Acessar a página de políticas de privacidade do Tinder te dá um panorama sobre quais são os dados que o aplicativo de relacionamentos irá coletar sobre você, sem muita cerimônia: “podemos coletar informações pessoais, incluindo dados sensíveis, e outras informações”. Endereço de email, localização, interesses, data de aniversário, informações sobre educação, fotos, lista de amigos… Essa é só a ponta do iceberg, como mostrou a reportagem da jornalista Judith Duportail, publicada no Guardian.

Por meio da lei de proteção de dados da União Europeia, Judith solicitou ao Tinder, em março deste ano, o acesso aos seus dados pessoais dentro do serviço. A resposta veio na forma de 800 páginas com praticamente todos os registros que o aplicativo realizou enquanto ela deslizava entre os perfis e trocava mensagens: a data e horário do primeiro login, quantas vezes o aplicativo foi aberto, quantos matches, onde e quando estava em cada uma das conversas e informações vindas de outras redes sociais como o Facebook e Instagram — incluindo fotografias, mesmo depois que a conta já não estava mais vinculada.

Judith conta que fez uma viagem em suas esperanças, medos, preferências sexuais e segredos. Reviu nomes dos quais já não se lembrava, de mensagens repetidas para diferentes matches. No entanto, essa coleção de dados não é exclusividade do aplicativo de relacionamentos e muito menos uma novidade para o mercado. Ela é, na verdade, a engrenagem que permite que os negócios na internet funcionem, gerem grana e mantenham você preso aos algoritmos. A revista The Economist, por exemplo, trata os dados pessoais como a principal commodity do mundo.

No artigo do Guardian, o cientista de dados Olivier Keyes, da Universidade de Washington, comenta que “todos os aplicativos que usamos regularmente em nossos celulares possuem o mesmo tipo [de informações]”. Um dos problemas centrais dessa coleta desenfreada é a falta de controle que temos sobre as nossas próprias informações. O Gizmodo Brasil entrou em contato com a jornalista para saber se o Tinder permitiu que ela apagasse todos esses dados. A resposta: não. E isso está previsto nos termos: “ao utilizar o nosso serviço, você nos autoriza a coletar, analisar e reter dados relacionados à prestação do serviço”. Outro trecho destaca: “você não deve esperar que seus dados pessoais, chats e outras comunicações permaneçam sempre seguras”.

O que, pelo menos, é bem honesto. Há alguns meses, o desenvolvedor brasileiro Luiz Rodrigo publicou como fez para descobrir a localização de seus matches no Tinder. Cruzando o dado de distância fornecido pelo Tinder, bastante matemática e coleta de dados, Luiz conseguiu determinar com uma precisão assustadora a possível localização dos usuários do serviço. O aplicativo Tinder Scraper, por sua vez, “coleta informações sobre usuários para reunir descobertas que talvez sirvam ao público”, como o nome, gênero, distância, emprego, formação, Instagram e Spotify de praticamente qualquer pessoa que utilize o app.

São dois exemplos que dão a ideia de que a reunião desses dados nas mãos das empresas podem não servir apenas para propósitos mercadológicos para “oferecer uma experiência cada vez mais personalizada” e te mostrar anúncios relevantes na internet. Em mãos erradas, o potencial para destruir a vida de uma pessoa é gigantesco: perseguições, exposições, só para citar dois. O próprio artigo do Guardian alerta para um futuro nebuloso no qual os dados irão gerir boa parte das nossas vidas: “seus dados pessoais afetam quem você vê primeiro no Tinder, sim. Nas também afeta quais são as vagas que você tem acesso no LinkedIn, quanto você pagará no seguro do seu carro, qual publicidade verá e se você poderá pedir um empréstimo”, comenta Paul-Olivier Dehaye, ativista de privacidade da personaldata.io.

Enquanto a União Europeia tem uma legislação que pelo menos permite a visualização desses dados, o Marco Civil da Internet sequer prevê essa possibilidade e não regulamenta completamente os direitos e deveres das empresas e usuários em relação aos dados privados. O Projeto de Lei 5276/16, hoje anexado ao PL 4060/2012, aguarda parecer do relator em Comissão Especial da Câmara e poderia atender a demanda por transparência e proteção de dados pessoais.

Foto do topo: Tsering Topgyal/AP