O filme pode não ser a história em quadrinhos, mas eu adorei Watchmen. Visualmente fantástico, trilha sonora incrível, e recheado de referências da cultura pop – e algumas delas me fazem pensar que o Ozymandias é o Steve Jobs. 

AVISO: SPOILERS A SEGUIR

Você pode conferir a resenha do io9 aqui 

Eu adorei o filme. E confesso. 

Eu apenas me sentei frente à telona em boa companhia, devorando o filme com os olhos e guloseimas com a boca, e passei três horas entretido; me maravilhando com a fotografia perfeita, a decadência da Nova York futurista-retrô, Rorschach, cada mínimo detalhe da arte de Gibbons em cada quadro, Rorschach, a fantástica música fazendo algumas das cenas fluir como o sangue ralo de Eddie Blake pela calçada, a violência bruta, a cena de amor barata no Archie, Rorschach, e até mesmo o salsichão do Dr. Manhattan. 

E embora o filme deixe de fora muita coisa das histórias em quadrinhos – parem com essa baboseira de graphic novel, elas são chamadas de histórias em quadrinhos – ele também acrescentou coisas que os quadrinhos não tinham. Coisas que irão agradar ao geek que há em você, como as contínuas referências à cultura pop. Ao menos eu fiquei em suspense quando vi coisas como Nixon e Kissinger com todos os generais planejando o Holocausto Nuclear na Sala de Guerra do Dr. Strangelove.  

Mas há muito mais escondido ali, ocultos nas sombras. Especialmente no que se refere ao vilão/salvador da Terra: Ozymandias. 

Adrian Veidt. 

O superinteligente CEO de uma grande corporação. 

Que é vegetariano. 

E cujo computador no seu escritório minimalista é um Mac SE. 

Um Mac SE executando o Sistema Operacional original da Macintosh no modo de vídeo invertido. 

Que é um feroz negociador e empresário. 

Que usa uma blusa de gola rolê preta (embora com um terno anos 80 por cima.) 

Alguém que é descrito como tendo uma visão única do mundo. 

Alguém obcecado com design e detalhes. 

Alguém que diz querer mudar o mundo, que está determinado a melhorar as coisas. 

Alguém que, ao mesmo tempo em que vê o mundo chegar ao seu final, um pouco antes de salvá-lo, está assistindo ao anúncio do Apple 1984 em uma de suas múltiplas telas de TV em Karnak, a sua base secreta Antártica. 

Quero dizer… Alô? 

Eu sei. Talvez eu esteja vendo uma conspiração maluca, como Rorschach. Rorschach, a propósito, estava certo

Então sim, eu adorei Watchmen, o filme. E sim, como você pode ver, talvez eu estivesse muito entretido vendo coisas e me lembrando de detalhes. Afinal, eu sei de cor. Conheço todas as discussões e algumas partes do diálogo de cor, eu comprei as edições originais quando estava na escola em meados dos anos 80, e tenho lido elas todos os anos desde então, como um ritual. Eu as li pela primeira vez quando era um garoto que ainda não conseguia compreender toda aquela masturbação mental de que todos falavam, em páginas e mais páginas de abobrinha intelectual: o significado mais profundo de Watchmen, as múltiplas camadas de complicações com cobertura de baunilha de Watchmen, os manifestos políticos pra viagem de Watchmen, Watchen isso, Watchmen aquilo. Eu li os quadrinhos algumas vezes naquela época e os li alguns anos mais tarde, quando eu tinha experiência suficiente para de fato me masturbar mentalmente sobre o significado profundo de tudo aquilo – falando com amigos sobre a futilidade da vida na Terra, a manipulação das massas, o mal, o bem, e os meios justificandao isso e aquilo e  blá, blá, blá. Quem se importa. 

No final das contas, eu só estava me divertindo com uma boa história como foi com o filme. Isso é o que o filme é: Uma grande história. 

Então, embora eu desejasse que eles fizessem um filme de cinco horas em vez de três, e embora o final tenha sido alterado e tudo mais, o básico está todo lá. E quando você embala a essência de um enorme volume de trabalho com magistral tratamento artístico e fotografia, algumas grandes performances – Rorschach, eu te amo – e tempera isso com uma trilha sonora poderosa que vai desde Bob Dylan a Leonard Cohen, de Jimi Hendrix a Nina Simone, de Janis Joplin a Billie Holiday, e mesmo uma versão irada de My Chemical Romance para Desolation Row do Dylan, eu me rendo. 

Então é, Watchmen não é perfeito. Não vai mudar sua vida, como algumas pessoas esperam. Sim, o filme não tem o alcance dos quadrinhos, mas quem se importa: Watchmen é uma grande viagem que capta a essência do trabalho de Moore e Gibbons. E por isso eu gostei tanto quanto em 1986, quando eu era criança.