Nos melhores cenários, os smartphones nos oferecem um alívio para o tédio ou um jeito de tentar manter contato com seus pais, embora nem sempre com sucesso. O que eles realmente não parecem oferecer é “felicidade”. Pense nas pessoas mais dependentes de smartphones que você conhece. Quantas delas parecem felizes? Se você disser que algumas parecem, olhe mais perto: você tem certeza de que não é apenas um delírio do vício?

É claro que é diferente você sentir o vazio após uma hora vendo uma tela e estar deprimido. A depressão raramente está conectada a apenas uma causa. Ainda assim, é possível que as redes sociais, os serviços de streaming etc… estejam piorando nossos sintomas de depressão? Ou, em casos mais extremos, causando a depressão? Perguntamos a diversos especialistas.

Diana Winston

Diretora de educação de Mindifulness na Universidade da Califórnia em Los Angeles e autora de The Little Book of Being: Practices and Guidance for Uncovering Your Natural Awareness

Eu não acredito que pesquisas encontraram uma conexão clara entre tecnologia e depressão: há algumas correlações, mas não temos evidência de causalidade. É possível que pessoas depressivas sejam mais atraídas para redes sociais e que estejam utilizando as redes para se medicar. Há alguns estudos que mostram uma relação entre uso excessivo de smartphones e depressão. Mas não há nada conclusivo. Os cientistas ainda estão estudando o tema.

De forma anedótica, eu vi uma possível conexão da tecnologia com a atenção. Nossa atenção é constantemente distraída — algumas vezes chamamos de atenção parcial contínua. Nunca focamos em algo, estamos sempre fazendo várias tarefas ao mesmo tempo. Como especialista em mindfulness, uma das coisas que eu recomendo para as pessoas é para tirarem um tempo para ficarem longe de seu smartphone ou notebook e focar em algo muito simples, impassível — pode ser meditação, sua própria respiração ou uma caminhada na natureza. Qualquer coisa que anule o efeito dessa atenção parcial contínua, que pode afetar negativamente seu sono ou outros índices de saúde.

Há ainda o vício em novidades. Estamos tão acostumados a luzes piscando, a notificações sem fim, que a vida normal pode se tornar entediante. Isso pode levar a episódios depressivos: quando não estamos na internet e nossas vidas reais aparecem como são, elas podem parecer enfadonhas. Só que isso é essencial para aprender apreciar e ser grato pelas coisas simples da vida, como cuidar do cachorro ou caminhar. Precisamos separar nossa felicidade dessas plataformas.

Ainda acho que redes sociais geram muita inveja e um sentimento de vazio, como se minha vida nunca fosse tão boa quanto a dos meus amigos ou a de um estranho. Isso leva a uma espiral de negatividade.

Matthew Lapierre

Professor assistente de comunicação na Universidade do Arizona, que pesquisa que explora como a mídia afeta a saúde e o bem-estar.

As pessoas realmente estão cada vez mais conectadas aos seus dispositivos. Mas o que descobrimos, em estudos que conduzimos sobre uso de smartphones e depressão, é que não tem a ver com o quanto você usa o celular. Não há nenhuma correlação entre o tempo gasto no  smartphone e um crescimento de sintomas depressivos ou de solidão. As coisas ficam problemáticas quando alguém sente um apego particular ao seu dispositivo. Se for difícil deixar o celular de lado ou se há alguém na família comentando como o quanto a pessoa usa demais o aparelho, isso pode ser um preditivo de sintomas depressivos.

É importante fazer uma distinção: estamos falando de sintomas depressivos, não de depressão clínica. Essa última é um estado diferente, qualitativamente falando. E esse é um dos problemas de estudar a depressão: não é algo com uma progressão linear. Uma pessoa deprimida é qualitativamente diferente de alguém que pode exibir vários sintomas depressivos.

Se você é um usuário problemático, alguém preso no celular, isso pode aumentar as chances de sintomas depressivos — o que é um problema. Mas ainda estamos tentando entender o que acontece aí.

Erik Peper

Professor na Universidade do Estado de San Francisco e coautor do livro TechStress: How Technology is Hijacking our Lives, Strategies for Coping and Pragmatic Ergonomics.

Sim [a tecnologia está te deixando mais deprimido]. Mas não é a tecnologia por si, é o jeito com que estamos, fisicamente, interagindo com ela.

Há alguns anos fizemos um estudo que perguntava como a maioria das pessoas se sentam quando estão usando seus smartphones, notebooks ou assistindo à Netflix etc. As pessoas passam a se curvar, suas cabeças caem, suas espinhas se dobram em forma de C. E os dados mostram que quando você fica nessa posição, você está mais propenso a ter pensamentos desesperançosos. Você ainda pode ter pensamentos negativos em uma posição ereta, mas tem menos chances de ser afetado por eles. Na verdade, sentar de forma ereta te ajuda a ter mais pensamentos positivos. Neurocientistas de Taiwan revelaram que, quando você está curvado, seu cérebro literalmente precisa trabalhar mais para ter pensamentos positivos do que numa posição ereta.

Outro estudo relevante e que finalizamos há pouco examinou estudantes durante aulas pelo Zoom. Ele foi feito em dois estágios. Primeiro, pedimos aos participantes para assistirem as aulas normalmente e fazerem um relatório sobre seus níveis de atenção, alerta, envolvimento etc. Depois, pedimos para eles fazerem um esforço para serem mais responsivos fisicamente e parecerem animados. A mudança foi incrível: 80% dos alunos alegaram que se sentiram com mais energia, atenção e envolvimento, além de se lembraram muito mais do conteúdo ao final da aula.

A conclusão, acredito, é que precisamos — para aprender e viver — a nos engajar ou configurar nosso cérebro para estarmos presentes. Nós nos curvamos e nossa energia vai embora. Assistir a vídeos de streaming é uma atividade fundamentalmente passiva. E isso nos treina para sermos mais passivos. Quanto mais passivos nos tornamos, menor é nosso nível de energia.

Michael Mrazek

Diretor de pesquisa na no Centro de Mindfulness e Potencial Humano da Universidade da Califórnia

No geral a tecnologia está melhorando a vida. Fique um dia sem sua frigideira ou fogão e você rapidamente vai se lembrar disso. Mas a maioria dos gadgets na sua casa não demandam sua atenção por horas como um celular o faz.

Twitter e Instagram não são inerentemente ruins para você, mas podem ser. Isso é especialmente verdade se começarem a interferir nos seus relacionamentos do mundo real. Esse são os que mais importam para seus sentimentos.

E qual a forma mais simples de proteger seus relacionamentos do seu telefone? Uma regra simples: se alguém está falando com você, guarde seu celular e olhe para a pessoa. E crie pouquíssimas exceções para isso.