Um novo estudo descobriu que a radiação nuclear durante os testes de armas do tempo da Guerra Fria pode ter induzido mudanças significativas a curto prazo na quantidade de chuvas em todo o mundo.

Já disse isso e vou repetir: o clima é apenas um experimento de física extremamente complexo, com toneladas de variáveis difíceis de acompanhar. No caso da chuva, pequenas gotas de vapor de água na atmosfera colidem e grudam, crescendo em nuvens e eventualmente caindo do céu. Mas a radiação pode modificar as cargas elétricas das gotículas, influenciando o quanto elas permanecem juntas.

O teste de armas “foi uma perturbação substancial no sentido atmosférico”, disse R. Giles Harrison, do Departamento de Meteorologia da Universidade de Reading e principal autor do estudo, ao Gizmodo.

Os pesquisadores compilaram dados de várias fontes, incluindo a média anual do isótopo atômico estrôncio-90 na atmosfera, conforme registrado pelo Programa de Amostragem em Alta Altitude; a quantidade de átomos carregados produzidos perto da superfície da Terra durante o final dos anos 50 e início dos anos 60 e a corrente elétrica entre o ar e a Terra captada em Londres durante o mesmo período.

Tudo isso mostrou aumentos óbvios na radioatividade e na atividade elétrica durante o início da década de 1960, quando houve vários testes nucleares atmosféricos em todo o mundo. Embora esses testes não tenham sido realizados perto do Reino Unido, a radiação resultante se espalhou pela atmosfera.

Mas esse aumento na atividade elétrica afetou as chuvas? A equipe reuniu dados de nuvens e chuvas retirados do observatório Lerwick em Shetland, na Escócia. Eles observaram nos dados que as nuvens eram significativamente mais espessas durante esse período e que, quando chovia, havia 24% mais precipitação, de acordo com o artigo publicado na Physical Review Letters.

Embora os pesquisadores não pudessem identificar o mecanismo exato, eles postularam que mais radioatividade e mais carga elétrica nas gotículas de água afetavam como as gotículas se fundiam e cresciam. Talvez não seja uma surpresa que a radiação dos testes de armas possa causar impactos distantes — por exemplo, o aço produzido em todo o mundo após a Segunda Guerra Mundial contém mais isótopos radioativos do que o aço anterior à Segunda Guerra Mundial como resultado de testes de armas.

Roelof Bruintjes, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica e que não participou deste novo estudo, disse ao Gizmodo que a pesquisa certamente apresenta um conceito interessante de um grupo respeitável e que provavelmente há verdade nele. Mas ele não afirmaria a conclusão do estudo em definitivo.

“Isso mostra uma certa tendência que precisa ser mais explorada”, disse ele. O artigo conta com muitas fontes de dados díspares de seis décadas atrás. É possível que houvesse apenas um acaso estranho e coincidente do tempo ao mesmo tempo que os testes nucleares. Mas, disse ele, certamente são necessárias mais pesquisas nesta área.

Afinal, já sabemos que partículas liberadas por plantas e seres humanos podem afetar o crescimento das nuvens. Mas, disse Bruintjes, ainda há muito que ainda não sabemos sobre o processo de formação de nuvens. Harrisson disse ao Gizmodo que espera que novas experiências com balões meteorológicos ou outros instrumentos possam estudar gotículas em nuvens com mais detalhes.

Por fim, entender o efeito da radiação ou carga elétrica na formação de nuvens pode ser importante para os cientistas que pesquisam geoengenharia ou outra tecnologia para lidar com os efeitos das mudanças climáticas. Mas, disse Bruintjes, precisamos entender melhor as nuvens antes que possamos começar a falar sobre projetos em escala global para alterar o clima.