Há uma afirmação recorrente no negacionismo das mudanças climáticas de que os níveis crescentes de dióxido de carbono são bons, na verdade, porque ajudam as plantas a crescer. Além de esse argumento ignorar todos os efeitos devastadores sobre a vida na Terra, há também outro problema.

Um novo estudo publicado na Nature na quarta-feira (24) sugere que, embora o aumento das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera possa estimular o crescimento das plantas, isso tem um custo enorme em outra fonte importante de sequestro de carbono que reside apenas nessas plantas e árvores: o solo.

A sujeira é uma parte vital do ciclo do carbono, mas o impacto do aumento do dióxido de carbono no solo é uma lacuna notável na literatura acadêmica. Os autores do novo estudo decidiram preencher esse vazio. A pesquisa observa que há uma suposição amplamente aceita de que os níveis de carbono no solo irão aumentar à medida que as plantas sequestram mais carbono, porque quando essas plantas morrem, elas se decompõem e se transformam em solo. Mas não há muitas provas para dar embasamento isso.

“Como cientista, fiquei perplexo com o quão pouco sabíamos sobre os efeitos das [concentrações estimadas de dióxido de carbono] nos estoques de carbono do solo em comparação com as características das plantas”, Cesar Terrer, pesquisador do Lawrence Livermore National Lab e pós-doutorando na Universidade de Stanford que participou da pesquisa, escreveu em um e-mail.

Para o estudo, Terrer e seus colegas analisaram dados de 108 artigos publicados anteriormente com foco nos níveis de carbono no solo e no crescimento das plantas em meio a concentrações crescentes de carbono. Eles descobriram que quando os níveis de carbono aumentam, os níveis de matéria orgânica no solo também aumentam. Mas, ao contrário do que a sabedoria convencional os faz acreditar, os pesquisadores descobriram que um aumento na biomassa do solo geralmente coincide com uma diminuição nos níveis de carbono do solo.

“Esperávamos um crescimento mais rápido das plantas e mais biomassa para aumentar o carbono orgânico do solo à medida que folhas extras e biomassa caíam no chão da floresta”, escreveu Rob Jackson, professor de ciência do sistema terrestre na Universidade de Stanford e autor sênior do estudo, por e-mail. “Não funcionou, e essa foi a maior surpresa em nosso trabalho.”

Na verdade, os autores descobriram que o solo apenas acumulou mais carbono em experimentos em que, embora a atmosfera tivesse altas concentrações de carbono, o crescimento das plantas continuou em um ritmo constante, em vez de aumentar rapidamente.

Os autores acham que sabem por que isso acontece: à medida que as plantas crescem mais rápido, elas requerem mais nutrientes, que extraem do solo. Para dar às plantas acesso a mais nutrientes, os solos devem desenvolver micróbios como bactérias e fungos mais rapidamente. Isso exige que eles aumentem a taxa de respiração microbiana, o que libera carbono na atmosfera que, de outra forma, poderia ter permanecido na terra.

Nem todos os ecossistemas, escrevem os autores, se comportarão da mesma maneira. Com base em sua meta-análise, os autores determinaram a quantidade de carbono que o solo de várias paisagens absorveria à medida que o carbono atmosférico aumentava. Eles descobriram que se as concentrações de dióxido de carbono atingirem o dobro dos níveis pré-industriais, a taxa de ingestão de carbono dos solos florestais permanecerá estável, mas os solos de pastagem aumentarão 8%.

É provável que isso ocorra porque, nas pastagens, as plantas alocam mais carbono em suas raízes do que na superfície, e estudos mostram que as raízes em decomposição tendem a depositar mais carbono no solo do que outras partes das plantas. Isso sugere que os líderes mundiais devem concentrar os esforços de restauração e conservação nesses ecossistemas como uma forma de mitigação da crise climática.

Assine a newsletter do Gizmodo

Essas descobertas têm implicações importantes em como os cientistas do clima contabilizam a quantidade de carbono que as florestas, pastagens e pântanos podem absorver. Visto que as projeções climáticas existentes não levam em consideração a compensação entre o sequestro de carbono do solo e das plantas, elas provavelmente estão superestimando o potencial da terra para absorver carbono e mitigar o aquecimento global. Isso significa que podemos não ter tanta margem de manobra com a poluição de carbono quanto pensávamos.

“Florestas e outras terras absorvem atualmente um terço da poluição global de carbono, cerca de 12 bilhões de toneladas de dióxido de carbono a cada ano”, disse Jackson. “Precisamos entender se este serviço valioso continuará.”