Uma nova pesquisa brasileira revela a conexão entre o tamanho do cérebro e as horas necessárias de sono em mamíferos — porque precisamos dormir 8h por dia, enquanto elefantes dormem apenas 3h, por exemplo.

A pesquisa, publicada na Proceedings of the Royal Society B, mostra que a quantidade de sono é proporcional à concentração de neurônios no cérebro do animal. Ou seja, quanto mais neurônios, mais sono é necessário.



De coautoria de Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o estudo traz, pela primeira vez, uma explicação razoável para o sono. Até então, acreditava-se que a principal função dele, além de consolidar memória e aprendizado, seria a de eliminar toxinas e detritos resultantes de conexões cerebrais. “A função do sono já estava bem estabelecida, mas esta é a primeira vez que conseguimos uma explicação razoável e que possa ser testada sobre necessidades tão diferentes de sono”, disse ela à BBC.

Suzana conta também que há uma relação com o tamanho físico dos animais — um elefante, por exemplo, dorme pouco pois precisa encontrar comida para manter o corpo. A neurocientista explicou o processo:

“O curioso é que, quanto mais tempo um animal passa dormindo, menos tempo ele tem para comer. Por isso, precisa ser pequeno. Por outro lado, quanto mais tempo permanece acordado, mais tempo tem para buscar comida. Assim, pode ter um corpo maior. É um mecanismo de bola de neve.”

Agora, porque os humanos dormem tanto, então? Graças à possibilidade de cozinhar os alimentos. Com essa técnica, é possível ingerir mais calorias em menores períodos, sobrando mais tempo para outras atividades. Isso, entretanto, é variável em nossa espécie, já que recém-nascidos dormem mais e idosos dormem menos.

Isso se dá devido à concentração de neurônios: nascemos quase que com a mesma quantidade de neurônicos que teremos na vida adulta, mas, para o cérebro de um bebê, isso é muito. Por isso eles têm a necessidade de dormir mais. “Conforme crescemos e mantemos o mesmo número de neurônios, a concentração diminui. No caso dos idosos, como perdemos neurônios com a idade, é esperado que durmam menos”, explica Suzana.

A neurocientista tem outros grandes feitos no currículo: ela descobriu quantos neurônios estão presentes no cérebro humano, além de ter publicado um artigo na Science que analisa as dobras do córtex cerebral de mamíferos. Conforme explicamos por aqui:

Por muito tempo, acreditava-se que a quantidade de dobras cerebrais estava relacionada ao número de neurônios, pois os cérebros grandes tendem a ser mais enrugados do que os cérebros menores. Quanto mais neurônios, mais “amassado” um cérebro pareceria. Quanto menos neurônios, mais lisa seria a aparência dele.

No entanto, a equipe de Suzana descobriu que não é assim que as coisas funcionam. Eles conseguiram determinar uma equação que consegue explicar a quantidade de dobras do cérebro de mamíferos e perceberam que elas estão relacionadas à espessura do córtex cerebral: se o córtex é mais grosso, haverá menos dobras; se ele é mais fino, terá uma aparência mais “amassada”.

E o mais interessante é que a equação que determina o índice de dobras dos cérebros dos mamíferos é muito parecida com a equação das bolinhas de papel: se você amassar um papel muito fino, ele terá muitas marcas da dobra. Se for um papel mais grosso, haverá menos marcas.

Em entrevista ao Gizmodo Brasil, Suzana contou as grandes dificuldades de ser cientista no Brasil, como a falta de orçamento, bolsas de estudo miseráveis e a necessidade de se estudar fora do país para complementar o ensino acadêmico – você pode ler a entrevista completa neste link.

Foto de capa: mackenzie and john/Flickr