Os humanos são os únicos animais conhecidos por desenvolver a doença de Alzheimer, uma doença cerebral relacionada com a idade que causa deterioração da função cognitiva e outros problemas comportamentais. Ou pelo menos era isso o que pensávamos. Pela primeira vez na história, pesquisadores afirmam ter encontrado sinais da doença em cérebros de chimpanzés idosos – uma revelação que poderia implicar em novas descobertas em relação à doença.

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A nova pesquisa foi publicada no periódico científico Neurobiology of Aging e mostra que as primeiras manifestações da doença de Alzheimer podem ser detectadas em cérebros de chimpanzés idosos e que nossos parentes mais próximos na evolução parecem ter algo em seus cérebros que impede a doença de piorar. A futura descoberta desse “algo” pode levar ao desenvolvimento de novas intervenções terapêuticas que tratem o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas em humanos.

Os humanos, até onde sabemos, são os únicos animais que desenvolvem demência severa conforme a idade chega. Sim, outros animais também exibem sinais da idade – como artrites, desgaste dos dentes e dos ossos e até mesmo um pequeno declive cognitivo –, mas nada que seja tão severo quanto a experiência humana com o Alzheimer. Não sabemos o que há com os nossos cérebros, nem conhecemos os mecanismos que levam ao envelhecer, que nos deixam vulneráveis, e é por isso que cientistas estão começando a pesquisar outros animais para obter algumas dicas – principalmente chimpanzés.

Esse novo estudo é o único em que os pesquisadores tiveram acesso inédito a uma grande coleção de amostras de cérebros de chimpanzés, alguns vindo desde o meio da década de 1990. Os cérebros foram oferecidos pelo National Chimpanzee Brain Resource, que tem coletado cérebros de chimpanzés que morreram de causas naturais em zoológicos e centros de pesquisa.

“Pouquíssimos estudos investigaram a patologia da doença de Alzheimer em chimpanzés, a espécie […] mais geneticamente relacionada aos humanos”, disse Mary Ann Raghanti, da Universidade de Kent, em um comunicado à imprensa. “Amostras de cérebros de grandes símios, particularmente aqueles mais velhos, são incrivelmente escassas, então um estudo desse tamanho é raro.”

Raghanti e sua equipe estudaram 20 cérebros de chimpanzés mais velhos, com idades entre 37 a 62 anos, analisando o neocórtex e o hipocampo – regiões do cérebro mais suscetíveis ao Alzheimer nos humanos. Os pesquisadores procuraram por um par de proteínas associada à doença de Alzheimer, chamadas beta-amilóide e tau. Em cérebros saudáveis, a beta-amilóide se quebra e desaparece, mas para pessoas com Alzheimer, essa proteína se recusa a ir embora, resultando na formação de placas ao redor dos neurônios. A presença dessas placas estabelece outro processo, no qual outra proteína, chamada tau, forma emaranhados que desestabilizam células cerebrais.

Juntas, as perturbações neurais causadas por essas placas e emaranhados resultam no início da demência.

Como notado no novo estudo, essa análise revelou traços de placas de beta-amilóide em todos os 20 cérebros de chimpanzés, e, assim como nos humanos, o volume dessas placas aumentava com a idade.

chimpanze-cerebro-alzheimerUm neurônio com a presença da proteína tau (mostrado em preto) perto de um depósito de amilóide dentro dos vasos sanguíneos (vermelho) em cérebros de chimpanzés idosos. (Imagem: Kent State University)

“A presença da patologia de amilóide e tau em chimpanzés idosos indica que a doença de Alzheimer não é específica para o cérebro humano, como era acreditado”, explicou o coautor do estudo Patrick R. Hof, da Escola Icahn de Medicina no Monte Sinai.

Os traços de beta-amilóide eram mais altos nos vasos sanguíneos dos chimpanzés do que nas placas – isso geralmente não acontece nos humanos. Uma acumulação de depósitos de beta-amilóide nos vasos sanguíneos do cérebro ocorre em seres humanos (uma condição conhecida como angiopatia amiloide cerebral [AAC]), mas o efeito predominante da beta-amilóide em nossa espécie é a produção em excesso de placa. “Isso sugere que o acúmulo de amilóide nos vasos sanguíneos do cérebro precede a formação de placas nos chimpanzés”, notou a coautora do estudo Melissa Edler.

Raghanti disse que não está claro se as placas e os emaranhados encontrados nos chimpanzés produzem o mesmo nível de declínio cognitivo visto em humanos. “Nossas amostras foram coletadas durante décadas, sem nenhum dado cognitivo consistente ou rigoroso os acompanhando”, disse à New Scientist. “Então, não foi possível dizer se os chimpanzés tiveram perdas cognitivas devastadoras ou não.” Como um lembrete, até agora não há evidências comportamentais que sugerem que chimpanzés sofrem declínios cognitivos significativos enquanto envelhecem.

O desafio agora para os cientistas será descobrir o que está acontecendo no cérebro humano que não está acontecendo no dos chimpanzés. Falando para a Nature News, o neurologista Lary Walker, da Universidade Emory, afirma que os chimpanzés talvez tenham algum tipo de efeito de proteção, e o beta-amilóide pode ter desdobramentos diferentes nos chimpanzés e humanos. Mais pesquisa será necessária para resolver esse problema.

O que nos leva para o ponto final: essa descoberta, embora importante, significa que os chimpanzés se tornaram, de repente, mais valiosos como objeto de testes médicos. O coautor do estudo, William D. Hopkins, professor de neurociência na Universidade do Estado da Geórgia e pesquisador associado no Yerkes National Primate Research Center, da Universidade Emory, disse isso no comunicado à imprensa: “Descobertas como essas relatadas nesse artigo oferecem evidência significativa do valor e da necessidade do trabalho contínuo a respeito do comportamento, cognição e neurogenoma dessa importante espécie”.

Essa é certamente uma opinião, mas a observação de Hopkins vai em oposição às atuais tendências. Pesquisas médicas em chimpanzés e outros grandes símios estão sendo descartadas, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Felizmente, existem outras opções. Mas a impossibilidade de experimentar em chimpanzés vivos e outros animais não significa que a ciência – e o trabalho com o Alzheimer, em particular – irá parar de repente.

[Neurobiology of Aging]

Imagem do topo: AP