Uma equipe de médicos no Brasil anunciou um procedimento médico inédito que, um dia, pode ajudar inúmeras mulheres que não podem ter filhos devido a danos no útero ou ausência dele. Em um relato de caso publicado na terça-feira (4), na Lancet, eles alegam ter ajudado com sucesso uma mulher a dar à luz usando um útero transplantado de uma doadora morta.

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De acordo com o relato, a equipe realizou a operação em um hospital brasileiro, em setembro de 2016, em uma mulher de 32 anos que não teve o nome revelado. A mulher havia nascido com uma rara condição genética que a deixou sem útero, conhecida como síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser, mas, tirando isso, ela era saudável. A doadora era uma mulher de 45 anos que tinha morrido repentinamente de AVC; ela tinha tido três gestações bem-sucedidas com partos vaginais no passado.

Ilustração de como foi realizado o transplante uterino. Ilustração: Ejzenberg, et al. (The Lancet)

Quatro meses antes do transplante, a mulher que recebera o útero havia feito fertilização in vitro, que produziu oito embriões viáveis que foram congelados. Após uma cirurgia de dez horas de duração, que conectou o útero e parte da vagina da doadora à vagina e ao sistema circulatório da receptora, a mulher adotou um regime de remédios imunossupressores que impediram que seu corpo rejeitasse o útero da doadora. Sete meses depois, ela teve um embrião implantado com sucesso. E, 35 semanas e meia depois disso, ela deu à luz uma menina aparentemente saudável, nascida por cesariana, sem complicações.

Desde 2013, foram relatadas pelo menos dez gestações de mulheres com útero transplantado. Mas, segundo os autores, eles são os primeiros a fazer isso com um útero de uma doadora falecida (houve uma tentativa documentada em 2011, mas a gravidez terminou em aborto espontâneo). O feito é algo que poderia fazer do procedimento uma maneira muito mais atraente e realista para algumas mulheres conceberem.

“Os primeiros transplantes uterinos de doadoras vivas foram um marco médico, criando a possibilidade de parto para muitas mulheres inférteis com acesso a doadores adequados e às instalações médicas necessárias. No entanto, a necessidade de uma doadora viva é uma grande limitação, já que as doadoras são raras, sendo normalmente membros da família ou amigas próximas dispostas e elegíveis”, disse, em um comunicado, Dani Ejzenberg, ginecologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e principal autora do artigo. “O número de pessoas dispostas e comprometidas a doar órgãos após sua própria morte é muito maior do que o de doadoras vivas, oferecendo uma população de doadoras potenciais muito maior.”

Além de dependerem de uma doadora falecida para o seu transplante uterino, os médicos também podem ter tornado o procedimento menos dispendioso e perigoso. Anteriormente, com doadoras vivas, os médicos esperavam pelo menos um ano após o transplante para começar a tentar uma gravidez. Mas os autores acreditavam que poderiam encurtar com segurança o tempo para seis meses.

No fim, eles atrasaram por mais um mês depois de os testes sugerirem que o revestimento do útero da doadora não era suficientemente espesso para suportar o implante. Mas encurtar o período da transição mesmo em cinco meses significa que a receptora precisará de muito menos cuidado médico e remédios imunossupressores fortes para que seu útero permaneça saudável. E, diferentemente da maioria dos transplantes de órgãos, um útero doado pode ser removido com segurança após uma gravidez bem-sucedida, permitindo que a mulher pare de tomar medicação antirrejeição.

Os autores dizem que a sua versão do procedimento não se destina a substituir a possibilidade de usar uma doadora viva, mas, sim, a dar outra opção às mulheres com problemas uterinos. E ainda há muitas perguntas sobre como refinar melhor o procedimento. Durante o transplante, houve um período de perda de sangue que acabou sendo administrado, mas que pode ser evitado no futuro, alterando a forma como o órgão é inicialmente reconectado ao sistema circulatório da mulher, de acordo com o estudo. E é possível que as pacientes não precisem de tantos imunossupressores como os que recebem atualmente para evitar a rejeição de órgãos.

O que não falta são mulheres e casais que queiram tirar proveito do procedimento, conforme ele se torna mais fácil e seguro de se executar. Segundo pesquisa citada pelos autores, 10% a 15% dos casais que teoricamente poderiam ter e querer filhos são inférteis de alguma forma, sendo que uma em cada 500 mulheres nessa população é infértil devido à falta de útero. Condições genéticas como a síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser podem causar isso, mas, mais frequentemente, é porque as mulheres passam por uma histerectomia inesperada para prevenir câncer ou tratar distúrbios dolorosos como a endometriose.

Quanto à mulher brasileira e seu filho, um representante de Dani Ejzenberg disse ao Gizmodo por e-mail que ambos parecem estar perfeitamente saudáveis. A criança vai, inclusive, comemorar seu primeiro aniversário em cerca de duas semanas. A equipe agora está autorizada a realizar o procedimento em mais duas mulheres.

[The Lancet]