As imagens mais próximas já tiradas do Sol revelaram um fenômeno estelar nunca antes visto. Apelidados de “fogueiras”, esses pontos brilhantes podem resolver um mistério de longa data sobre as escaldantes camadas exteriores do Sol.

O projeto Solar Orbiter (orbitador solar) não entrou oficialmente na fase científica de sua missão, mas já está produzindo ótimos resultados.

A sonda, uma colaboração entre a ESA (Agência Espacial Europeia) e a NASA, capturou imagens do Sol durante sua abordagem orbital aproximada inaugural, ou periélio, que aconteceu em junho.

Os controladores da missão do projeto Solar Orbiter estão atualmente testando os 10 instrumentos a bordo da máquina, e a espaçonave, lançada em 10 de fevereiro de 2020, deverá entrar na fase científica da missão no fim do segundo semestre.

Imagem do Sol feita pelo solar orbiter. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSLO sol visto da sonda Solar Orbiter. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL

As novas imagens, tiradas a uma distância de 77 milhões de quilômetros do Sol, são agora as mais próximas já capturadas de nossa estrela hospedeira. Essa distância também pode ser escrita como 0,515 UA, ou aproximadamente no meio do caminho entre a Terra e o Sol.

Estas imagens sem precedentes do Sol já seriam surpreendentes só por isso, mas como a ESA anunciou nesta quinta-feira (16), as primeiras fotos do Solar Orbiter estão mostrando um fenômeno estelar anteriormente desconhecido, que os cientistas estão chamando de “fogueiras”.

Os pontos brilhantes, aproximadamente do tamanho de um país europeu, foram capturados pelo EUI (Extreme Ultraviolet Imager), que pode monitorar a atmosfera externa do Sol, também conhecida como coroa. Esses fenômenos, que aparecem com surpreendente regularidade na superfície do Sol, não eram observáveis antes, nem de telescópios terrestres nem espaciais.

Vídeo da fogueira em ação. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL/Gizmodo

“As fogueiras são pequenos parentes das explosões solares que podemos observar da Terra, milhões ou bilhões de vezes menores”, explicou David Berghamans, principal pesquisador do instrumento EUI, em um comunicado da ESA. “O Sol pode parecer quieto à primeira vista, mas quando olhamos em detalhes, podemos ver essas labaredas em miniatura em todos os lugares.”

“Não esperávamos resultados tão grandiosos logo de início”, disse Daniel Müller, cientista do projeto Solar Orbiter da ESA, também no comunicado de imprensa. “Também podemos ver como nossos dez instrumentos científicos se complementam, fornecendo uma imagem holística do Sol e do ambiente ao redor.”

O sol vista da sonda solar orbiter. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL

“Fogueira” indicada pela seta branca. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL

Os cientistas estelares não sabem ao certo o que são essas fogueiras, pois podem ser versões em tamanho pequeno de explosões solares maiores ou algo completamente diferente. Dito isto, sua descoberta poderia explicar um fenômeno estelar pouco conhecido chamado de aquecimento coronal.

Por razões que não estão totalmente claras, a coroa solar é consideravelmente mais quente que a superfície do Sol, com temperaturas de 200 a 500 vezes mais quentes que as camadas abaixo.

As fogueiras são uma característica surpreendentemente onipresente da superfície próxima do Sol, portanto, embora um único minirreflexo não faça muito, as ações coletivas desses fenômenos podem representar a “contribuições dominantes para o aquecimento da energia da coroa solar”, segundo Frédéric Auchère, do Instituto de Astrofísica Espacial da França, e co-pesquisador principal do EUI.

Durante uma conferência de imprensa da ESA, Müller disse que a causa das fogueiras ainda é desconhecida, mas ele suspeita que elas estejam relacionadas ao campo magnético do Sol. As regiões nas quais as labaredas aparecem estão sob pressão e, eventualmente, se rompem, liberando energias que vemos como fogueiras.

Setas indicam os efeitos das fogueiras. Crédito: Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSLSetas indicam efeitos da “fogueira”. Solar Orbiter/EUI Team (ESA & NASA); CSL, IAS, MPS, PMOD/WRC, ROB, UCL/MSSL

Obviamente, ainda temos muito a aprender sobre essas questões recém-descobertas, mas isso é apenas o começo. O Solar Orbiter se aproximará ainda mais do Sol nos próximos dois anos, incluindo uma aproximação que o levará a 42 milhões de km da estrela. Além disso, a sonda acabará entrando em uma órbita inclinada, permitindo que vejamos pela primeira vez as regiões polares do Sol.

Essas novas fotos complementam imagens do Sol tiradas por outros projetos. O Solar Dynamics Observatory, da NASA, também capta imagens do Sol em alta resolução, mas de mais longe. No início deste ano, um telescópio no Havaí nos revelou um vídeo verdadeiramente incrível da superfície solar.

Quanto à sonda Parker Solar — uma sonda da NASA que se aproximará do Sol mais do que qualquer sonda anterior —, ela não está equipada com nenhuma câmera, então, infelizmente, não conseguiremos ver uma imagem gloriosa de nossa estrela. Como explicou a cientista do projeto Solar Orbiter Holly Gilbert, na conferência de imprensa da ESA, a sonda chegará ao limite em que as câmeras podem funcionar, pois o “ambiente fica muito mais complicado do que está agora”.

Ainda é cedo para um veredicto sobre a Solar Orbiter, mas esta missão já está se mostrando bastante impressionante.