Há um momento mais ou menos na metade da temporada final de Castlevania quando, no auge de uma sequência de luta bem sangrenta, mas fantástica, um personagem grita para outro “Isso é sobre o Drácula, não é!?”. E é isso. Essa é a série, para o bem e para o mal, que finalmente chega ao catálogo da Netflix com a sua conclusão nesta quinta-feira (13).

Apesar de todas as ameaças que os heróis da animação, inspirada no icônico videogame da Konami, enfrentaram ao longo de quatro temporadas — desde igrejas corruptas e o grande (e triste) Vlad até horrores sobrenaturais — indiscutivelmente o maior desafio para Castlevania é o seu encerramento. Por isso, se torna compreensível a existência de uma sensação de apreensão.

A série terminou sua terceira temporada com seus heróis em caminhos diferentes e assustadores, com suas várias forças antagônicas envolvidas em seus próprios esquemas. Juntar todos esses fios, junto com outros novos, e depois puxá-los para um fim satisfatório, é uma tarefa complicada, especialmente quando sabemos que com o fim vem o potencial para novas histórias em seu universo. É bom, então, que Castlevania consiga se manter firme na sua trajetória final, pelo menos na maior parte do tempo. O problema é que leva muito tempo de explicação ideológica para se chegar lá.

Imagem: Netflix.

Situada apenas algumas semanas após os eventos da terceira temporada, a temporada final abre com uma falta de objetivo que rapidamente se torna o impulso temático de cada personagem e grupo principal, de modo a sermos reintroduzidos a eles ao longo de seus primeiros episódios. Ao mesmo tempo, está configurando novos fios para pendurar o arco da série mais amplamente. Trevor e Sypha (dublados por Richard Armitage e Alejandra Reynoso, respectivamente), totalmente devastados pelos eventos sombrios em Lindenfeld, encontram-se vagando, lutando contra criaturas noturnas perdidas apenas por algo para fazer, e não porque querem. Alucard (James Callis) está igualmente desanimado, melancolicamente ganhando tempo no castelo de seu pai, evitando as pessoas até que uma chance de aventura — e conexão — venha de uma líder de aldeia local, Greta (Marsha Thomason).

Por outro lado, nossos vilões sentem que estão seguindo o ritmo; Isaac (Adetokumboh M’Cormack), que passou grande parte da última temporada acumulando forças em uma busca por vingança contra os ex-tenentes do Drácula (Graham McTavish), começa a temporada em um longo período de autorreflexão, contemplando o que poderia vir depois sua vingança. Da mesma forma, o Conselho da Estíria, composto por Striga (Ivana Milicevic), Morana (Yasmine Al Massri) e Lenore (Jessica Brown Findlay), se encontra inseguro sobre a direção que sua irmã Carmilla (Jamie Murray) está tomando para criar o seu próprio império vampírico, agora que Hector (Theo James), mestre da habilidade “Forja de Demônios”, aparentemente se curvou à vontade deles.

Imagem: Netflix.

Essa poderia ser uma receita ideal para uma narrativa que se perde em seus vários arcos. No entanto, felizmente, há alguma força vital de intenção na abertura da série que fornece um impulso muito necessário: um deles é o retorno do personagem Saint Germain, que continua sua busca para encontrar sua ex-amante nos corredores infinitos místicos, a qualquer custo. As outras são as duas novas adições, Varney de Londres (Malcolm McDowell) e Ratko (Titus Welliver), dois vampiros da corte mais antiga do Drácula, que planejam o ressurgimento da alma de seu mestre para reclamar a cidade de Targoviste em seu nome, onde o conde certa vez lançou uma vingança sangrenta por queimarem sua esposa Lisa (Emily Swallow) na fogueira.

Uma vez que só precisamos explicar a configuração de seis pontos focais diferentes para a série ao longo dos últimos três parágrafos, você pode não se surpreender ao ouvir que simplesmente existem muitos desdobramentos ao longo do curso lento da quarta temporada em seus episódios de abertura. Inclusive, esses episódios são meticulosamente ritmados, mas acabam perdendo força à medida que os personagens em grande parte ficam parados e falam suas ideologias uns para os outros (ou simplesmente para si mesmos), questionando qual é seu verdadeiro propósito na vida, dada a ausência de Drácula, a única figura que uniu todos esses grupos miríades de uma forma ou de outra no passado. É um trabalho de tom maravilhoso, continuando a melancolia sombria que a última temporada terminou, mas as breves explosões de ação cinética ou algumas piadas sombrias e humorísticas (principalmente de Trevor e Sypha) fazem pouco para ajudar uma boa parte da temporada, que parece andar em círculos, ao invés de ser propositalmente reflexiva.

Imagem: Netflix.

Isso desempenha um papel na forma como esta temporada de 10 episódios é amplamente configurada. A primeira metade se concentra na marcha lenta, mas certa, de Isaac de marcação cerrada com a Estíria, particularmente com Carmilla, já que as histórias de Trevor, Sypha, Alucard e Greta são deixadas em segundo plano. Quando o arco de Isaac chega à sua conclusão natural, ele desaparece da temporada. É quase abrupto, dado o foco intenso dos episódios de abertura sobre ele, mas permite que Castlevania gire para o duelo, que leva a Alucard e Greta na defesa dos refugiados sitiados desta última, e Trevor e Sypha descobrindo os planos de Varney em Targoviste. A estrutura é uma tentativa de dar a cada arco o foco de que precisa, como fica entendido nos momentos finais desta história. No entanto, como eles estão em grande parte isolados um do outro, tudo parece isolado e distrativo sempre que nosso foco é atraído para uma miríade de outros enredos. É um problema semelhante ocorrido na terceira temporada, mas agora que ainda mais unidades de personagens foram lançadas na mistura, é apenas agravado.

A melhor notícia é que a segunda metade da temporada parece muito mais rápida. Isso se deve em parte à maioria das cenas de ação da temporada  — que está melhor do que nunca, tanto pela sua escala quanto em sua coreografia elegante. O brilho se estende quando Castlevania percebe algo que parece ter estado ausente por muito tempo: ela está no seu melhor quando Trevor, Alucard e Sypha estão juntos como uma equipe. No momento em que seus arcos finalmente se unem e o plano traçado através do pano de fundo da temporada (embora muito lentamente) é revelado, temos uma grande catarse na narrativa, e uma das cenas mais satisfatórias em toda a série. Não é apenas por causa da química que Armitage, Reynoso e Callis claramente têm. Tudo clica e faz sentido, como se a equipe por trás do show soubesse que, uma vez que eles estão juntos, a energia que eles emanam nos lembra os pontos altos da série.

Imagem: Netflix.

Para nossa alegria, essa energia é mantida conforme a série atinge seu clímax, e desce das alturas vertiginosas de seus momentos finais de ação verdadeiramente incríveis para ter um período de introspecção e reflexão que funciona neste ponto da série, ao invés de interferir em sua construção. Para um programa que muitas vezes, e de forma fascinante, chafurdou na tristeza e no desespero de seu mundo, é surpreendentemente bem-vindo dizer que Castlevania termina com uma nota revigorante de esperança.

Em uma temporada que toca em uma sensação de falta de propósito em todos os personagens, a mediação final sobre os arcos de Trevor, Sypha e Alucard os encontra de forma satisfatória em mandamentos que refletem bem esse tema. Você finalmente consegue passar mais tempo com eles, e a forma como suas histórias são encerradas — uma excelente despedida — é bem-feita o suficiente para fazer com que a construção anterior (e mais confusa) que a temporada levou para chegar, valha a pena.

Para muitas pessoas, isso pode ser suficiente. Castlevania finaliza de forma tão boa que é fácil perdoar a árdua jornada que leva para chegar lá. As coisas que a série sempre atingiu, desde sua ação até seu trio heroico, permanecem em destaque aqui, e as coisas com as quais sempre lutou, como o ritmo e a sombra da ausência que Drácula lançou desde sua derrota na segunda temporada, permanecem fraquezas consistentes. Para melhor ou pior, Castlevania sai de cena de uma maneira completamente Castlevania: a série conseguiu ser, desde o início, melhor do que qualquer uma das muitas adaptações de videogame que temos conhecimento. No entanto, nutro esperança de que se houver novos projetos deste universo nos próximos anos, que eles possam aprender com alguns de seus erros.

Não deixem de conferir: a quarta temporada de Castlevania será disponibilizada na Netflix nesta quinta-feira.