O Slack é uma empresa que vem enfrentando problemas. Por alguma razão, o aplicativo de mensagens utilizado no local de trabalho – e que é amaldiçoado não apenas com interrupções ocasionais, mas com um layout entorpecente e recursos explicitamente projetados para espionar todas as nossas DMs – enfrentou nada além de queda nas ações  desde sua estreia no mercado no ano passado. Mas em vez de focar nesses problemas ou em qualquer outra reclamação que as pessoas que utilizam o Slack relatam regularmente, o plano da empresa para um 2021 mais lucrativo parece girar em torno de se parecer menos com o Slack e mais com…outra coisa.

Os detalhes dessa “outra coisa” ainda não foram definidos, mas o CEO do Slack, Stewart Butterfield, revelou um pouco sobre os planos da empresa para o futuro próximo em uma recente rodada de entrevistas com o The Verge.

As afirmações do executivo soam como uma espécie de quimera que é parte Slack, mas também parte Instagram, Discord, Twitter e…Blackberry, curiosamente. As adições, em suas palavras, parecem estar todas centradas na ideia de fazer o Slack se sentir menos como uma plataforma que você associa a uma sala de reuniões formal e conservadora, e mais com o tipo de escritório repleto de pessoas descontraídas que, embora ainda sejam formais, são formais de uma forma descolada. Desnecessário dizer que eu odeio isso.

O primeiro recurso a ser prototipado pode ser melhor descrito como a resposta do Slack ao Stories do Instagram – que, como você deve se lembrar, era originalmente uma cópia do amado recurso de mesmo nome do Snapchat. Mas, em vez de ser uma forma de colegas de trabalho compartilharem vídeos de seus escritórios em casa, a ideia é que os gerentes usem esses vídeos curtos como uma forma de recriar as reuniões em pé que alguns de nós costumávamos ter em um passado distante.

Seguindo essa mesma linha, o Slack também está potencialmente incorporando salas de bate-papo de áudio no estilo do Discord, nas quais os colegas de escritório podem entrar e sair, em vez de agendar um horário para fazer uma ligação formal. E, assim como o Discord, o canal de áudio está sempre funcionando, o que faz com que o recurso soe – pelo menos para mim – menos como um lugar para conversas espontâneas e mais como um lugar para reuniões que literalmente nunca acabam.


GIF: Slack

Tenho certeza de que outras pessoas de outros escritórios mais descontraídos podem tirar algum proveito desses recursos, mas minha inquietação é menos sobre os recursos e mais sobre a maneira como percebemos qual é o propósito final do Slack.

Há cerca de 12 milhões de pessoas nesta plataforma todos os dias, e muitas delas estão sendo obrigadas a usá-la de suas casas até sabe Deus quando. E quando você trabalha em casa, os limites entre o que é trabalho e o que é pessoal se tornam um pouco confusos por padrão, o que pode levar algumas pessoas (incluindo eu) a sentir que estão sempre trabalhando. No momento, acho que é seguro dizer que precisamos de mais limites entre nossa vida profissional e social, não menos.

O objetivo do Slack de ser menos sobre o trabalho e mais sobre relaxar com seus amigos (com quem você trabalha) não vai tornar a definição desses limites mais fácil. Nem transformar o Slack em uma rede social genuína, o que parece ser outro objetivo planejado pela empresa, de acordo com Butterfield.

A partir do início de 2021, os usuários do Slack poderão ter conversas com qualquer outro usuário do Slack em qualquer outra empresa, com a ajuda de “links privados”. Nessa concepção inicial do recurso, os usuários do Slack podem trocar esses links com, digamos, clientes em outras organizações ou compartilhá-los em seus (outros) perfis de rede social.

Assim como os outros recursos sobre os quais estamos falando aqui, isso também parece um pouco…familiar. Enquanto Butterfield o comparou ao serviço de mensagens do BlackBerry, não é nada mais do que aquilo que o famoso Zoom fez. A plataforma de vídeo chamadas construiu seu produto a partir desse conceito de troca de links, mas isso acabou trazendo muitos problemas para a empresa, principalmente quando adolescentes se envolveram.

Pela descrição dada pelo executivo do Slack, não parece que a empresa pense que os Slack Bombings serão um problema com o qual ele terá de lidar. Ou talvez esses temores estejam sendo abafados pelo medo silencioso de perceber que alguns investidores estão vendo um futuro melhor com o Zoom.

reclamação antitruste que o Slack lançou contra a Microsoft no meio do ano confirmou que a maior pedra no sapato da empresa agora é o Microsoft Teams, e como quase tudo que a Microsoft tem a oferecer, o Teams é um produto prático. Funcional, sim, mas nem um pouco atraente do ponto de vista visual, o tipo de coisa que nos faz pensar em cubículos, crachás e a cor bege, em vez da vibração de um escritório de plano aberto que o Slack parece querer.

Mas, como qualquer pessoa que já trabalhou em um escritório aberto lhe dirá, eles são objetivamente ruins. Eles são uma maneira de as empresas economizarem no custo de espaço e design de interiores, enquanto se escondem atrás do discurso de tornar o ambiente mais “colaborativo” e “amigável”. Na verdade, todas as evidências concebíveis indicam que essas mudanças resultam em menos produtividade, menos privacidade e menos colaboração real. Mas cortes de custos acontecem sempre, e esses escritórios continuarão sendo construídos sob o espectro da “colaboração”, aparentemente porque soa como algo amigável, assim como as atualizações planejadas do Slack.

Assim como os escritórios abertos, esses próximos recursos irão exacerbar os problemas que os maiores críticos Slack vêm reportando há anos. Eles tornarão a plataforma mais distrativa, mais barulhenta e farão com que as pessoas queiram mais ficar no Slack do que realmente trabalhar.