Os últimos cinco anos foram de total reinvenção para a Motorola: ela deixou de ser um dinossauro para se tornar a empresa responsável pela linha Droid, que fez bastante sucesso nos EUA. E aí foi engolida pelo Google em uma parceria que resultou em alguns dos smartphones mais simples de se usar da atualidade – estamos falando do Moto X e do Moto G. Foi uma montanha russa de emoções.

Na CES, tive a oportunidade de conversar com Rick Osterloh, vice-presidente sênior de produtos da Motorola Mobility, e ele comentou um pouco sobre a relação da Motorola com o Google e a Verizon – operadora norte-americana que possui exclusividade da linha de smartphones Droid – e ele também aproveitou para falar um pouco sobre o que podemos esperar do futuro da empresa.

GIZ: Há alguns anos, vocês lançavam diversos produtos no mesmo ano. Agora parece que vocês planejam soltar um ou dois dispositivos por ano, além da linha Verizon Droid. Fale um pouco sobre como essa estratégia foi alterada.

RO: É a nossa visão desde que nos juntamos ao Google, de que nós queremos manter o foco em apenas alguns produtos muito, muito bons e que conquistam os consumidores. No passado a empresa lançava até 40 produtos em um ano, mas agora estamos apenas com alguns e queremos que eles sejam excepcionais. Essa é a nossa estratégia.

GIZ: Como tem sido a recepção?

RO: Está sendo excelente. 2013 foi um grande ano para nós. Muita coisa mudou. Nós saímos daquilo que o mercado vê como um estado dormente para uma transformação total na qual lançamos dois produtos realmente bem-sucedidos, Moto X e Moto G. Eles foram lançados nos últimos cinco meses. Você os viu e sei que escreveu coisas boas sobre eles. E eu agradeço. Nós tivemos sorte o bastante para entrar em 32 listas de “melhores do ano” com os dois dispositivos. Estamos muito orgulhosos disso.

Nosso primeiro passo foi criar uma franquia realmente boa e global. E então fizemos isso com o Moto X e com o Moto G. Observamos uma ótima trajetória de vendas em ambos os dispositivos, crescimento muito forte, e um sentimento positivo dos consumidores em relação a eles. Então estamos felizes em ver como tudo está caminhando. Nossa marca agora está numa posição que faz com que mais pessoas se interessam e conheçam os aparelhos, então algumas coisas interessantes sobre isso: o conhecimento que o consumidor tem da nossa marca e a consideração que ele tem por ela cresceram cerca de 30% desde que apresentamos esses dois produtos, e essa foi uma mudança grande e importante para nós. Avançamos muito em apenas alguns meses, apesar de estarmos trabalhando nisso há muito mais tempo e estamos bastante animados em relação ao que temos guardado para este ano.

GIZ: Acredito que tenha muita especulação e confusão sobre como a relação com o Google funciona. Então, como ela funciona?

RO: Nós somos claramente uma parte do Google, mas operamos independentemente da equipe do Android. Trabalhamos dessa forma desde o primeiro dia depois da aquisição e continuaremos fazendo assim. É importante para o ecossistema. Nosso foco é tentar levar a internet móvel para milhões de pessoas e é isso que estamos fazendo. Estamos tentando dar a eles ótima tecnologia móvel que não seja comprometida, que seja de alta qualidade, que ofereça diversas escolhas e que valha seu preço. Essa é mais ou menos a nossa missão. A equipe do Android, acreditamos, faz um bom trabalho. Somos a única OEM focada em Android, então isso ajuda bastante. Como temos um portfólio focado em Android, podemos fazer várias coisas interessantes que outras pessoas talvez não consigam, mas nem por isso recebemos algum tipo de tratamento especial do pessoal do Android.

GIZ: Eu amei alguns dos recursos do Moto X, e esperava vê-los no Nexus 5 e no KitKat, mas me surpreendi quando eles não estavam lá. Deve haver algum tipo de conversa entre vocês. Como é isso?

RO: Bem, nós nos comunicamos com a equipe do Android, mas apenas como qualquer outra OEM faz, de maneira bem estruturada. Nós não conseguimos coisas como acesso avançado a códigos, então essa é meio que a linha divisória para nós. Mas nos comunicamos como qualquer outra fabricante faria. Então nós fazemos coisas diferentes, como nossa experiência com Touchless Control e Active Display, coisas assim. Esses são recursos únicos desenvolvidos por nós. Acreditamos que eles acentuam muitas coisas boas do Android e do Google, mas são coisas feitas pela Motorola de maneira independente.

GIZ: E o motivo do Android não receber esses recursos, é uma coisa não-competitiva? Ou vocês pretendem ter uma gama ampla de produtos?

RO: Não há orquestração aqui. Então nós olhamos para nossas necessidades de mercado, vemos o que os consumidores querem e tentamos solucionar esses problemas. A equipe do Nexus e a equipe do Android provavelmente fazem coisas parecidas, apesar do posicionamento do Nexus ser mais sobre um design de referência para uma nova visão do Android. Nosso foco é tentar levar smartphones a milhões e milhões de pessoas.  Queremos repetir o que fizemos com com o Moto X e Moto G: escolhas, alta qualidade, valorização do dinheiro.

GIZ: Sobre a forma como você adapta o OS ao seu próprio smartphone, vocês certamente estão bem mais próximos ao Android puro do que a maioria das fabricantes. Qual é o pensamento por trás disso?

RO: Bem, temos várias coisas. Primeiro achamos que o Android evoluiu muito bem, tem uma ótima experiência de usuário. E acreditamos que é uma experiência melhor se estiver no núcleo da essência do Android, então entregamos isso ao usuário. Há também outros benefícios enormes, como o fato de atualizarmos nossos smartphones para a versão mais recente do Android com muito mais rapidez. Essa é uma parte fundamental da nossa estratégia: queremos garantir aos usuários atualizações rápidas. Então fomos os primeiros a oferecer atualização para o KitKat através de operadoras, e fizemos isso com a Verizon no Moto X, o que foi, achamos, bem legal para os usuários finais. E pretendemos continuar assim, perseguindo essa estratégia.

Também é o caso de você perceber que nossos smartphones têm um desempenho espetacular para as suas especificações. A experiência de uso é bem rápida, você tem uma boa autonomia de bateria, e francamente isso ocorre porque não introduzimos camadas ao software que não achamos que são necessárias, como nossos concorrentes fazem. Então é por isso que perseguimos essa estratégia. Adicionamos coisas onde achamos que elas podem melhorar a experiência do Google, como no caso do Touchless Control e Active Display, e em outras partes tentamos nos manter presos às definições padrão do Android.

GIZ: Você acha que um dia veremos o Touchless Control e outras coisas assim no Android stock?

RO: Não sei, é uma boa pergunta para a equipe do Android. Certamente é algo que acredito ser melhor para usuários, então queremos usar essa capacidade para torná-lo melhor e melhor.

GIZ: Mas não há nada que impeça que isso aconteça?

RO: Nós certamente temos tecnologias de hardware que tornam isso possível. E esse é um dos principais atributos.

GIZ: Como a tela AMOLED?

RO: Sim, no caso do Active Display, a combinação do trabalho que fizemos com a tela que escolhemos tornou possível oferecer esse tipo de experiência de notificações no smartphone. Com o Touchless Control, também há um hardware específico que está sempre esperando para ouvir a frase-chave que acorda o dispositivo, para então você perguntar outra coisa para ele.

GIZ: É o processador X8, certo?

RO: Sim.

GIZ: Nossos leitores mais nerds sempre perguntam por que vocês escolheram esse processador no lugar do Snapdragon 800, que é mais rápido, mas também tem núcleos de baixo consumo de energia e teoricamente seria capaz de fazer a mesma coisa.

RO: Alguns motivos. Nós fizemos uma escolha específica pelo 8960 Pro como o SoC-núcleo para o smartphone porque achamos que ele tinha a potência que precisávamos. E muitas das operações que os usuários veem em termos de performance vem da GPU. E o 8960 Pro tem uma GPU fantástica. E depois, francamente, a Motorola por anos e anos teve uma equipe excelente que sabia como fazer otimização de performance e software, e sabemos como trabalhar com o 8960 Pro muito bem. E com os núcleos adicionais que colocamos – aqueles que cuidam do controle dos sensores que ouvem sua voz em busca das palavras-chave – esses núcleos ajudaram a melhorar a experiência de uso e torná-la mais rápida. E não precisamos nem colocar um chipset caro de alta potência. Então pudemos traduzir isso em valor para o usuário final.

GIZ: Vocês conseguiram liberar o KitKat bem rápido na Verizon. Essa provavelmente é a principal reclamação que ouvimos de usuários do Android: as atualizações demoram demais. É por isso que, entre o público hardcore, o programa Nexus é tão popular. Como vocês conseguiram fazer isso? Nós sabemos que muito da culpa dos atrasos é das operadoras.

RO: Precisamos de um grande parceiro e a Verizon foi muito boa nisso. Em primeiro lugar, nossa estratégia de software permitiu fazer isso rapidamente. E, em segundo lugar, nós ouvimos os usuários, eles querem atualizações rápidas. Então nosso objetivo é esse. E, em terceiro lugar, colocamos um grande foco em software, perseguimos essa meta e conseguimos fazer primeiro com a Verizon, mas tentamos com outros parceiros também. Agora está disponível na AT&T, Sprint e outros lugares [e também no Brasil]. Isso é importante para nós e acho que você pode esperar isso no futuro.

GIZ: Parece que vocês fizeram a versão própria do OS mais modular. Com o Moto X, os usuários inicialmente enfrentaram problemas na câmera, e então uma atualização para ela foi lançada. Como isso se aplica a essa estratégia? Vocês não precisam fazer uma grande mudança, mas podem mexer em pequenas partes?

RO: Isso também está inserido na ideia de foco no consumidor. Ouvimos muita gente falando que se decepcionou pois o melhor dia da vida do smartphone deles era o primeiro dia de uso. E nós queremos que a experiência de uso do aparelho melhore conforme o tempo. E achamos que, a longo prazo, isso funciona bem para usuários. Então, nos bastidores, nós trabalhamos muito para fazer muitos recursos de experiência-chave atualizável através da PlayStore. E acho que já fizemos 26 atualizações dessas através da PlayStore desde quando anunciamos o Moto X. É algo que planejamos continuar fazendo. Acreditamos que é uma boa tendência para usuários que querem continuar agregando valor. E acreditamos que a nossa estratégia de software é bastante ágil, e que essa mudança é algo bom para levarmos aos nossos consumidores.

GIZ: Vocês ainda trabalham na linha Droid? Vocês começaram com algo óbvio, é algo que planejam continuar fazendo?

RO: Sim. Nós temos nossos produtos Moto e a linha Droid. São bastante distintos. A linha Droid é algo antigo, e que vai continuar com a Verizon.

GIZ: Você acha que um dia veremos um Motorola Nexus? Você deve ouvir isso constantemente.

RO: Não sei! Sim, nos perguntam bastante isso, mas não temos planos de anunciar nada assim, mas talvez aconteça, talvez não. No momento, estamos focados no Moto X e no Moto G. O Moto G foi lançado no fim do ano, e cresceu incrivelmente bem. Está disponível na América Latina e Europa, e em ambos os mercados está se dando muito bem, e agora chega aos EUA. Você deve ter visto ele sendo anunciado por US$ 99, então é bem atrativo. Até onde sei, é o melhor custo-benefício em mobile, e é algo que pretendemos continuar fazendo no futuro. [No Brasil, de acordo com o Buscapé, o Moto G está custando entre R$571 e R$899.]

GIZ: Quando veremos coisas novas?

RO: Fique atento. Não aqui, mas no futuro próximo.

GIZ: Segundo trimestre?

RO: Entraremos em contato.

GIZ: Haha. Tive que tentar. Algo mais que gostaria de dizer?

RO: Apenas que estamos felizes por estar de volta. Acho que fizemos grandes mudanças nos últimos meses e estamos animados para ver o que vai acontecer com nossos produtos. É um mercado bastante competitivo, e estamos tentando fazer o nosso melhor para mudá-lo para melhor para o usuário final.