Pouco mais de um ano atrás, mais de 150 ursos polares se reuniram em uma ilha remota ao longo da costa norte da Sibéria para devorar uma baleia-da-Groenlândia que havia sido arrastada até a praia. Essa foi a maior multidão já registrada de ursos polares devorando uma baleia encalhada — mas eventos como esse podem se tornar mais comuns em um mundo mais aquecido.

Essa é a sugestão de um fascinante artigo publicado nesta terça-feira (9), na Frontiers in Ecology and Evolution. No passado geológico não tão distante, argumenta o estudo, os ursos polares podem ter sobrevivido a temperaturas crescentes trocando a vida de caçadores de focas no gelo por períodos maiores como caçadores da baleia na terra. E alguns ursos podem fazer a troca novamente, com as mudanças climáticas causadas pelo homem fazendo a camada de gelo do Ártico se espatifar.

O decréscimo do gelo do mar significa que os 26 mil ursos polares espalhados pelo alto Ártico terão que caminhar mais e gastar mais energia para caçar as focas, que, atualmente, são sua principal fonte de alimento. Mas o estudo aponta que as carcaças de baleias são as “maiores parcelas de matéria orgânica no oceano”.

Embora esses lanches de baleia acabem no fundo do mar, ocasionalmente o acúmulo de gases dentro da carcaça em putrefação de uma baleia morta pode levá-la para a costa. Grupos de ursos foram vistos comendo essas carcaças, em vários lugares, da Sibéria a Svalbard, no território ártico norueguês. Mas as baleias mortas costumam ser arrastadas o suficiente para sustentar verdadeiramente os ursos polares, em vez de ser só o almoço grátis ocasional?

Ursos polares se congregando na Ilha de Wrangel para devorar uma carcaça de baleia. Foto: Olga Belonovich/Heritage Expeditions

Em alguns lugares, a resposta pode ser que sim. Puxando dados sobre as taxas de consumo de focas por ursos polares no Ártico canadense, os autores modelaram uma população hipotética de mil ursos e descobriram que eles consumiriam cerca de 26.400 focas durante a temporada de forrageamento na primavera. Considerando o conteúdo médio de gordura e carne de uma carcaça de baleia, os pesquisadores imaginam que isso equivalha a cerca de 20 baleias-da-Groenlândia mortas. Outras oito carcaças de baleias-da-Groenlândia seriam necessárias para conseguir esses ursos hipotéticos durante o verão.

Esses números, observam os pesquisadores, se comparam favoravelmente às quase 50 carcaças de baleias grandes que devem ser arrastadas até o litoral do Alasca e o leste da Sibéria a cada verão, o que significa que as carcaças de baleia “são pelo menos teoricamente capazes de aumentar ou até mesmo substituir por períodos” uma dieta à base de foca. Os autores levantam a hipótese de que uma mudança para a caça de baleias ajudou alguns ursos polares a atravessar períodos quentes como o Eemiano entre 130 mil e 115 mil anos atrás, durante os quais a extensão do gelo do mar Ártico diminuiu bastante.

Autora principal do estudo, Kristin Laidre, bióloga marinha na Universidade de Washington, alertou que o estudo observava apenas taxas de baleias encalhadas em poucas partes do Ártico e que, em outros habitats, pode não haver um buffet de baleias mortas pronto, esperando para substituir as focas nas dietas do urso polar.

“A Groenlândia, que é muito montanhosa, não é um lugar onde temos muito encalhamento”, disse Laidre ao Earther. “Há definitivamente partes do Ártico onde isso é improvável ou não ocorre.”

Mamãe urso alimentando um filhote com um pedaço de carne de baleia de uma carcaça. Foto: Chris Collins/Heritage Expeditions

Além disso, mesmo que o histórico climático da Terra nos mostre que os ursos polares sobreviveram a um Ártico de pouco gelo no passado, isso não significa necessariamente que eles conseguirão se adaptar ao aquecimento acelerado que acontece hoje, que, provavelmente, não tem precedentes na história de menos de um milhão de anos da espécie.

A caça comercial de baleias nos séculos 19 e 20 reduziram bastante muitas populações grandes de baleia, em comparação com suas abundâncias históricas estimadas, acrescentando mais uma camada de dificuldade que não favorece a capacidade dos ursos polares de se adaptarem. Tudo isso “dificulta bastante o uso do passado para projetar o futuro”, disse Laidre.

“Não esperamos que as carcaças substituam as focas nas dietas dos ursos polares, mas, em alguns poucos lugares, elas podem desempenhar um papel”, prosseguiu.

Portanto, se você começar a ouvir mais histórias sobre ursos polares lanchando baleias gigantes, lembre-se de que isso é a natureza fazendo o seu melhor para se adaptar à nossa bagunça.

Imagem do topo: Chris Collins/Heritage Expeditions