Séculos se passaram desde que Shakespeare escreveu sobre os sintomas do Rei Lear, mas ainda não há uma maneira perfeita para cuidar de quem sofre de demência e Alzheimer. Na Holanda, no entanto, uma ideia radical está sendo testada: pequenos vilarejos onde pessoas com demência fazem compras, cozinham e vivem juntas – com segurança.

Como população, estamos envelhecendo rapidamente. De acordo com a Alzheimer’s Association, um em cada três idosos atualmente morrem com algum tipo de demência. O processo de descobrir – e manter – um tratamento de longo prazo pode ser bastante confuso, infelizmente, e difícil tanto para os pacientes como para seus entes queridos. E as coisas só pioram: a doença de Alzheimer cresceu incríveis 68% desde 2000.

Em resumo, não estamos preparados para o futuro que nos espera – financeiramente, infraestruturalmente e até mesmo socialmente. Mas na pequena cidade de Weesp, na Holanda – os bastiões do progressismo social – em um centro de convivência focado em demência chamado De Hogeweyk, ou vila da demência, o relacionamento entre pacientes e seus cuidadores pode servir como um modelo para o resto do mundo.

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Hogeweyk, de certa perspectiva, parece uma fortaleza: um conjunto sólido de apartamentos e edifícios, separados do mundo externo por portões e cercas de segurança. Como um condomínio fechado. Mas, por dentro, é um mundo independente: restaurantes, cafés, supermercados, jardins, praças para pedestres e muito mais.

A ideia, explicam os idealizadores de Hogeweyk, era criar um mundo que mantivesse a maior semelhança possível com a vida normal – mas que não apresentasse riscos para os pacientes.

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Um sintoma comum, por exemplo, é a necessidade de sair andando, normalmente sem aviso, o que faz com que muitos centros de cuidados para pacientes com demência instituam uma política rigorosa para trancar os pacientes. Em uma cidade na Alemanha, uma unidade que cuida de pacientes com Alzheimer criou uma parada de ônibus falsa para enganar residentes errantes. Em Hogeweyk, o interior do perímetro de segurança é a própria vila – o que significa que os pacientes podem andar ao redor dela sem correr nenhum risco.

Cada apartamento hospeda entre seis e oito pessoas, incluindo cuidadores – que vestem roupas normais – e o relacionamento entre eles é único. Os residentes ajudam em tudo, desde cozinhar até limpar. Eles compram o que quiserem nos mercados. Eles podem ir ao cabeleireiro ou a um restaurante. É uma rotina básica que ajuda os pacientes a manter sua qualidade de vida.

“O fato de um paciente não conseguir funcionar ‘normalmente’ em certas áreas, prejudicado pela demência, não significa que eles não podem mais ter uma opinião válida sobre como vai ser a sua vida cotidiana e seus arredores”, dizem os administradores.

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Pessoas com demência frequentemente sofrem com espaços, cores e até decorações que não sejam familiares. Em Hogeweyk, os apartamentos foram criados para atingir algumas referências culturais conhecidas, classificadas em seis “gêneros” básicos: classe alta (decoração parece antiquada), caseiro, cristão, artesão, da Indonésia, e cultural.

Cada apartamento é diferente, feito para cada estilo de vida. “Viva no estilo de vida que você tinha antes”, explica Hogeweyk.

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Hogeweyk foi projetada pelos arquitetos holandeses da Molenaar&Bol&ValDillen, mas a ideia foi de Yvonne van Amerongen, uma cuidadora que trabalhou com pacientes com problemas de memória durante décadas. No início da década de 1990, van Amerongen e um pequeno grupo de cuidadores começaram a estudar e projetar um tipo de lar no qual os moradores poderiam participar da própria vida, da mesma forma como faziam antes de entrar em uma unidade de cuidados de demência.

Hogeweyk, que abriu em 2009, é a culminação daquele trabalho – mas, segundo o The New York Times, empresas de outros países da Europa e dos Estados Unidos podem levar a mesma abordagem para outras partes do globo. Na Suíça, um vilarejo parecido abriu recentemente imitando a vida na década de 1950. Afinal, as pessoas que cresceram naquela época são as que hoje em dia sofrem com esses problemas.

O que Hogeweyk nos mostra, no entanto, é a maneira culturalmente arraigada como tratamos aqueles que sofrem demência. Ao tratar os moradores como pessoas normais, Hogeweyk parece sugerir que não há uma diferença tão grande, apenas algumas diferenças de necessidades. Ao projetar uma cidade pensando nessas necessidades únicas, os moradores evitam a desumanização que os cuidados médicos de longo prazo causam involuntariamente.

No site do vilarejo, uma citação de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, resume tudo: “Eles já experimentaram uma noite como essa, e eles eram felizes com ela.”

Imagens: Detail OnlineKopArt, Amstelveen.