Enquanto aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, a vacina Sputnik V teve os resultados preliminares da fase 3 dos seus testes publicados na The Lancet nesta terça-feira (2).

Os números parecem promissores: a eficácia geral é de 91,6% para casos sintomáticos de Covid-19. Os testes foram feitos com 20 mil participantes, sendo que três quartos receberam a vacina e um quarto, o placebo. Do total de voluntários, 2.144 tinham mais de 60 anos e, nesse grupo, a eficácia do imunizante foi de 91,8%.

As reações adversas identificadas foram apenas leves, como sintomas de gripe, dor no local da injeção e fraqueza. Durante o período de testes, foram registradas quatro mortes. Uma das vítimas pertencia ao grupo placebo e a causa da morte foi derrame. Já as outras três haviam recebido a vacina, mas nenhuma das mortes estava relacionada ao imunizante.

Os pesquisadores do artigo publicado na The Lancet alertam que a análise incluiu apenas casos sintomáticos de Covid-19 e que mais estudos são necessários para investigar os efeitos da vacina em pessoas que não apresentam sintomas e em relação à transmissão. Os pacientes foram acompanhados por um período de 48 dias após a aplicação da primeira dose, o que indica que a durabilidade da proteção da Sputnik V também precisa ser estudada.

Assim como as outras vacinas que já foram aprovadas até o momento, a Sputnik V requer duas doses, com um intervalo de 21 dias entre as aplicações. Após o período de 21 dias desde a primeira injeção, foram identificados 16 casos (0,1%) de Covid-19 entre os 14.964 voluntários que receberam a vacina, e 62 casos (1,3%) entre os 4.902 que receberam o placebo.

Apesar do estudo ter sido planejado para avaliar uma vacina de dose dupla, os pesquisadores observaram que o nível de eficácia da vacina entre os dias 15 e 21 após a primeira aplicação foi de 73,6%. Diante disso, eles pretendem investigar agora a possibilidade de a Sputnik V oferecer a proteção necessária com apenas uma dose.

Uma das vantagens da Sputnik V é o fato de ela poder ser armazenada por, no mínimo, dois meses em temperaturas de refrigeradores comuns. Esse não é o caso da vacina da Pfizer/BioNTech, por exemplo, que requer um armazenamento a -80 graus Celsius e só dura cinco dias em refrigeradores comuns. Já o imunizante da Moderna dura até seis meses a -20 graus Celsius, mas apenas 12 horas em temperatura ambiente.

Em relação aos preços, a Sputnik V deve custar pouco menos de US$ 10 por dose, enquanto a AstraZeneca pretende vender a vacina de Oxford por algo entre US$ 3 e US$ 4. As mais caras são aquelas que utilizam tecnologia mRNA, como a Pfizer/BioNTech (US$ 20) e a Moderna (US$ 25).

De acordo com o jornal britânico The Guardian, Kirill Dmitriev, chefe executivo do Fundo Russo de Investimentos Diretos (RDIF), disse que a Sputnik V tem melhores chances de combater as novas variantes do Sars-CoV-2, já que foram utilizados dois adenovírus diferentes no desenvolvimento da vacina. Ainda segundo ele, a expectativa é que sejam produzidas 1,4 bilhão de doses da Sputnik V em 2021.

Por enquanto, a Anvisa ainda está analisando um pedido da União Química, responsável pela Sputnik V no Brasil, para realizar os testes de fase 3 aqui no país — um dos requisitos da agência para que os imunizantes sejam aprovados.

Na segunda-feira (1º), a União Química informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que é capaz de entregar 150 milhões de doses da Sputnik V até o final deste ano. Assim que a Anvisa aprovar o uso emergencial do imunizante no Brasil, a Rússia já poderá entregar 10 milhões de dose neste primeiro trimestre, diz o documento.

[The Guardian, G1]