Uma equipe de cientistas planetários disse que, se houver fosfina — composto químico de origem ligada à atividade biológica — em Vênus, ela pode ter origens geológicas, e não biológicas. Suas descobertas sugerem que a substância, geralmente associada a micróbios, pode vir de uma reação no céu venusiano desencadeada por erupções vulcânicas na superfície do planeta.

No ano passado, um debate científico começou quando uma equipe de cientistas anunciou que havia detectado fosfina na atmosfera de Vênus. Trata-se de um gás que é produzido por alguns microrganismos e, portanto, considerado uma bioassinatura. Estudos posteriores derrubaram imediatamente esse resultado e, no início deste ano, outra equipe disse que o gás não era fosfina, mas dióxido de enxofre. As recentes descobertas da equipe, publicadas no Proceedings of the National Academy of Sciences, indicam que Vênus poderia ter vulcões ativos, algo que os cientistas planetários não têm certeza.

O princípio é o seguinte: o manto profundo de Vênus pode conter compostos de fósforo, chamados fosfetos, que podem ser jogados para fora na atmosfera pelos vulcões do planeta na forma de poeira vulcânica. Com força explosiva suficiente — os pesquisadores descreveram a força necessária como a do Krakatoa da Terra ou do supervulcão Yellowstone –, essa poeira poderia ser lançada para o alto na atmosfera nublada de ácido sulfúrico do planeta. Lá, os fosfetos reagiriam com o ácido sulfúrico para produzir fosfina.

“A fosfina não nos fala sobre a biologia de Vênus. Está nos contando sobre a geologia. A ciência está apontando para um planeta que tem vulcanismo explosivo ativo hoje ou no passado muito recente”, disse Jonathan Lunine, cientista planetário da Universidade Cornell e coautor do artigo, em um comunicado à imprensa.

Imagem: NASA / JPL

Mas o mistério de se Vênus tem fosfina ou não, e o que pode tê-la produzido, está longe de ser resolvido. “Infelizmente, não estou convencida com este último argumento,” disse por e-mail Clara Sousa-Silva, uma astroquímica quântica do Centro de Astrofísica de Harvard e Smithsonian. “A reação de fosfetos minerais com ácido sulfúrico concentrado não gerará necessariamente fosfina. Um resultado provável da reação de fosfetos com ácido sulfúrico concentrado seria uma reação de oxidação e não a produção de fosfina”.

O trabalho anterior de Sousa-Silva examinou as atmosferas de Vênus e outros planetas em busca de sinais potenciais de vida, como a fosfina. “Nós sabemos (e afirmamos isso repetidamente) que existem rotas abióticas — influências que os seres vivos possam receber em um ecossistema — para a formação de fosfina, incluindo o vulcanismo. E que essas rotas são extremamente raras e ineficientes”, completou.

A tectônica de Vênus é difícil de observar por causa da densa atmosfera do planeta, que esconde sua superfície. As poucas imagens que temos vêm do programa Soviético Venera, das décadas de 1970 e 1980, e de varreduras de radar feitas pela Magellan Orbiter, que atravessou a cobertura de nuvens de Vênus. Os dados dos quais a equipe de Lunine tirou suas conclusões foram coletados usando o Telescópio James Clerk Maxwell em Mauna Kea e o conjunto de telescópios ALMA no Chile. Algumas imagens coletadas por Magellan indicaram características geológicas capazes de vulcanismo explosivo. Anteriormente, dados do orbitador Venus Express da Europa indicavam que o planeta pode ter vulcões ativos.

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Felizmente, três missões futuras estão definidas para nos dizer muito mais sobre esse planeta. Por volta de 2030, a sonda DAVINCI+ e o orbital VERITAS, ambos da NASA, e o orbital EnVision, da Agência Espacial Europeia, irão todos para Vênus para estudar sua composição atmosférica e tectônica de superfície, entre outras características de nosso vizinho planetário mais próximo.