Uma nova análise genética das bactérias do intestino humano está se transformando na possibilidade da descoberta de um mundo de criaturas realmente estranhas – tão estranhas que alguns biólogos especulam que encontraram um domínio de vida inteiramente novo. Devemos levar em consideração essa possibilidade com uma dose saudável de ceticismo. Mas eis o porque disso estar sendo discutido.

Nos últimos dez anos, novas tecnologias genômicas conseguiram, pela primeira vez, permitir que cientistas examinassem nosso microbioma – o mundo de criaturas invisíveis que moram dentro de nós. Pesquisa de microbioma é quase que literalmente reescrever livros de biologia humana conforme aprendemos mais sobre nossas bocas, intestinos e pele e percebemos que eles são um ecossistema complexo e diverso. Nós estamos até mesmo rodeados por uma nuvem pessoal de bactérias. De acordo com algumas estimativas, o número de células humanas não é nada comparado ao número de micróbios no nosso corpo.



Agora que podemos apreciar quão onipresentes nossos hóspedes microbianos são, estamos começando a ir mais a fundo para conhecer suas identidades. E isso traz algumas surpresas. Por exemplo, vários desses bichos encontrados no nosso intestino são diferentes de tudo o que já vimos.

Segundo a New Scientist, um estudo conduzido por Philippe Lopez e Eric Bapteste da Universidade Pierre e Marie Curie em Paris conseguiu um novo método para identificar as mais distintas formas de vida no nosso microbioma intestinal: estudando 86 famílias de genes que são raramente trocadas entre organismos. (Muitos genes são passados entre micróbios distantemente relacionados através de um processo conhecido como “transferência horizontal“.) Genes que “não aparecem muito” podem em teoria ser usados para identificar os três domínios de vida: bactérias, Archaea e eucariotas.

Eis o que essa análise encontrou até agora:

Eles analisaram amostras do microbioma, com cerca de 230.000 sequências de DNA que são relacionadas a sequências conhecidas nessas 86 famílias genéticas. Eles então usaram as sequências como ponto de largada para uma segunda análise – um pouco como estudar a fundo seus ancestrais usando o DNA dos seus pais em vez do seu para guiar a busca. Isso revelou mais de 80.000 sequências de DNA microbial que pertenciam às 86 famílias de genes. Mas a sequência de bases era muito incomum em um terço dos DNAs – eles compartilhavam cerca de 60% ou menos da identidade com qualquer sequência genética conhecida. Esse grau de diferença é o que você espera que separe diferentes domínios de vida, como bactérias e archaeas.

Então Lopez e Bapteste observaram cerca de um terço de genes marcados que não combinavam com nenhum domínio conhecido de vida. Isso significa que encontramos um quarto domínio vivendo debaixo (ou dentro) do nosso nariz? Talvez! Mas pode significar várias outras coisas também. Para começar, esses marcadores genéticos em particular podem ser simplesmente mais variáveis do que imaginamos. Afinal, nós ainda não sabemos direito como lidar com a diversidade genética do mundo microbiótico. É possível que em um ambiente isolado como o intestino humano a seleção natural resultou em um nível de variação genética – dentro dos três domínios de vida – que não vemos em nenhum outro lugar.

Para saber a resposta para essa pergunta se estamos ou não olhando para um novo ramo da árvore evolucionária, precisamos isolar os organismos que produzem esse genes estranhos. Isso não será nada fácil, considerando que a grande maioria dos micróbios ainda não podem ser cultivados em laboratório.

Mas a possibilidade de um quarto domínio é convincente o suficiente para sabermos que vale a pena ir atrás disso. [Biology Direct via New Scientist]