores, pelo menos por um curto período de tempo. Os autores escrevem que isso pode ser especialmente útil para a COVID-19, pois suspeita-se que a doença possa suprimir a resposta imune inata.

“Isso é algo que foi discutido no passado, mesmo no nível da Organização Mundial de Saúde”, diz Melvin Sanicas, pesquisador de vacinas e doenças infecciosas que trabalhou com a OMS e não esteve envolvido com o novo artigo. Ele observa que, em 2013, a OMS formou um grupo de trabalho que concluiu que várias vacinas (a vacina contra a poliomielite não foi estudada) poderiam teoricamente fornecer um efeito protetor inespecífico contra infecções; a OMS concordou que os resultados mereciam mais pesquisas.

Sanicas acrescenta: “Com relação à poliomielite, foi demonstrado que a vacina oral fornece proteção contra outras infecções que não a poliomielite, portanto há justificativa científica suficiente para avaliá-la para induzir um ‘impulso de mecanismos antivirais’ contra a SARS-CoV-2.”

Esse efeito protetor parece vir apenas de vacinas que usam uma versão viva (mas enfraquecida) de seu alvo, como a vacina oral contra a poliomielite. Efeitos semelhantes em infecções não relacionadas foram observados em vacinas vivas contra sarampo e tuberculose, observaram os autores.

Mas a vacina contra a poliomielite pode ser uma opção mais atraente para se transformar em um escudo temporário contra o COVID-19, dada a sua facilidade de uso, baixo custo e infraestrutura existente para produzi-la em massa. Apesar de a poliomielite estar quase extinta, mais de um bilhão de doses são ainda produzidas anualmente como parte de um programa de erradicação em vários países.

Obviamente, nenhuma vacina ou medicamento é livre de possíveis efeitos colaterais. A vacina oral contra a poliomielite, por exemplo, raramente pode causar surtos do vírus enfraquecido da poliomielite em áreas com falta de água e baixa imunidade preexistente — o vírus enfraquecido às vezes pode sobreviver nas fezes de uma pessoa vacinada, sofrer mutações e depois infectar alguém que não foi vacinado. Mas esses casos são geralmente mais leves que a forma clássica de poliomielite e os surtos podem ser interrompidos por meio de campanhas de vacinação. Os benefícios da vacina compensam e muito seus riscos.

A questão mais premente, porém, é se as vacinas vivas existentes podem realmente proteger contra a COVID-19 o suficiente para que sejam úteis durante a pandemia.

“A hipótese de que a vacinação inespecífica poderia aumentar a resistência a qualquer infecção viral por induzir respostas antivirais inatas é plausível, embora não esteja claro quanto tempo isso duraria”, diz Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia. “Se a vacina oral contra a poliomielite induzir uma resposta inata transitória que desaparece relativamente rapidamente, não sei dizer se respostas imunes inatas elevadas proporcionariam proteção suficiente para trazer benefícios substanciais à saúde pública.”

Porém, dada a plausibilidade da teoria, os autores estão defendendo ensaios clínicos usando o estoque existente de vacina oral contra a poliomielite. Pelo menos um teste está sendo planejado nos EUA, de acordo com um comunicado divulgado pela Global Polio Eradication Initiative em abril. Também há pelo menos dois ensaios clínicos em andamento, estudando se a vacina do bacilo Calmette-Guérin, mais conhecida como vacina BCG e usada para tuberculose, pode melhorar a imunidade à COVID-19.

Se esses estudos acabarem encontrando um benefício significativo, essa estratégia poderá não apenas se tornar uma medida preventiva para COVID-19, mas também para a inevitável próxima pandemia.

“Se ela for comprovadamente eficaz contra a COVID-19, a imunização de emergência com vacinas vivas atenuadas pode ser usada para proteção contra outros patógenos emergentes não relacionados”, escreveram os autores.