Pode ter uma ou outra fabricante recém-chegada no mercado de câmeras de ação, mas se formos elaborar uma lista com as melhores opções, mais da metade delas será da GoPro. A companhia é especialista no segmento, e para 2020 trouxe a maior atualização para sua linha de dispositivos desde a Digital Hero 5, de 2008: a GoPro Hero 9 Black.

Além de estar ligeiramente mais ampla nas laterais para abrigar uma bateria com mais capacidade, a nova GoPro enfim adicionou uma funcionalidade realmente útil ao display frontal. Também trouxe melhorias significativas na tecnologia de estabilização HyperSmooth Boost (agora na versão 3.0), gravação em 5K e um recém-lançado aplicativo que unifica as duas ferramentas anteriores da GoPro, facilitando a visualização, edição e controle de imagens.

Há alguns meses, eu venho testando a GoPro Hero 9 Black da maneira como posso. Afinal, por conta da pandemia, ainda não é seguro praticar atividades fora de casa que coloquem tão à prova os recursos do aparelho. Mas deu para brincar um pouquinho, inclusive usá-lo como webcam em algumas entrevistas e videoconferências no home office. Será que vale a pena desembolsar R$ 3.999? Eu te conto isso e muito mais no review a seguir.

GoPro Hero 9 Black

O que é
Uma câmera de ação com ainda mais estabilidade e um visor frontal

Preço
Sugerido: R$ 3.999. No varejo: em média, R$ 2.800

Gostei
Visor frontal agora é realmente útil; estabilização de imagem continua excelente; lente voltou a ser removível; app repaginado e mais simples de usar; uma ótima opção para videochamadas no home office

Não gostei
Caríssima; sensores sensíveis ao toque na tela principal ainda são chatos de usar

Design e acessórios

A telinha na parte frontal das câmeras GoPro já existe há um bom tempo, mas até então ela só servia para visualizar informações pertinentes, como nível de bateria e quantas fotos ou vídeos ainda são possíveis registrar. Agora na GoPro Hero 9 Black, as coisas mudam de figura: o pequeno display colorido de 1,4 polegada mostra o seu enquadramento, permitindo que você veja a si mesmo caso queira fazer um autorretrato. Pois é, demorou (e muito) para essa característica chegar a uma GoPro, o que certamente contribuiu para que a concorrência, como a DJI Osmo Action, se destacasse no segmento.

É importante ressaltar que a tela frontal tem como objetivo somente visualizar você mesmo e as informações que citei. E ela não é sensível ao toque. Ainda assim, me foi bem útil durante videochamadas ao usar a câmera como uma webcam, graças a um software proprietário da GoPro que permite essa opção — eu utilizei o aparelho como webcam no macOS Big Sur 11.4. Quem faz vlogging também deve se beneficiar com essa possibilidade. Além disso, pode ser que, para vídeos na proporção 16:9, você encontre um pouco de dificuldade para se enquadrar no centro da imagem.

Aliás, a função touchscreen continua restrita ao painel principal de 2,27 polegadas, que é maior do que o display da Hero 8 Black. O que continua igual é a resposta ao toque, que não é nada bom e testou minha paciência. Eu entendo o fato de que, por ter foco na portabilidade, o aparelho precisa deixar tudo o mais enxuto possível. Acontece que, ao tentar acessar algum menu ou recurso pela tela da Hero 9 Black, as chances de você esbarrar em outra opção são muito grandes. Soma-se a isso a própria resposta aos toques, que não é tão rápida.

Quem tem uma GoPro Hero 8 certamente vai notar que o modelo mais recente está um tanto mais gordinho. E isso tem um motivo: a bateria ficou 30% maior. Mesmo com o tamanho um pouco mais avantajado, a Hero 9 Black se mantém super portátil, leve e compatível com toda a gama de acessórios lançados anteriormente para outros modelos da marca. Isso graças à haste de montagem, que fica embutida na parte inferior da câmera. Só para abrir o compartimento da bateria que ainda não é uma tarefa relativamente fácil, já que o mecanismo é bastante duro. Mas até aí, isso é compreensível, já que evita a entrada de líquidos e poeira. E claro, a Hero 9 Black continua à prova d’água e altamente resistente a quedas, sem precisar de uma case protetora. Esse é o único acessório que precisará ser trocado caso você tenha um modelo anterior da GoPro.

Falando nos acessórios, a lente principal voltou a ser removível, do jeito que era na Hero 7 Black. E uma das novidades mais legais: a fabricante abandonou a caixa tradicional de papel e incluiu um estojo de tecido resistente para guardar a Hero 9 Black e peças adicionais que acompanham o produto. Entre elas o bastão de mão The Handler e o kit de suportes de montagem.

Software e recursos

A tela touchscreen pouco responsiva afeta diretamente a experiência com o sistema da GoPro Hero 9 Black. Ele está mais rápido do que na Hero 8, mas ainda é bastante lento. Talvez por isso, o dispositivo conta com alguns comandos de voz para fazer quase tudo — desde tirar fotos e iniciar uma gravação até desligar a câmera.

A GoPro já tinha o melhor sistema de estabilização de imagem para câmeras de ação. E na Hero 9 Black, o HyperSmooth Boost chega em sua versão 3.0. Talvez a diferença da GoPro Hero 8 Black para o modelo atual não seja tão significativa, mas eu ainda tive a percepção de que as gravações são sim mais estáveis. Para aparelhos mais antigos, aí nem se fala. Isso sem contar que o sistema estabilizador agora funciona em todas as resoluções e taxas de quadros por segundo.

O TimeWarp, que é a função de time lapse das câmeras GoPro, também está na versão 3.0, e agora permite deixar a velocidade em reprodução normal ou em câmera lenta — e isso tanto depois ou durante a filmagem. O áudio também varia de acordo com a velocidade da gravação. Há ainda o Hindsight, que captura de 15 a 30 segundos de vídeo antes de você apertar o botão de gravar na GoPro.

Um recurso quase inédito é o nivelamento de horizonte, que não entorta o que está bem lá no fundo da imagem e ajuda a capturar melhor paisagens que tenham muitos detalhes à distância. Eu digo “quase” porque ele já existia no aplicativo da GoPro, mas era isso: você precisava editar o conteúdo manualmente. Com a Hero 9 Black, todo o trabalho de nivelamento acontece em temp real na própria câmera.

A GoPro contava com dois aplicativos distintos voltados para as câmeras da marca — um deles chamado Quik. Desde meados de março de 2021, a companhia unificou as duas soluções e concentrou todas as funções no já conhecido Quik. Com isso, usando apenas uma única ferramenta, ficou mais fácil controlar a GoPro Hero 9 Black (ou modelos anteriores), como também editar e organizar tudo o que for registrado pelas lentes do dispositivo.

Claro que a grande maioria das funções só é liberada mediante uma assinatura mensal a partir de R$ 8,50 (ou R$ 37,90 por ano). Isso inclui backup ilimitado de fotos e vídeos para a nuvem, filtros exclusivos e ferramentas avançadas para edição. De fato, pelo menos no iOS, que foi o sistema no qual eu fiz os testes, o gerenciamento está mais fácil do que no antigo app da GoPro, com o Quik tendo um jeitão de rede social que provavelmente vai parecer familiar mesmo para quem nunca teve contato com uma câmera GoPro.

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Foto e vídeo

As câmeras GoPro não costumam ser muito conhecidas pelos altos níveis de resolução. Com a Hero 9 Black, isso tem tudo para mudar, já que o novo sensor oferece 23,6 MP que grava em resolução máxima de 5K e até 30 quadros por segundo (fps). Ainda é possível filmar em 4K em até 60 fps, 2,7K a 120 fps, e Full HD em 240 fps. Fotos, por sua vez, têm resolução máxima de 20 MP, e você também pode extrair JPGs de vídeos ou salvar fotografias no formato RAW.

O resultado é tudo aquilo que se espera de uma GoPro: conteúdos com bastante contraste e saturação. Lembrando que você pode ajustar essas opções no menu de configurações. Desde que o registro tenha acontecido em um ambiente bem iluminado, você talvez nem venha a se preocupar com esse detalhe, porque com muita luz as imagens saem em cores vivíssimas. Eu preferi gravar usando as duas resoluções mais baixas para deixar as filmagens mais naturais, principalmente em situações que a câmera fica em bastante movimento. O 5K me foi mais útil ao colocar o aparelho paradinho em um tripé e deixar ele lá por horas.

O HyperSmooth Boost 3.0 realmente faz toda uma diferença. Com a Hero 9 presa ao bastão, nenhum dos vídeos sofreu com tremedeiras enquanto eu pulava ou descia dois lances de escadas aqui em casa. Já segurando a câmera com a mão, sem nenhum outro acessório, a imagem até que balançou um pouquinho, mas nada perceptível a ponto de questionar que o estabilizador funciona quase que perfeitamente.

Eu também gostei do TimeWarp 3.0, embora achei que, ao alternar entre uma captura mais rápida para uma velocidade mais lenta, essa parada entre uma e outra tenha ficado um tanto abrupta demais. Não foi algo que aconteceu sempre que eu usei a função, então talvez seja mais o jeito mesmo que se segura a câmera.

À noite, persiste na Hero 9 o mesmo problema de modelos anteriores da GoPro: é bem difícil evitar os ruídos que deixam a imagem bem granulada. Como nem todos os pontos da captura estão iluminados, parece que o sensor tenta distribuir a luz de determinadas áreas para o restante do enquadramento. Contudo, dá para fazer uma graça e outra com o time lapse noturno.

No geral, e apesar dessas questões pormenores, os resultados da GoPro Hero 9 Black com imagem e vídeo são ótimos e ideais para quem gosta de registrar os momentos em atividades com muito movimento. Mesmo que o período atual de pandemia ainda não nos permita fazer muita coisa fora de casa.

Bateria

Com um display colorido a mais, um corpo maior e algumas melhorias em funções já existentes, era natural que a GoPro aumentasse a bateria na Hero 9 Black. E foi o que aconteceu: o componente teve um incremento singelo de 500 mAh, passando dos 1.220 mAh da Hero 8 para os atuais 1.720 mAh. Sinceramente? Eu não notei tanta diferença assim na autonomia da Hero 9 Black comparada ao tempo de vida da geração passada. Mas é engraçado, porque existe sim uma autonomia maior quando se leva em conta todos esses itens.

Com a tela frontal ligada e a câmera conectada ao Wi-Fi na maior parte do tempo entre uma filmagem e outra, a bateria durou quase cinco dias seguidos. Ao configurar o visor frontal apenas para mostrar informações, já que é possível fazer isso, a duração foi para seis dias e meio. Para filmagens amadoras, considero um tempo muito satisfatório até precisar de uma nova recarga. Em contrapartida, quem for usar a Hero 9 durante práticas esportivas diárias, sempre vale a dica de levar uma bateria extra na mochila.

Vale a pena?

Resumidamente: a GoPro Hero 9 Black é a melhor câmera de ação que você vai encontrar no mercado no momento. O aparelho ganhou bateria e resolução maiores, uma tela frontal que traz mais utilidade, ainda mais estabilidade, um estojo para guardar os acessórios com segurança e a volta da lente removível. Soma-se a essas características o novo app unificado Quik, que permite editar e visualizar suas criações de um jeito simplificado. E não vamos esquecer todo aquele lance do dispositivo ser resistente a quedas, água, frio, calor e outras condições de estresse para qualquer eletrônico convencional.

Por outro lado, eu listo aqui dois problemas. O primeiro, claro, é o preço da Hero 9 Black, que no site oficial da marca custa R$ 3.999 — mas já custou R$ 4.899, viu? — até a publicação deste review. Em alguns sites, o valor sofre uma redução superior a mil reais, porém ainda é um valor elevado e que nem todo mundo está disposto a pagar. Logo, a câmera, que já fazia parte de um público mais segmentado, se torna um produto ainda mais de nicho.

A segunda questão é que dispositivos rivais que estejam à altura da Hero 9 e custam bem menos, entre eles a DJI Osmo Action, não são fáceis de encontrar no Brasil. Muita gente pode recorrer ao mercado cinza por preços mais amigáveis, mas sem suporte ou garantia da fabricante. Ou seja, o consumidor que procura uma câmera de ação de última geração ou se submete a isso ou vira refém da GoPro, que quase não compete com ninguém.

A GoPro Hero 9 Black vale o investimento? Sem sombra de dúvida. Os menos exigentes podem partir tranquilamente para a Hero 8, pois ainda é uma câmera que atende as necessidades básicas para uma câmera de ação, só que pagando menos.