Já tive a minha fase de experimentações. (De sistemas operacionais; é disso que estamos falando, né?) No começo da década passada testava todas as versões possíveis e imagináveis do Windows, algumas distribuições Linux, até o finado BeOS.

Era aquela coisa inocente, curiosa. Não tinha a necessidade, não sabia usar esses sistemas e, àquela altura, todos eles eram pouco amigáveis para desentendidos como eu. No Linux, muito terminal, dor de cabeça para fazer os winmodems da época funcionarem, a destruição iminente do sistema poucas horas após a instalação, um oferecimento da condição de root que, não me pergunte o porquê, eu insistia em usar o tempo todo. Ainda bem que não havia nada importante no computador, só uns trabalhos da escola e imagens que salvava de sites. Meu HD sofria.

Como consertar qualquer computador.

Tirinha do Oatmeal.

Depois de um tempo sosseguei. O computador passou a ser uma mera ferramenta de trabalho. Sosseguei tanto que hoje não mexo em quase nenhuma configuração do Windows após instalá-lo e, não raro, me pego usando o papel de parede padrão do sistema por meses antes de trocá-lo, geralmente quando acontece algum problema na conexão ou o Google Reader está zerado, o Twitter enfadonho e o Tumblr, todo visto.

É isso, mais jogos e os (poucos) programas aos quais me acostumei e nos quais confio, que me “prendem” ao Windows. Essa é, porém, uma prisão frágil. Sinto-me em casa com o sistema, é verdade, mas sou um cara mais web. A maior parte das coisas que faço em um computador é no navegador. Migrar deve ser simples, certo?

Se eu evoluí enquanto usuário, o Linux não dormiu no ponto durante todo esse tempo. Na minha época de testes malucos e infundados o Ubuntu nem existia. De 2004 até hoje, ele evoluiu bastante e se posiciona como uma alternativa gratuita, livre, com toda uma filosofia interessante por trás. Eu simpatizo, mas meu lado pragmático acaba sempre falando mais alto. De qualquer forma, e se…?

Foi com isso em mente que tivemos a ideia de realizar este experimento. Uma semana só com o Ubuntu. Não instalei o sistema em dual boot com o Windows, não usei o WUBI, nem um LiveCD. Nada disso. Nesses sete dias ele era a minha escolha, o meu sistema. O notebook eu deixei com uma cópia de avaliação do Windows 8 para emergências (nenhuma ocorreu), mas a ideia era passar uma semana “Windows-free” – objetivo esse, posso dizer, alcançado com sucesso. Nos próximos tópicos você lerá o meu processo de adaptação, polvilhado por dicas, problemas que enfrentei e como os solucionei, o que me chamou a atenção (positiva e negativamente), o que precisa melhorar e, claro, o veredito: dá para viver a bordo do Ubuntu?

Antes de continuar, um disclaimer: geralmente a cada seis meses eu dou uma olhada no Ubuntu. Por mais controversas que tenham sido as últimas decisões, especialmente em relação à Unity (chegaremos a ela), cada lançamento me atiça para ver como ele está. Em todas essas situações rodo o sistema em uma máquina virtual, com o desempenho levemente comprometido e sem o compromisso de definir contas, passar músicas, fotos e vídeos e fazer outros ajustes básicos. É só para ver mesmo, coisa de menos de uma hora, nada próximo do que passei nesses últimos dias.

Instalação, primeiro contato e primeiros problemas

Um dia normal de uso do Ubuntu.

A Canonical, empresa por trás do Ubuntu, sabe que não é fácil convencer as pessoas a largar o Windows. Não é maldade, ou implicância; é comodidade. Se está tudo funcionando, se a licença foi paga junto com o computador, por que mudar? Porque é open source não ajuda, gratuito também não. Melhor? Isso é relativo. Para mim “melhor” é o que funciona da forma mais simples e/ou que eu esteja melhor habituado. Para a maioria, também. Ganhar do Windows nesses casos é difícil. Todo mundo usa desde pequeno, em casa e no trabalho.

Para quebrar essa barreira inicial, a abordagem costuma ser sutil. Ações agressivas, como aquele recado ao Windows 8 no lançamento do Ubuntu 12.10 (a versão que utilizei, aliás), são exceções. A sacada da Canonical é permitir que o usuário experimente o Ubuntu sem privá-lo do Windows.

Há duas formas para tanto. Primeiro, através do WUBI. Trata-se de um utilitário para Windows. Ele instala o Ubuntu em dual boot a partir do sistema da Microsoft. Se o usuário não gostar e quiser o espaço em disco perdido para o Ubuntu de volta, removê-lo do HD é tão simples quanto desinstalar um programa no Windows. Fácil, indolor.

A outra, se dá na instalação de fato, via pen drive ou LiveCD. Logo de cara o instalador do Ubuntu pergunta se o usuário deseja instalar o sistema no disco inteiro ou em paralelo ao Windows – e traz essa opção marcada por padrão. É simpático e dá mais segurança a quem não quiser arriscar muito. Instalar o Ubuntu já é um sinal forte de confiança, quebrá-la não faria qualquer sentido mesmo.

Como o nosso experimento era drástico, dei adeus ao Windows e mandei o instalador do Ubuntu fazer o sistema ocupar todo o disco. Ele é bem esperto, só me perguntou isso e mais nada; todo o trabalho pesado é feito por baixo dos panos, sem interferência do usuário. Durante a instalação, aquelas perguntas de configuração correm na própria janela. Em vez de tomar um cafezinho, você e seu computador trabalham juntos, ao mesmo tempo. Que lindo, não?

O processo de instalação levou, contando o download dos pacotes e atualizações que marquei para serem feitos logo de cara, 20 minutos. Fiz tudo a partir de um pen drive, preparado no Windows com a ajuda do eficiente e espalhafatoso LinuxLive USB Creator. É um dos softwares mais feios que já vi na vida, mas funciona.

LinuxLive USB Creator.

Após a primeira inicialização e passar pela (bela) tela de login, a área de trabalho do Ubuntu 12.10 surge. Bem bonita, com o lançador à esquerda, uma barra fixa no topo e mais nada. De cara, atualizações surgem. Foram 146, totalizando 185 MB, que exigiram a reinicialização do sistema logo em seguida. Quem disse que isso é exclusividade do Windows?

Atualizações no Ubuntu 12.10.

Mudei o papel de parede, passeei pelas configurações do sistema (bem azeitadas e diretas), dei uma olhada no Firefox, que está intimamente integrado. Tudo bonito, tudo funcional, mas um detalhe “extra computador” me irritou um pouco: o barulho da placa de vídeo.

Tenho uma ATI Radeon HD4850. Meu computador é bastante silencioso, mas a placa de vídeo “grita” quando é exigida em algum jogo no Windows. Desde o primeiro contato com o Ubuntu, entretanto, ela fez barulho. Constantemente. Também sentia um certo “arrasto” na interface, nada muito drástico, mas não parecia certo.

A princípio pensei que o driver proprietário estivesse faltando. Rodei o atualizador, ele não encontrou nada. Em seguida, instalei o Catalyst para Linux. Havia a esperança de que o controle da ventoinha estivesse configurado para uma rotação alta, em vez da dinâmica que, no Windows, é padrão. O Catalyst não funcionou e acusou a inexistência de uma placa de vídeo da ATI/AMD instalada. Faltava o driver mesmo.

E aí, meus amigos, aqueles anos de testes malucos e muita dificuldade em fazer as coisas funcionarem voltaram com força. Lá estava eu, no Google, pesquisando formas de como fazer a minha placa de vídeo funcionar direito no Linux.

Isso é sempre uma via crúcis. Você vai de site em site se deparando com soluções mágicas que não funcionam, comandos para o terminal que fazem um monte de coisa, menos resolver o problema e bugs. Nessas andanças, descobri que na transição para a versão 12.10 a AMD meio que deixou de lado a série HD4xxx e anteriores no driver. Testei comandos sugeridos em alguns sites, mas nada parecia resolver. Uma resposta no Ask Ubuntu tinha a receita certa. Basicamente, o que fiz foi digitar a seguinte linha no terminal:

sudo apt-get install linux-headers-generic

Não me pergunte o que isso faz, o máximo que sei é que instala alguma coisa. O quê? Não tenho a mínima ideia.

Trabalheira com driver da placa de vídeo.

Depois, fui ao site da AMD e baixei o último driver disponível para Linux. Para instalar, mais um punhado de linhas de comando que encontrei no site oficial do Ubuntu. Um saco. Acho que deu certo — o Catalyst pelo menos passou a abrir. Infelizmente, a versão para Linux é extremamente limitada. Não tem opções de controle da ventoinha e outras funções avançadas que existem no Windows. O barulho dela diminuiu consideravelmente, mas ainda longe do ideal e sem o controle dinâmico da velocidade. Até pesquisei se havia uma forma de fazer isso na unha, me deparei com um tal de Jupiter para monitoramento de temperaturas e outras informações, mas deu erro e… bom, chega.

Unity e apps padrões

Passada a frustração, foi hora de conhecer o Ubuntu 12.10 pra valer. A Unity, shell do Ubuntu, é agradável. Há ícones à esquerda, fixos ou exibidos só quando o app em questão está aberto, de forma muito semelhante à barra de tarefas dos Windows 7/8. No topo, a barra fixa e metamórfica, a la OS X. O primeiro botão do lançador é o Painel inicial, algo parecido com o menu Iniciar, mas com forte apelo para a pesquisa.

Painel inicial.

Ao abrir o Painel inicial, o lançador e a barra superior ficam transparentes, dando foco total para o grande campo de pesquisa e os ícones espalhados ali. Comece a digitar alguma coisa, e o sistema filtra automaticamente os resultados. E não são só apps: ele comporta arquivos, músicas, vídeos, fotos, inclusive coisas vindas da Internet, como sugestões de apps não instalados e ofertas da Amazon.

Desative esse lance das ofertas da Amazon. É irritante.

Dá para filtrar os resultados por tipo (as “lentes” ficam no rodapé do painel) e, dentro de cada tipo, usar filtros ainda mais específicos e contextuais. Existe também um preview, acionado com o botão direito do mouse, bem bacana para fotos e vídeos (ele funciona com qualquer arquivo).

Um detalhe quase bobo, mas que poderia ser revisto, é a posição do botão que abre o Painel inicial. Ele é o primeiro, mas não fica exatamente no canto superior esquerdo; ele está um pouco abaixo. O movimento de levar o mouse até esse canto não é tão intuitivo quanto o do botão Iniciar do Windows, por exemplo. É preciso “mirar”, o que acaba tornando o acesso via teclado (tecla Windows, ou “Super”) mais prático – até porque é mais cômodo digitar lá para encontrar o que deseja.

Menu de contexto no lançador.

O lançador está bonito, com cores adaptadas ao papel de parede em uso. Ele aceita atalhos como tecla Windows + 1-9 para abrir programas, tal qual o Windows. Cada ícone pode ter um menu de contexto com ações específicas. Segurando a tecla Windows por mais tempo, aliás, uma lista de atalhos no teclado surge no meio da tela.

Decidi usar o Firefox, que há tempos deixei de lado no Windows, devido à integração com web apps. Uma das grandes novidades do Ubuntu 12.10, ele permite transformar alguns sites em apps. Não chega a ser um app de verdade (eles continuam abrindo dentro do Firefox), mas há integração e alguns detalhes legais, como notificações de email e Facebook na barra superior e controles de música do Rdio integrados.

Alguns web apps integrados ao Ubuntu.

A navegação é tranquila e, de diferente do Windows, só a tipografia dos sites. Como o conjunto de fontes do Linux é diferente, e a maioria faz sites com as fontes padrões do Windows em mente, quase sempre o navegador recorre às fontes “de backup” configuradas. Nem sempre o resultado disso é satisfatório.

Como fica o Gizmodo no Ubuntu 12.10.

O Firefox denuncia algumas inconsistências no ambiente Linux. A barra de rolagem, por exemplo, difere do restante do Ubuntu. A barra padrão do sistema fica oculta por default e aparece só quando o cursor passa. No Firefox e no LibreOffice, é o padrão antigo que vale pelo fato de ambos os programas usarem bibliotecas diferentes – ou algo do tipo.

Discrepância nas barras de rolagem.Esse é quase um caso isolado. De resto, os aplicativos são bonitos e consistentes. O visual do Ubuntu melhorou muito nas últimas versões, deixando de lado aquele marrom e apostando em cores mais sóbrias – preto, laranja e vinho.

Entre os apps que vêm pré-instalados, temos o básico do básico. Há soluções para fotos (Shotwell e um visualizador de imagens simples e rápido), Rhythmbox para música, Totem para vídeos, gedit (editor de textos básico), Transmission (cliente de BitTorrent), Thunderbird, Gwibber (redes sociais e bate-papo) e alguns poucos outros. É uma seleção relativamente enxuta e bem compreensiva, abrangendo boa parte do que um usuário médio faz no computador.

Se isso não for o bastante, não faltam caminhos e métodos de baixar apps novos no Ubuntu. O mais simples e recomendado é a Central de programas do Ubuntu, a “app store” do sistema. Ela é tão simples quanto se esperaria, com categorias, descrição e imagens dos apps, instalação e atualização simplificadas e até apps e jogos pagos. Cada app pode receber avaliações e comentários também e, na página inicial, há destaques, apps mais bem avaliados e até uma seção com recomendações – desativada por padrão devido a questões relacionadas à privacidade.

E tem o apt-get. É por linha de comando, sim, mas é tão simples e funcional que desde que tive o primeiro contato com ele sinto falta de algo parecido no Windows.

Instalação de apps via apt-get.

O apt-get é um poderoso comando/utilitário que permite instalar, atualizar e remover aplicativos do Linux. A sintaxe é bem fácil de aprender e, depois disso, basta um comando para instalar um app:

sudo apt-get install chromium

E o Chromium é instalado. Ele lida com dependências, faz todo o trabalho sozinho, sem pedir confirmações exageradas ou encrespar no processo, basta que os apps constem nos repositórios configurados (isso é meio complicado). Na prática, é lindo. Quer atualizar todos os seus programas com uma linha?

sudo apt-get upgrade all

Quer desinstalar o Firefox?

sudo apt-get remove firefox

E só. Não é o tipo de coisa que uso direto (também no Linux vi que sou um cara de poucos apps), mas acho fascinante esse sistema tão simplório e, ao mesmo tempo, tão poderoso.

Trabalhando

Uso pouca coisa para trabalhar. Como ele consiste em ler e escrever bastante, um navegador geralmente basta. Para redimensionar e fazer pequenos ajustes em imagens, no Windows uso o IrfanView. Vez ou outra edito alguma coisa em HTML e CSS, e uso um servidor local para testar temas e coisas assim.

A falta de um IrfanView-like foi o maior entrave no meu workflow. Recortes, ajustes em cores/contraste/etc e outras edições básicas que o IrfanView permite que eu faça sem dificuldades não tem nada parecido no Linux. O Ubuntu 12.10 sequer vem com apps para essa finalidade – o GIMP, que deve ter passado pela sua cabeça, não está mais no rol de apps pré-instalados da distro. E, convenhamos: ele é terrível.

Acabei usando o XnConvert para redimensionar fotos. Não é o programa ideal: ele é destinado a operação em lote, de modo que trabalhos em arquivos individuais ficam bem esquisitos ali – definir regras em vários menus para ter um resultado na saída é meio “overkill”. Talvez exista esta mítica alternativa Linux ao IrfanView, mas desconheço e as pesquisas que fiz não deram em nada. Pena.

XnConvert

Fazendo jus ao navegador, de longe a minha ferramenta de trabalho mais importante, não fiquei só no Firefox. Afinal, no Windows uso quase sempre o Chrome; deixá-lo de testar no Ubuntu seria injusto. A instalação foi bem tranquila, mesmo fora da Central de programas do Ubuntu. Qualquer instalador .deb é aberto por lá com dois cliques e, dali em diante, o processo segue o caminho padrão de apps da loja, o que se resume em clicar no botão “Instalar” e, depois, inserir a senha de root. Foi o caso do Chrome, baixado diretamente do site oficial.

O motor do Chrome parece mais “macio”, mas a estranheza (que pode ser falta de costume) é comum ao Firefox no Ubuntu. Ambos parece mais “presos”, “pesados”, sem falar nas fontes… Em nenhum momento travaram durante todo o período em que estive a bordo do Ubuntu. Faltou mais tempo para adaptação? Provavelmente. Essa sensação de estar usando algo diferente era palpável, mas não me impediu de acessar nada. Os sites que geralmente uso, inclusive alguns com streaming de música e vídeos e até o do banco (Bradesco), todos funcionaram sem problemas.

No WordPress, que usamos aqui no Giz, o único problema percebido foi a fonte do editor de textos. Já falei das fontes estranhas yada yada yada, mas nesse caso específico elas ficaram minúsculas, a ponto de dificultar a legibilidade e me forçar a usar o zoom. E eu nem tenho miopia, hein!

Painel do WordPress no Ubuntu.

Com essas pautas maiores no Giz, também experimentei o editor de textos do LibreOffice, o Writer. Ok, ele — simples, com alguns recursos limitados, mas funcional; quase um Word simplificado. E abre rápido, o que me surpreendeu muito dada a imagem com que fiquei do letárgico LibreOffice no Windows.

Num dia desses, resolvi instalar uma cópia local de Apache, PHP e MySQL para testar uns temas do WordPress. A instalação do XAMPP foi tranquila, mas tive problemas para iniciar o phpMyAdmin. Aparentemente, um excesso de segurança da última versão impede o acesso ao aplicativo (!?). É preciso editar um arquivo de configuração e reiniciar o servidor. Mais uma vez, e embora isso seja um pouco além do trivial, tive que recorrer a pesquisas no Google para resolver um problema bobo.

Dessa “sidequest”, outra dificuldade emergiu: como manipular arquivos em pastas que demandam root sem tê-lo. No Windows tem o “Abrir como administrador”; no Ubuntu, não encontrei essa opção na interface gráfica. Acabei recorrendo ao terminal: comando mv precedido do sudo. Trabalhoso, mas funcionou e consegui subir meu servidor local e rodar o WordPress nele.

Iniciando o XAMPP no Ubuntu, via linha de comando.

Dá para se divertir com o Ubuntu?

Sim, a resposta é “sim”. No começo da instalação o sistema pergunta se o usuário quer instalar CODECs e outros componentes multimídia. “Claro, por que eu não instalaria?”, foi o que pensei. A resposta? Licenças. Há pontos onde a natureza aberta do Ubuntu e da GPL atrapalham bastante…

Mas não é nada grave no fim das contas. Por ter marcado aquela opção, o meu sistema estava pronto para se tornar uma central multimídia de cara, sem que eu precisasse fazer qualquer coisa. Tocou MP3, FLAC, vídeos em MP4 (inclusive codificados em H.264/x264), os AVIs e MOVs padrões e até uns mais anárquicos, com Matroska e MTS. Tudo, repito, sem precisar recorrer à instalação individual de CODECs ou configurações mirabolantes. Bastou abrir o Toten (player de vídeo que vem pré-instalado) ou Rhythmbox (jukebox), para desfrutar desse conteúdo. A loja de apps ainda oferece players ótimos, como VLC e SMPlayer, para download com um clique.

Trailer de 007 Skyfall rolando sem problemas.

Com jogos a questão é mais delicada. A essa altura você já deve saber, mas o Steam, loja/plataforma da Valve, está engatinhando no Ubuntu com um Beta fechado (que, infelizmente, não consegui acessar durante os testes). Sobraram-me alguns joguinhos indie que tinha perdidos por aqui, comprados naqueles indie bundles.

Problema-mor: instalação. Cada jogo vem em um formato diferente e, com exceção dos .deb, os demais são bem chatos de instalar. Um .bin pode funcionar com dois cliques (Jamestown) ou não dar sinal de vida (Super Meat Boy). Fiquei preso na instalação de alguns, mas tendo conseguido uma boa taxa de sucesso, a inconsistência nos processos de instalação é uma dificuldade extra em um ponto onde, em todas as plataformas, praticamente não há problemas.

Fiquei positivamente surpreso com o fato de o Ubuntu ter identificado e instalado corretamente o driver do joystick de Xbox 360. Sem avisar nada, sem instalar nada além do necessário para que o acessório funcionasse. Esse comportamento, aliás, é padrão, e bem legal. No Windows 8, para efeitos comparativos, instalei uma impressora dia desses e, surpresa, a HP colocou um bloco dinâmico sem avisar. Para que ficar no básico se dá para “sujar” o sistema do usuário, certo?

(Aproveitando o assunto hardware, dos meus periféricos o único não reconhecido/instalado foi… o celular. O Galaxy S II Lite, que usa aquele protocolo UMS ao ser conectado no computador para o mass storage, não deu sinal de vida no Ubuntu.)

Revenge of the Titans no Ubuntu.

Jamestown, Osmos, World of Goo, Bit.Trip.Runner, Revenge of the Titans… Todos rodaram ok. Tudo bem que são jogos simples, que não exigem muito do computador, mas imagino que títulos mais elaborados não devam sofrer muito com a conversão para o Linux. O apoio da Valve pode mudar o cenário a médio ou longo prazo, mas no momento é a disponibilidade o que mata a diversão no Ubuntu. A menos que você goste muito mesmo (e apensa) de jogos indie.

O que dizem outros usuários?

Conversei com alguns usuários de Linux, gente que abdicou do Windows em suas máquinas pessoais e fazem tudo nelas.

Julian Fernandes, que trabalha com otimização de sites e mantém o Ubuntu-BR-SC, citou as vantagens do Ubuntu para o seu trabalho:

“Já faço isso a alguns anos. O Ubuntu supre todas as minhas necessidades, sejam elas profissionais ou pessoais. Com ele eu trabalho, me mantenho atualizado, escrevo, assisto filmes e até jogo, com a recente liberação do beta fechado da Steam, da qual faço parte.

No meu caso é até mais fácil trabalhar usando o Ubuntu do que Windows. Como trabalho bastante com otimização de servidores, o terminal é uma poderosa ferramenta que o sistema me dá.”

Ele também cita alguns softwares alternativos aos do Windows, aquele velho comparativo (LibreOffice no lugar do Office, GIMP para substituir o Photoshop e por aí vai). Roney Médice, professor acadêmico e sócio da NID Forensics, ressalta essa deficiência do Linux ao comentar o (restrito) uso de Windows que ainda faz:

“Perfeitamente, hoje consigo utilizar mais o Linux que o Windows, digamos, 90% Linux e 10% Windows. Agora você me pergunta por que uso então ainda o Windows? ora… é mais por conta de determinados softwares ainda só rodar na versão Windows.”

Lucas Pereira, gerente de marketing digital e editor do Comunicadores, diz que usa Linux esporadicamente, mas que alguns detalhes no sistema o mantém afastado:

“A arrogância se dá pela complexidade de se instalar quase tudo que não está fora dos repositórios oficiais da distribuição. Várias vezes é preciso compilar algo, baixar (e adivinhar) ‘dependências’, tudo isso usando o terminal (sério, estamos em 2012… Toda vez que preciso abrir o terminal, sinto como se eu fosse o Mathew Broderick no filme ‘Jogos de Guerra’, com medo de que a qualquer momento posso iniciar por acidente, uma guerra termonuclear).

Quando comecei a usar Linux (na época do Conectiva 3), achava isso muito divertido, mas agora quando eu noto que o meu monitor não é de fósforo verde, e tenho mais coisas pra fazer, essa perda de tempo me irrita.

(…)

A ilusão está em dizer que, pra tudo que existe no Windows, é possível encontrar um equivalente no Linux. O exemplo mais clássico é o Gimp. Teoricamente ele oferece toda a capacidade e recursos de um Photoshop, mas na prática ele não serve para quem é profissional de fotografia. Quem tem que, por exemplo, tratar 1300 fotos de casamento e ensaios de moda, feitas num final de semana, não consegue fazer metade do trabalho, no triplo de tempo. Editar vídeo de forma profissional também é uma tarefa impossível, sendo mais fácil usar dois vídeo-cassetes, do que qualquer solução que o Ubuntu oferece.

Então chegou um ponto onde eu vi que era inviável aumentar a participação do Ubuntu (ou qualquer outra distro Linux, mesmo a minha favorita, o Jolicloud) na minha vida. Apesar dele permitir que tudo flua bem melhor quando eu preciso fazer análise de dados, elaboração de relatórios e a criação e edição de textos, roteiros e projetos, toda a parte que vem depois disso é horrível. E no final das contas, o tempo que eu perco adequando tudo que produzi ali para ser acessível no Windows, e assim eu conseguir continuar, faz com que o tempo que ganhei na primeira etapa valha menos. Foi muito mais prático comprar um segundo monitor e voltar a minha atividade profissional exclusivamente para o Windows.”

Gustavo “Tango” Vasconcelos, coordenador de implantação e suporte de software, também gosta do Linux, mas hoje usa Windows por dois motivos:

“Olha, eu não somente viveria exclusivamente com Linux como, de fato eu fiz isso durante alguns anos no passado.

Os motivos de usar Windows hoje são somente dois: trabalho e jogos. O primeiro, não pela falta de aplicações de escritório, mas pela natureza da minha profissão, onde a plataforma da Microsoft é muito forte (mas temos alguns produtos que rodam no pinguim também, logo tenho os dos sistemas na minha máquina).”

No papo, ele comentou que está realizando um experimento semelhante com o desta matéria com seu irmão, que é médico: há três meses, instalou o Linux Mint na máquina dele e, até o momento, está correndo tudo bem. Um caso real de que a mudança é, sim, possível.

Veredito

Passeio pelo Ubuntu 12.10.

Com uma semana usando o Ubuntu, consegui decorar algumas teclas de atalho diferentes, acostumar-me a convenções do sistema (o HUD, acessível com a tecla Alt dentro dos programas, é bem bacana, embora às vezes não funcione direito), quase sentir-me em casa. Por usar muito a web, a transição não foi tão traumática e os poucos programas que usei, com exceção de um ou outro, cumpriram bem o papel. Alguns, surpreendentemente bem — o Transmission é simples e direto, o Ubuntu One ganhou muitos pontos por me deixar escolher quais pastas sincronizar.

Daria para viver com o Ubuntu? Sim. Muita gente consegue, aliás, embora a maioria dos que entrevistei (acima) trabalhem com informática e, portanto, talvez não se enquadrem no perfil do “usuário leigo”, o escopo desse experimento — com exceção da parte do XAMPP, todas as demais atividades que fiz foram bem… convencionais. Há dificuldades, algumas ainda casca grossa que te levarão para pesquisas tediosas no Google e comandos ininteligíveis no terminal, mas a situação já é bem melhor que algum tempo atrás.

Já reinstalei o Windows no meu computador. O Ubuntu é bacana, o Linux já pode ser considerado uma alternativa viável para a computação doméstica, mas há facilidades e caminhos aos quais já estou habituado no Windows que tornam esse sistema mais adequado para mim. No fim, prefiro usar o que torne o meu trabalho e diversão mais fáceis. Segundo esse critério, ainda falta um pouco para o Ubuntu chegar lá.