Os chamados fones true wireless, esses que não tem nenhum fiozinho sequer e conectam por Bluetooth, são a grande tendência da indústria de eletrônicos nos últimos anos. O movimento ganhou força quando a Apple lançou seus AirPods e já fez até Amazon e Microsoft embarcarem na onda.

Companhias mais habituadas ao setor de áudio, como JBL e Bose, também não iam ficar de fora dessa. É o caso da Sony. Ela lançou há alguns meses o WF-1000XM3, fones que prometem trazer, além da praticidade da vida sem fios, a conveniência do cancelamento de ruído de outros produtos.

A pré-venda foi um sucesso, e os fones, com preço na casa dos R$ 1.300, esgotaram em poucas horas. E aí? Com o perdão do trocadilho, esse barulho todo se justifica? Depois de uma apresentação do produto feita por executivos da Sony na sede da empresa, eu testei os fones por duas semanas e conto como eles se saem.

Configuração

A configuração inicial do WF-1000XM3 foi bem simples. Você precisa usar o app Headphones, da Sony, que está disponível para Android e iOS, e usar o Bluetooth. A caixinha de carregamento dele tem NFC. Se seu smartphone também tem, fica ainda mais fácil: basta encostar o sensor nela.

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O aplicativo reúne vários recursos do fone, como modo de conexão (dá para priorizar a qualidade de som ou a estabilidade), uso do amplificador virtual DSEE HX (que promete fazer uma espécie de “upscaling” da qualidade de áudio, melhorando arquivos e streamings não tão bons), opções de comandos com toque e de equalizador.

Design e bateria

Ao colocar os fones nos ouvidos, cada um deles diz “Bluetooth conectado” e a porcentagem da bateria, graças aos sensores infravermelho que servem para detectar se estão nos ouvidos ou não. Ao remover os fones, aliás, a música pausa automaticamente e, depois de cinco minutos, os fones desligam.

A Sony promete seis horas de música com a bateria dos fones, mais 18 horas com as recargas da caixinha. Consegui usar em tardes de trabalho, coisa de quatro ou cinco horas de música, sem problemas.

Também coloquei a caixinha para carregar no final da primeira semana de uso, quando percebi que os fones não estavam com a bateria em 100% ao saírem dela. A caixinha tem porta USB-C e não oferece suporte a carregamento sem fio, como a dos Galaxy Buds — como eu não tenho nenhum carregador sem fio nem um Galaxy S10 ou um Huawei P30 Pro, não senti falta disso.

A caixinha, aliás, não é tão pequena, mas não cria um volume esquisito no bolso da calça. Ela é bem bonita, mas seu material emborrachado pega fácil marcas de dedo e riscos, infelizmente. Dentro, os compartimentos para fones contam com ímãs bem fortes, que puxam os WF-1000XM3 para dentro do aparelho com força.

O WF-1000XM3 vem com ponteiras de silicone de quatro tamanhos diferentes, e mais três de um material esponjoso que a Sony chamou de triple comfort.

Ponteiras de silicone do fone de ouvido Sony WF-1000XM3Dois pares de pontinhas triple comfort, as pretas da esquerda, e quatro de silicone. Somando com as que estavam no fone, são sete opções.

Tantas opções me deixaram confuso — eu sempre achava que tinha outra pontinha que se encaixava melhor aos meus ouvidos. No fim das contas, fiquei alternando entre a maior de silicone e a maior de espuma. A primeira isolava perfeitamente, mas grudava de um jeito meio desconfortável no canal auditivo. A segunda era mais confortável, mas rígida demais; isolava bem, mas não tanto quanto a outra.

Mesmo assim, é interessante ver que a Sony se preocupou em dar muitas opções para o usuário achar a que for melhor para ele.

Detalhe da caixinha do fone de ouvido Sony WF-1000XM3

Conexão

A Sony diz ter feito um trabalho de engenharia para aumentar o tamanho das antenas do fone e, olha, pela minha experiência, deu bem certo. A estabilidade da conexão com o celular é impressionante de tão estável. Pude andar pelas ruas, pegar ônibus, andar de metrô sem que o som desse aquela “engasgada” que outros fones Bluetooth geralmente dão.

Além disso, cada um dos fones, esquerdo e direito, se conecta de maneira independente ao celular. Isso também parece ajudar — em nenhum momento notei falhas na sincronização entre eles. Essa característica, aliás, permite que você use qualquer um dos dois de maneira independente. Não cheguei a testar, mas é bom saber que dá para fazer isso.

Por dentro da caixinha do fone de ouvido sem fio Sony WF-1000XM3

Som

A qualidade de som do WF-1000XM3 é muito, muito boa. O que mais chama a atenção é o “espaço” que os fones têm. Parece mais que você está usando um fone supra-auricular do que um fone intra-auricular. A música não parece estar comprimida em um pequeno drive, e você consegue perceber bem cada instrumento mesmo das músicas que você já conhece bem. Eu cheguei a reparar em uma cuíca de fundo em uma música do Jorge Ben que eu nunca tinha percebido, por exemplo.

Ele também consegue oferecer som com qualidade em diversas frequências. Isso fica bem claro ao explorar as opções de equalizador no app Headphones, da Sony.

Você prefere graves potentes? Pode colocar e sentir o impacto, sem distorções. Não chega a ser um daqueles fones de graves superpotentes, mas eles têm presença. Quer ouvir bem os agudos? Eles tocam com bastante nitidez, sem sibilação ou chiado — só achei um pouco estridentes em excesso. Gosta de uma equalização média? Dá para ouvir essas frequências muito bem também, com bastante fidelidade, sentindo o som e a vivacidade de cada instrumento.

Assim, o WF-1000XM3 acaba sendo uma opção bem versátil, que serve bem para vários gêneros musicais. Eu ouvi samba, rap, rock alternativo, metal e house com esses fones. Com alguns ajustes no equalizador, a experiência sempre era muito boa e agradável.

Cancelamento de ruído

O app Headphones também permite configurar um dos principais recursos do WF-1000XM3: a capacidade de entender a situação em que você está usando os fones e ativar suas preferências de som ambiente ou cancelamento de ruído. O cancelamento de ruído, aliás, é ativo: os microfones captam os sons do ambiente e tentam cancelá-lo emitindo uma onda “contrária” a ele.

Ele deixa você definir quatro situações: parado, andando, correndo ou transporte. Em cada uma delas, dá para escolher entre cancelamento de ruído ou som ambiente. Ao ativar o som ambiente, os fones usam seus microfones para captar o som externo e tocá-lo. Dá para escolher o nível de volume (de 1 a 20) e ativar ou desativar o foco na voz (realce em sons de frequências médias e agudas).

E é espantoso como isso funciona. O cancelamento de ruído pode não chegar ao zero absoluto, mas é incrível como parece que uma esponja absorveu os barulhos do ambiente, como o motor do ônibus, as conversas no escritório ou o ventilador do ar-condicionado.

A opção de som ambiente também é excelente. Ela não exagera sons, como eu senti que acontecia com os Galaxy Buds. Parece realmente que você está usando fones de ouvido abertos, que não isolam o som externo. Isso dá uma tranquilizadora sensação de segurança ao andar na rua. No escritório, dá para ouvir que há alguém falando, mas, dependendo do volume da música, fica difícil entender o que está sendo dito.

A troca automática entre situações usa sensores de movimento dos próprios fones e o GPS do celular — você precisa autorizar que o app tenha acesso à sua localização, o que pode assustar quem se preocupa com a privacidade. Isso, porém, parece ser necessário para que o telefone consiga diferenciar quando você está sentado em casa ou no escritório e quando você está sentado dentro de um ônibus ou de um trem.

O bacana é que este processo funciona de maneira satisfatória. Ao sentar no ônibus, em coisa de dez, quinze segundos, o cancelamento de ruído entrava em cena para “enxugar” o barulho do motor. Ao sair do veículo, poucos segundos eram necessários para começar a ouvir o barulho da avenida onde eu estava. Em cada troca, há uma breve interrupção e um sinal sonoro.

O recurso não é perfeito, porém. Às vezes, quando eu estava na redação e colocava os fones, eles demoravam para entender que eu estava parado. Daí, não seguiam o que estava programado e mantinham o cancelamento de ruído ativo. Aí, as pessoas falavam comigo e eu não ouvia. Outro pequeno defeito é que, se seu ônibus pega um trecho de trânsito mais lento, ele pode entender que você está andando e trocar o cancelamento de ruído pelo som ambiente.

Apesar desses dois casos, ele funciona muito bem em praticamente todo o tempo. A parte legal disso é que você não precisa ficar escavando menus em aplicativos nem mesmo apertando botões no fone para ligar cancelamento de ruído nem para alternar entre os modos. É só colocar nos ouvidos e sair por aí curtindo sua música.

Fones de ouvido Sony WF-1000XM3 ao lado de sua caixinha para carregamento

Recursos

Por falar em apertar botões, o WF-1000XM3 tem áreas sensíveis ao toque nos dois fones. Você pode configurar o que cada uma faz: controles para música, controles de cancelamento de ruído, Google Assistente ou nada. Você pode colocar cada fone para uma dessas tarefas livremente. Sentiu falta de alguma coisa? Pois é, não tem controles de volume, o que é uma pena.

Por padrão, o fone direito tem controles para música — um toque para pausar, dois para passar a música, três para voltar. O esquerdo liga e desliga o cancelamento de ruído ou som ambiente — nessa configuração, você também pode tocar e segurar para ele abaixar o volume da música e abrir o microfone, o que quebra um galho para falar rapidinho com alguém sem ter que tirar os fones.

O modo Google Assistente tem atalhos para ouvir comandos e ler notificações. Como eu não costumo usar o recurso no meu smartphone, acabei deixando ele meio de lado. Quando testei, porém, nem sempre ele entendeu o meu comando e simplesmente ignorou o que tinha dito. A leitura de notificações, por outro lado, funcionou bem, mas é um pouco longa — eu prefiro continuar curtindo minha música e ver essas coisas na tela mesmo, ao parar em algum lugar.

Os microfones, aliás, também servem para falar durante ligações. Cada fone tem dois: um interno para ajudar a captar a voz e um externo para cancelar ruídos. No entanto, mesmo com esses quatro microfones no total, tive dificuldades em chamadas telefônicas. Mais de uma vez, a pessoa do outro lado da linha dizia não estar entendendo o que eu falava e reclamava do barulho. Em um dos casos, disse até que era possível ouvir o que outra passageira do ônibus estava falando, mas não o que eu falava.

Caixinha dos fones de ouvido Sony WF-1000XM3

Conclusão

O WF-1000XM3 tem uma série de recursos muito práticos e úteis, que tornam a experiência como um todo muito agradável. O equalizador funciona bem. A troca do cancelamento de ruído para o som ambiente de acordo com a situação é bastante conveniente e poupa o trabalho de ficar pegando o celular ou apertando botões toda hora. O estojo de carregamento é bonito, cabe bem no bolso e tem uma bateria bastante confiável. Não tem fios enrolando. A conexão Bluetooth é muito estável, sem quedas irritando toda hora.

E, claro, o som. Ele tem uma qualidade de áudio excelente para alguém que não é audiófilo — para esse pessoal que entende mais de áudio, deve haver opções melhores, provavelmente com fio, mas eu devo dizer que fiquei bastante feliz ouvindo minhas músicas favoritas com essa qualidade.

Nem tudo é perfeito, porém. Não “senti firmeza” no Google Assistente quando tentei usá-lo e ele me deixou na mão, e os microfones parecem realmente ser um problema. Outros reviews reclamaram da questão da latência, dizendo que ela é pequena, mas perceptível em vídeos e jogos. Como eu não costumo ver filmes e séries nem jogar no smartphone, não foi um problema para mim.

A sensação que eu tive, no fim das contas, é que este é um produto muito bem executado. A Sony parece ter prestado atenção em detalhes que fazem a diferença no uso, como a estabilidade da conexão Bluetooth e as trocas automáticas de cancelamento de ruído para som ambiente. Essas, por exemplo, foram queixas que eu tive ao testar outros fones true wireless mais baratos.

No fim das contas, é um fone bastante versátil, que serve para usar no escritório, em viagens ou andando na rua e se adapta a todas essas situações. Talvez pudesse vir também com proteção contra suor para ser usado em corridas para ficar com um pacote completo.

Por R$ 1.300, é bastante dinheiro para mim. Geralmente, isso é o que eu gasto em um celular. O máximo que eu já gastei em fones deve ter sido algo em torno de R$ 150 em um AKG básico, competente e com fio.

Acho que esses fones são para o pessoal que compra celulares de topo de linha, mas não são audiófilos nem nada do tipo, apenas querem fones bons para viagens.

Mas, olha, mesmo sendo caros, eu sinto que eu não teria ficado decepcionado se tivesse gastado isso. Quem sabe se eu ficar com meu smartphone por mais um tempo e não trocá-lo? Estou realmente considerando essa opção.