Quase dois anos após o surgimento do Sars-CoV-2, cientistas de todo o planeta seguem buscando por respostas para explicar o comportamento da Covid-19 — e os danos de longo prazo que ela pode causar no organismo.

Existe uma lista extensa de sintomas que quem se recuperou do coronavírus pode experimentar. É o que cientistas conhecem como “síndrome aguda pós-Covid” ou “Covid Longa”. Mesmo após dias, semanas e até meses após se verem livres da infecção causada pelo vírus, pessoas podem enfrentar sequelas graves. Entram aqui perda de memória, fadiga, zumbido no ouvido, palpitações, aumento da frequência cardíaca (como no caso da repórter que assina este texto) e tantos outros sinais. 

No estudo feito por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), 60% dos pacientes avaliados apresentaram algum desses sintomas mesmo após um ano da alta hospitalar. 

Em outra avaliação sobre o assunto, pesquisadores dos Estados Unidos e México elaboraram um estudo, publicado na revista Scientific Reports, que envolveu quase 48 mil pacientes de idade entre 17 e 87 ano. Todos eles apresentaram sintomas de Covid Longa após 14 dias — ou, em alguns casos, até 110 dias após a infecção viral. A pesquisa apontou que 80% deles desenvolveram um ou mais sintomas de longo prazo.

Os cientistas escreveram que embora tais alterações sejam relatadas principalmente em pacientes com sintomas graves, os efeitos duradouros também ocorrem em indivíduos com infecção leve, que não precisaram de hospitalização.

Esta outra análise avaliou não só os sintomas persistentes, mas também disfunções e deficiências que o corpo pode desenvolver a longo prazo, semanas após o contágio. 

Mais comum do que se imagina

Não é preciso ir muito longe para conhecer alguém afetado pela tal Covid longa. Em uma busca rápida na internet, é possível encontrar depoimentos de pessoas que dizem seguir enfrentando enxaquecas, que tiveram a mobilidade reduzida ou o paladar muito comprometido: 

Agora, imagine que seu sonho é a paternidade e, após a infecção pelo coronavírus, você descobre que se tornou infértil? Foi exatamente isso que aconteceu com um brasileiro de 42 anos. Depois de uma consulta com seu médico e alguns exames, ele descobriu que não poderia mais ser pai.

E é provável que o caso dele não seja o único. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) avaliou o sistema reprodutor masculino de diversos homens infectados pela Covid-19. A pesquisa descobriu que, em 42,3% dos casos, havia uma inflamação no canal do órgão que impossibilitava o caminho dos espermatozoides. 

Como a Covid-19 é conhecida a apenas dois anos, vale ressaltar que os resultados desses estudos ainda são preliminares. Logo, a comunidade científica ainda não sabe se esses casos poderão ser revertidos com tratamentos duradouros. 

Afinal, o que causa as sequelas pós-Covid?

Se o vírus se apresenta, inicialmente, como uma doença do sistema respiratório, o que exatamente causa essas sequelas? Aqui está o grande truque do coronavírus. O Sars CoV-2 utiliza a proteína Spike, ou proteína S, para se ligar a uma enzima receptora (ACE2) das células humanas que liberam nosso corpo para dar início a um processo de infecção. Em nosso sistema respiratório, há tecidos que possuem esse receptor, e é por ali que o vírus ataca num primeiro momento.

Mas não é só isso, a ACE2 é pode ser encontrada também nas células renais, no intestino delgado, parênquima pulmonar e outros órgãos como o coração. Recentemente, cientistas passaram a estudar a possibilidade da ligação do receptor com o cérebro. Sabe-se que a central de comando pode ser atingida num segundo momento, logo após a infecção nasal.

Assim que o corpo é invadido pelo vírus, tem início uma inflamação gigantesca. Isso faz todo o sistema imunológico comece atuar para combater esses agentes estranhos — o que ocasiona outro movimento enorme, responsável por desencadear problemas secundários — as tais sequelas. 

Como todos os estudos são preliminares, e o vírus continua a se modificar e mudar de comportamento, não há dados suficientes que mostrem formas efetivas de se prevenir essas sequelas. Mas os cientistas buscam amenizar esses efeitos com tratamentos e reabilitação.

O que fazer ao apresentar sequelas da Covid-19

Primeiro, você deve se certificar de que há mesmo alguma alteração no seu corpo após ter tido coronavírus. Elas podem ser leves, moderadas e, nos casos mais graves, causar problemas como perda de mobilidade, problemas com cognição, asma, bronquite pós-viral e tantos outros. Em segundo lugar, vale procurar um médico e solicitar encaminhamento para profissionais especialistas em reabilitação, fisioterapeutas, cardiologistas ou pneumologistas — tudo a depender do quadro clínico de cada paciente. 

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Nos casos leves, pode não haver a necessidade de reabilitação, mas sim, a orientação para um tratamento a curto prazo.  Já aqueles com quadros de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático (ou mesmo disfunção cognitiva) demandam avaliação e tratamento psicológicos. 

Apesar disso, a boa notícia é que a rede pública de saúde (SUS) oferece centro de reabilitação para pacientes pós-Covid. Você pode conferir a lista de hospitais e clínicas que oferecem atendimento gratuito em todo Brasil clicando aqui