Recentemente, noticiamos que a ESA (Agência Espacial Europeia) teve de manobrar um satélite que poderia colidir com um da SpaceX. Segundo a empresa de Elon Musk, um bug fez com que eles não recebessem um alerta informando que poderia haver este “acidente espacial”.

A ESA fez uma série de tuítes descrevendo o incidente. No caso, eles tiveram de manobrar o satélite Aeolus, responsável por monitorar ventos na Terra e ajudar na previsão do tempo, para que ele não colidisse com um dos satélites Starlink — a iniciativa da SpaceX para fornecer internet do espaço.

Especialistas em lixo espacial da ESA calcularam o risco de colisão entre os dois satélites, o que levou à manobra de mudança de altitude do Aeolus. Na sequência de tuítes, a agência reforçou que esta é “a primeira manobra feita para proteger um de seus satélites de colidirem com uma ‘mega constelação’”.

Referir-se ao projeto Starlink, da SpaceX, como uma “mega constelação” é um pouco exagerado, pelo menos por enquanto. Por ora, são 60 satélites espalhados pela órbita da Terra. Estes satélites deixados na órbita baixa da Terra à bordo do foguete Falcon 9 são os primeiros de uma leva de muitos. A SpaceX imagina uma constelação de centenas (ou possivelmente milhares) de satélites, que coletivamente forneceriam internet banda larga para consumidores em qualquer parte do mundo.

Mas a ESA reforçou que “com o aumento no número de satélites em órbita, em função de mega constelações, como a Starlink, manobras manuais de colisão se tornarão impossíveis”.

Um gráfico da ESA identificou o culpado como sendo o satélite Starlink 44. A manobra foi feita meia órbita antes da aproximação mais próxima do Aeolus do satélite da Starlink. Jeff Foust, do SpaceNews, dá mais detalhes sobre o incidente:

Holger Krag, diretor do programa de segurança espacial da ESA, disse em um e-mail enviado em setembro que a equipe de avaliação conjunta da agência percebeu a possível a aproximação com cerca de cinco dias de antecedência, usando dados fornecidos pelo 18º Esquadrão de Controle Espacial da Força Áerea dos EUA. “Informamos a SpaceX e eles reconheceram”, disse ele. “Ao longo dos dias, a probabilidade de colisão excedeu o limite de decisão e iniciamos a preparação da manobra e compartilhamos nossos planos com a SpaceX. A decisão de manobrar foi tomada no dia anterior.”

As chances de colisão foram calculados em 1 em 1.000, o que foi considerado um risco alto o suficiente para justificar a manobra. Os cientistas da ESA avaliaram a ameaça usando dados coletados pela Força Aérea dos EUA, juntamente com o conhecimento dos próprios operadores sobre as posições das naves espaciais, de acordo com o Space News.

Em um comunicado enviado ao Gizmodo, um porta-voz da SpaceX disse que a “última troca de e-mail da equipe da Starlink com a equipe de operação do Aeolus foi em 28 de agosto, quando a probabilidade de colisão estava apenas em 1 em 50 mil, bem abaixo do 1 em 1.000, que é o limite do padrão da indústria e 75 vezes menor que a estimativa final”.

Depois que as atualizações da Força Aérea dos EUA mostraram que a probabilidade aumentou para mais de 1 em 10.000, “um bug em nosso sistema impediu o operador Starlink de ver esta atualização sobre o aumento desta probabilidade”, de acordo com o porta voz da SpaceX. Ele ainda acrescentou: “A SpaceX ainda está investigando o problema e implementará ações corretivas (…) se a operadora Starlink tivesse visto, teríamos coordenado com a ESA para determinar a melhor abordagem ao continuar sua manobra ou realizar uma manobra”.

Espaço é terra sem lei

O incidente revela o estado frágil e primitivo da gestão de tráfego espacial, no qual uma falha de comunicação levou a ESA a agir unilateralmente.

Quanto à constelação Starlink e seu potencial de criar riscos no futuro conforme cresce, a SpaceX está equipando seus satélites com sistemas automáticos e manuais para evitar colisões, segundo a empresa de Elon Musk. A SpaceX também compartilha previsões de posicionamento e velocidade, entre outros dados, com a Força Aérea dos EUA e outros operadores de satélite. O porta-voz da SpaceX disse que a empresa está “entre as pioneiras a compartilhar voluntariamente dados de rastreamento de efemérides com outras operadoras de satélite e o público por meio do space-track.org“.

Em 2018, a ESA fez quase 30 manobras de prevenção de colisão. Então, parece que a agência espacial usou o anúncio para aumentar a conscientização sobre o problema de gerenciamento do tráfego espacial.

Sem dúvida, atualmente estamos numa fase meio “terra sem lei” em termos de como estamos gerenciando o tráfego espacial. Além de impedir que armas de destruição em massa entrem em rota de colisão com a Terra, não existem leis ou tratados formais para gerenciar o material que entrar em órbita, nem o que os operadores devem fazer para impedir que seu satélites colidam com outros. O fato de os satélites colidirem um com o outro não parece grande coisa, mas, além da perda de um ativo importante no espaço, cada colisão produziria um campo de detritos em órbita, aumentando as chances de mais colisões.

Jessica West, diretora de programas do Project Plowshares e editora do Space Security Index, disse que seria um erro dizer que este último incidente não foi um grande problema.

“Sim, manobras de satélite acontecem regularmente”, disse West ao Gizmodo. “Mas só porque algo que é praticado normalmente não significa que é bom. O problema que estamos enfrentando no espaço sideral é que o número de satélites e diferentes operadoras em órbita está aumentando drasticamente, e não temos regras para gerenciar este tráfego. Não há padrões de toda a indústria para quem se move, quando e como”.

Pior ainda, West disse que “não há um único mapa de todo esse tráfego”. Os dados existentes permanecem imprecisos, disse ela, e mesmo que não “estejamos voando às cegas”, não temos as ferramentas necessárias para operar com segurança a longo prazo, explicou.

“Até agora, tivemos sorte”, disse West. “Mas é preciso apenas uma colisão para criar uma bagunça na órbita baixa da Terra”.