O surto de ebola que atinge a RDC (República Democrática do Congo) atingiu um trágico marco. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a epidemia já é a segunda maior já registrada nesses 42 anos de história conhecida do vírus ebola.

O ebola está de volta — por que ainda não temos uma cura para ele?

Na última quinta-feira (29), a OMS informou que houve 426 casos prováveis ou confirmados de ebola registrados na RDC desde julho, com 245 mortes confirmadas ou prováveis causadas pela doença. A maioria dos casos foram detectados na província Kivu Norte além da região leste da RDC, mas também teve 19 casos confirmados na província Ituri ao norte de Kivu Norte.

Este segunda epidemia está bem distante do recorde do surto de ebola ocorrido entre 2014 e 2016. Na ocasião, foram registrados quase 30 mil casos e mais de 10 mil mortes, principalmente na África Ocidental. Mas o potencial para as coisas ficarem piores é grande.

Embora tenha havido uma diminuição de casos em setembro, sugerindo que o surto estava contido, uma segundo onda tem ocorrido desde outubro, sem previsão de fim ou controle. E tem havido relatos de casos suspeitos em outros regiões da RDC, assim como países próximos, como Uganda. Em setembro, a OMS declarou que o risco de o vírus ebola se espalhar por Uganda “era muito alto”.

A ebola é disseminada por meio do contato direto com fluídos corporais como sangue ou sêmen. E muitos dos seus sintomas, incluindo sangramentos e vômitos, permitem que a doença se espalhe. Mas fatores externos têm feito este surto em particular ser tão difícil de lutar contra.

Conflitos armados na região entre o governo e milícias de rebeldes têm dificultado o rastreio de cadeias de transmissão, além de problemas para enviar remédios e médicos para áreas que necessitam. Os moradores, às vezes, resistem aos esforços das poucas equipes médicas para coletar e enterrar de forma segura os corpos de falecidos para prevenir mais contaminações — existe o risco que as pessoas estejam contraindo o vírus ao manipular as vítimas fatais da doença, como reportou a Time.

Se existe um sinal positivo, é que há muitas ferramentas contra o ebola disponíveis para profissionais de saúde.

Uma vacina experimental mostrou resultados promissores em testes limitados durante o surto de 2015 e foram dados para moradores e profissionais de saúde que podem ter entrado em contato com pessoas infectadas — alguns profissionais de saúde de Uganda também tomaram a vacina, como reporta a Reuters. No início desta semana, a OMS anunciou o início de testes clínicos randômicos que vão testar várias drogas experimentais de uma só vez.

Pacientes receberão uma entre quatro drogas que têm mostrado algum sucesso no tratamento da doença, além do tratamento padrão. A ideia do teste é tentar confirmar a segurança e efetividade de cada droga, mas sem privar os pacientes de uma droga em potencial que pudesse funcionar. Ao estabelecer um protocolo de teste, a OMS também espera que essas drogas efetivas possam ser enviadas para os necessitados muito mais rápido no futuro.

“Até agora, pacientes foram tratados sob um protocolo de uso compassivo, com drogas que mostraram ser promissoras e que têm um bom perfil de segurança em condições laboratoriais”, disse Tedros Adhanon Ghebreyesus, diretor da OMS, em um comunicado. “O passo gigante que a RDC está dando agora trará clareza sobre o que funciona melhor e salvar muitas vidas nos próximos anos. Esperamos que um dia a gente possa falar que a morte e o sofrimento causado pelo ebola virou algo do passado.”

Apesar deste otimismo, há um outro grupo que tem ficado de fora do front para conter este surto: os cientistas do governo dos Estados Unidos.

Em outubro, o Departamento de Estado dos EUA confirmou que tinha afastado os profissionais de saúde do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) das regiões afetadas da RDC. O governo citou razões de segurança além de violência armada na região para justificar a decisão, mas especialistas em ebola passaram a criticar a medida. Só nesta semana, editoriais de dois periódicos de saúde pública — Jama e o New England Journal of Medicine — pediram que o Governo dos EUA envie mais recursos para o RDC para ajudar a conter a epidemia, inclusive mais pessoas.

“Dada a piora do surto, acreditamos que é essencial que estas preocupações de segurança sejam abordadas e que a equipe do CDC retorne à região”, disseram os autores do editorial do NEJM (New England Journal of Medicine).

[OMS]