Grãos e água da temida zona de exclusão de Chernobyl foram usados ​​para produzir uma única garrafa de vodca. Chamada ATOMIK, a vodca poderia revolucionar a forma como o solo é recuperada na região radioativa ao redor da usina nuclear cercada.

Uma colaboração envolvendo cientistas do Reino Unido e da Ucrânia produziu uma vodca sem radioatividade de plantas cultivadas na Zona de Exclusão de Chernobyl, de acordo com um comunicado da Universidade de Portsmouth.

Descrita como “vodca artesanal de alta qualidade”, a bebida alcoólica foi fabricada pela Chernobyl Spirit Company e batizada – apropriadamente – de ATOMIK. Apenas uma garrafa de Atomik existe atualmente, e o produto ainda não está à venda, mas é considerado o primeiro produto comercial a vir da zona de exclusão, relata a BBC. Jim Smith, professor de ciências ambientais na Universidade de Portsmouth, liderou o projeto.

Em parte ciência, em parte ação promocional, o projeto destina-se a demonstrar uma forma possível de o terreno em torno da usina nuclear danificada poder ser bem aproveitado, no caso, através do cultivo de culturas. Os produtores desta única garrafa de vodca esperam alcançar algo ainda mais grandioso – a revitalização de uma indústria tradicional ucraniana em uma região assolada por problemas econômicos.

Grão cultivado dentro da Zona de Exclusão de Chernobyl. Imagem: Universidade de Portsmouth

“Mais de trinta anos após o acidente, acreditamos que o que essas áreas mais precisam é o desenvolvimento econômico e o gerenciamento do recurso ambiental único que as áreas abandonadas representam”, declara o site da Chernobyl Spirit Company.

Para esse fim, pelo menos 75% dos lucros das vendas futuras da ATOMIK irão para o apoio às comunidades locais nas áreas afetadas e à conservação da vida selvagem. Esta vodca não resolverá todos os problemas da região, obviamente, mas pode fornecer um impulso necessário para o processo de recuperação.

Estabelecida após o acidente nuclear de Chernobyl em 1986, a zona de exclusão abrange uma área de 2.600 quilômetros quadrados. Cerca de 116.000 pessoas fugiram da área imediatamente após a explosão da usina, seguidas por outras 220.000 pessoas que precisaram ser realocadas. A área total de evacuação estendeu-se por uma região de 4.200 quilômetros quadrados.

O acesso à zona de exclusão é limitado para proteger a saúde humana e impedir a disseminação contínua de materiais radioativos. O uso do solo para a agricultura é estritamente proibido pelo governo ucraniano – algo que Smith e seus colaboradores gostariam de mudar. Junto com colegas no Reino Unido e na Ucrânia, Smith passou os últimos três anos avaliando o potencial radioativo de culturas cultivadas na faixa externa da zona de exclusão.

A localização do terreno experimental onde o grão usado para produzir a vodca foi cultivado. O mapa em si é de 1997, mostrando a distribuição de césio radioativo na zona de exclusão. Imagem: Instituto de Radiologia Agrícola da Ucrânia

“Não acreditamos que a principal zona de exclusão deva ser usada extensivamente para a agricultura, pois agora é uma reserva de vida selvagem”, disse Smith no comunicado à imprensa. “Mas há outras áreas onde as pessoas vivem, mas a agricultura ainda é proibida”.

Como as áreas dentro da zona não são iguais em termos de risco de radiação, ela foi subdividida em três partes. A Zona I, conhecida como zona principal, existe dentro de um raio de 10 km da usina nuclear danificada – uma zona de alto risco na qual praticamente todas as atividades são proibidas. Uma zona de amortecimento, denominada Zona II, e a Zona semi-funcional III situam-se entre 10 e 30 km da usina, dentro das quais são permitidas diversas atividades, incluindo o acesso público controlado (a área é popular entre os turistas, por exemplo).

A cidade de Chernobyl está localizada a 15 quilômetros ao sul da fábrica, e é o lar temporário para trabalhadores que usam os albergues e hotéis da cidade, prédios administrativos, restaurantes, instalações médicas e centros culturais (muitos dos trabalhadores estão envolvidos no processo de desmantelamento da usina, que deverá durar até a década de 2060). Milhares de cidadãos habitam a área próxima e em torno da zona de exclusão, de acordo com o comunicado de imprensa da Universidade de Portsmouth.

Um membro da equipe plantando sementes de grãos em setembro de 2017. Imagem: Universidade de Portsmouth

Para criar a vodca ATOMIK, Smith e seus colegas coletaram grãos e água de dentro da zona de exclusão. Testes mostraram que o grão era ligeiramente radioativo; as quantidades de estrôncio-90 eram apenas um pouco acima do limite de segurança da Ucrânia de 20 Bq/kg. Isso não é considerado seguro o suficiente para fazer um pão, mas a história muda quando se trata de fazer bebidas destiladas, pois o processo de destilação remove todas as impurezas dos grãos. Testes feitos com a vodca mostraram que a ATOMIK era perfeitamente segura para consumo (bem, pelo menos tão “seguro” como qualquer bebida alcoólica), com níveis de radiação não diferentes do que as bebidas alcoólicas comuns.

A água mineral utilizada no projeto era proveniente de um aquífero profundo na cidade de Chernobyl, que era usada para diluir o álcool destilado. Testes dessa água mostraram que ela estava livre de contaminação radioativa e com química similar às águas subterrâneas provenientes da região de Champagne, na França.

“Trinta e três anos depois, muitas áreas abandonadas poderiam agora ser usadas para cultivar safras sem a necessidade de destilação”, disse Smith no comunicado. “Nosso objetivo é criar um produto de alto valor para apoiar o desenvolvimento econômico de áreas fora da principal zona de exclusão, onde a radiação não é um risco significativo para a saúde”.

Oleg Nasvit, o primeiro vice-diretor da agência estatal da Ucrânia para gerenciamento da zona de exclusão, disse que seu gabinete saúda a “iniciativa de usar terras abandonadas para ajudar as comunidades locais” e que “é importante fazermos tudo o que pudermos para apoiar a restauração das condições normais de vida nessas áreas, sempre colocando a segurança em primeiro lugar”, disse ele no comunicado. Quanto ao sabor da vodca, Nasvit disse: “Eu chamaria isso de bebida de alta qualidade – não tem o sabor típico de uma vodca mais altamente purificada, mas tem o sabor do grão dos nossos métodos originais de destilação ucraniana – eu gosto”.

Em relação aos próximos passos, Smith e seus colegas dizem que precisam resolver algumas questões legais não especificadas, seguidas pela produção experimental em pequena escala da vodca ATOMIK, o que eles esperam concluir até o final deste ano.