O Uber implementou uma ordem para que seus motoristas tirem pelo menos seis horas de folga toda vez que trabalharem por 12 horas consecutivas, segundo noticiou o Washington Post na segunda-feira (12), como parte de uma iniciativa para combater trabalhadores com sono no trânsito, algo que pode resultar em acidentes potencialmente fatais.

O jornal informou que, dentro de duas semanas, motoristas nos Estados Unidos serão anunciados do limite embutido depois de excederem dez horas no volante em uma só sessão. Depois, novamente após 11 horas e uma terceira vez quando restarem 30 minutos. O app vai então ficar indisponível para novas corridas até que o “período obrigatório de descanso” de seis horas acabe, afirma o Washington Post.

Segundo o jornal, o diretor de gerenciamento de produtos do Uber Sachin Kansal descreveu como o limite vai funcionar em uma série de cenários. Isto é, não vai penalizar motoristas por longas esperas por passageiros, mas vai tentar evitar que eles enganem o sistema tirando folgas menores do que seis horas:

Kansal disse que o app vai medir o tempo de condução usando GPS e telemática, para detectar se o veículo está se movendo ou não. Esperas curtas, como em semáforos, vão contar contra o tempo dos motoristas. Mas esperas mais longas, como em filas de aeroporto, e outras que excedam cinco minutos, não vão contar.

Pelo relógio ser acumulativo, um motorista pode ser forçado a tirar uma pausa mesmo que não tenha dirigido por 12 horas consecutivas. Por exemplo, alguém que aceitou corridas em dois estirões de seis horas — sem tirar seis horas de descanso entre elas — terá seu aplicativo desativado depois da segunda corrida.

Em algumas jurisdições que já têm limites de condução, o recurso será ajustado para se adequar às exigências locais. As regulações do estado da Virgínia, por exemplo, permitem 13 horas de condução em um período de 24 horas. O Lyft já exige uma pausa de seis horas a cada 14 horas de direção.

Como o Slate apontou, embora a decisão possa ajudar a reduzir o risco de acidentes causados por privação de sono, é bastante óbvio o motivo pelo qual os motoristas de Uber escolhem trabalhar por mais de 12 horas de uma só vez: remuneração ruim, custos altos e nenhum benefício. As legiões de motoristas do Uber há muito tempo alegam que o aplicativo os estimula em remunerações por meio de táticas empresariais obscenas, cortes tarifários e comissões crescentes, forçando-os a trabalhar mais horas continuamente.

Já que muitos motoristas de tempo integral alternam entre Uber e concorrentes como o Lyft ao longo do dia, é possível que eles simplesmente se programem para usar os apps de forma que atinjam as maratonas de mais de 12 horas que algumas fontes dizem ser comum no setor dos motoristas de aplicativos. De qualquer forma, embora o Uber não tenha sido legalmente obrigado a implementar regulações mais rigorosas, a própria descrição da companhia para o novo recurso sugere que os motoristas do app poderiam, em teoria, trabalhar em nove turnos de 12 horas, chegando a um total de 112 horas semanais — muito mais do que, digamos, o motorista médio de caminhão, e isso é algo que não é tão incomum assim, segundo o USA Today (o Uber diz que maioria dos motoristas não dirige em tempo integral, mas também promoveu números de remuneração que exigiriam longas horas na estrada).

A forma como o Uber trata funcionários tem sido uma das maiores controversas na economia de bicos, um setor em crescimento, incluindo apps e serviços online que classificam os trabalhadores como contratados independentes para realizar tarefas que, há uma década, seriam feitas por empregados. Em seu comunicado ao Washington Post, o Uber enfatizou que estava implementando as novas restrições independentemente de quem era tecnicamente o responsável legal por controlar por quanto tempo os motoristas ficavam nas ruas.

As tentativas dos trabalhadores de ter um tratamento mais favorável de empresas assim têm sido há muito tempo sufocadas no tribunal. A Bloomberg noticiou na semana passada que uma decisão judicial federal “inédita” na Califórnia concluíra que o serviço de entrega de comida Grubhub poderia, legalmente, classificar seus motoristas como trabalhadores independentes em vez de empregados, apesar das leis trabalhistas relativamente rigorosas do estado. Entretanto, a juíza do magistrado dos EUA Jacqueline Scott Corley advertiu que os legisladores talvez queiram resolver a “dicotomia rígida” que poderia resultar da “criação de uma força de trabalho de baixa remuneração realizando trabalhos de baixa habilidade, mas altamente flexíveis e episódicos”.

[Washington Post/Slate]

Imagem do topo: AP