A polícia federal americana começou a monitorar a potência do abastecimento de maconha do país nos anos 1970, pegando amostras de lotes apreendidos pelas autoridades e, rapaz, ela era bem fraca. A porcentagem de THC – o principal componente psicoativo na cannabis – era em média menos de 1% em 1975, indo para um pouco menos de 3% uma década depois, de acordo com os dados. Esses níveis notoriamente baixos refletem os tempos, como a subcultura de maconha na América estava apenas começando a criar raízes, o que pode ajudar a explicar por que algumas das espécies da velha escola mais memoráveis têm nomes como Acapulco Gold, Panama Red, Afghani, Thai stick e Jamaican sensi; todas elas eram originalmente cultivadas fora do país.

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Agora, como alguns críticos têm apontado, é impossível confirmar empiricamente o quão forte era a maconha cultivada nos EUA no passado devido a métodos de teste e amostragem inferiores. No entanto, parece existir pesquisa o bastante, além de testemunho em primeira mão e senso comum, para mostrar que a substância ilícita de décadas atrás não era tão poderosa quanto a de hoje. Mesmo se levarmos em conta a maconha mexicana fraca que continua baixando as médias americanas, a porcentagem de THC ainda era extraordinariamente baixa em geral até o final da década de 1990.

Um estudo federal recente descobriu que “a potência do material vegetal ilícito de cannabis tem aumentado de forma consistente ao longo do tempo, desde 1995, de cerca de 4% em 1995 para aproximadamente 12% em 2014”. Este acentuado aumento representa uma mudança quando os fumantes começaram a trocar a maconha plantada em terra para a hidropônica. Em uma impressionante batida de 2009, o DEA apreendeu uma maconha que marcava impressionantes 33,12%, a maior concentração de THC que a agência já viu em uma amostra nacional da erva. Tenha em mente, as estatísticas governamentais não incluem amostras do mercado “legal”, onde a maconha costuma ficar acima de 20% e até mesmo de 30%, com cannabis concentrada subindo para a faixa dos 90%, um feito notável na história da humanidade. De um modo geral, qualquer coisa acima de 15% é considerada “da boa”.

Há também o método menos científico de examinar fotos de brotos de primeiras edições do High Times, já que você também pode saber muito sobre cannabis a partir de como a planta se apresenta. A evidência visual sugere que a “erva” na era do amor livre, incluindo o negócio que Bob Marley fumava –, não tinha as características associadas com a qualidade encontrada em marcas de ponta de hoje como Girl Scout Cookies, Bruce Banner e Gorilla Glue. Muitas das estirpes nostálgicas não têm grandes concentrações de tricomas, as glândulas de resina parecidas com cristais que são muito identificáveis nas fotos e que têm vindo a definir a maconha moderna. Os botões da velha escola também eram fibrosos e marrons. Em todos os sentidos, parecia inferior, porque era.

Esta semana no Giz Aks, perguntamos ao DEA, a cultivadores de maconha e a um estimado professor que tem criado maconha para o governo federal durante as últimas décadas por que a cannabis está ficando tão potente.

Mahmoud A. ElSohly, Ph.D.

Professor de Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Mississippi, diretor do Projeto Maconha, na Universidade do Mississippi. Durante as últimas décadas, tem criado maconha para o governo federal na única fazenda legal de maconha no campus Ole Miss.

A resposta à sua pergunta, na minha opinião, se encontra em vários fatos:

1) As práticas de cultivo na indústria de cannabis mudaram para a produção de sinsemilla como o produto preferido. Sinsemilla é o produto gerado a partir dos topos floridos de plantas fêmeas que não foram fertilizadas. É a parte da planta de cannabis com o maior teor de THC.

2) O corte dos produtos de cannabis (sinsemilla ou botões) e a remoção de todas as folhas grandes, que têm baixos níveis de THC.

3) A seleção de variedades de THC elevado, ou estirpes de alto valor monetário.

4) O THC é conhecido por produzir tolerância em utilizadores frequentes. Portanto, quanto mais se usa maconha, mais THC é necessário para atingir o efeito que você teve antes. Assim, os usuários precisam de mais maconha ou de um teor de THC superior.

Derek Peterson

CEO da Terra Tech, empresa de capital aberto que planta, faz marketing e vende cannabis

Durante a última década, as potências em cannabis subiram acentuadamente por causa da adaptação das ciências de plantio, que migraram da agricultura tradicional para a cena da cannabis. Uma das principais razões para o aumento da presença de canabinoides é principalmente devido a uma melhor reprodução e estirpe de cruzamento, assim como da cultura de tecidos. No entanto, a composição genética da planta é apenas um componente. Além disso, temos visto uma melhora nas técnicas de cultivo de plantas com base científica e bancos de dados. Essencialmente, a combinação de melhor genética juntamente com técnicas de cultivo mais avançadas têm levado a um produto final de maior qualidade. Acreditamos que essa tendência continuará nos próximos anos.

Morgan Fox

Porta-voz do Marijuana Policy Project, um grupo de lobby influente com foco na reforma da lei federal para que os estados possam decidir sobre a legalização de maconha.

A maconha ficou mais potente ao longo das últimas décadas por várias razões. A primeira é a proibição. Por meio de cruzamento para que a maconha fique mais potente, menos quantidade precisa ser consumida para atingir os resultados desejados, o que significa que é preciso plantar, transportar ou esconder menos maconha ilegalmente. A mesma coisa aconteceu durante a proibição do álcool. Bebidas mais fortes se tornaram muito mais populares porque era mais fácil de transportar e esconder das autoridades.

Outra razão é a demanda e a segurança do cliente. Quanto mais potente a maconha é, menos as pessoas precisam fumar, o que é mais suave para os pulmões. A popularização da vaporização da maconha também cria mais demanda por maior potência, já que esse processo funciona melhor com canabinoides de maior densidade.

O aumento nos pacientes que utilizam maconha para fins medicinais também impulsionou um enorme aumento no THC e em outros compostos, através de reprodução seletiva e do desenvolvimento de concentrados. Muitos pacientes precisam de alívio imediato da dor, que é muito mais difícil de alcançar com a maconha de baixa potência.

Sally Vander Veer

Presidente da Medicine Man, fornecedora de cepas de maconha altamente potentes para uso recreativo e medicinal

1) Demanda do consumidor. Forças de mercado contemporâneas estão defendendo uma abordagem “quanto mais THC, melhor” para cultivo de cannabis. Cultivadores têm acesso a mais ciência, melhores nutrientes, mais informação e estão cruzando estirpes para aumentar a potência, o que normalmente resulta no aumento dos lucros. O que a maioria dos consumidores não entende é que as estirpes de THC-A com percentuais mais elevados não equivalem necessariamente a um barato maior ou melhor. Existem mais de 500 componentes na planta cannabis que contribuem para cada efeito único associado com essa estirpe, o THC sendo a maior parte desse barato, mas certamente não o único fator determinante. Nossas espécies mais vendidas no Medicine Man no ano passado, Girl Scout Cookies e East Coast Sour Diesel, são ambas testadas em torno de 20% de THC-A. Clientes voltam para essas estirpes particulares (mesmo depois de tentar as estirpes com testes mais elevados) por causa de seu sabor, cheiro, gosto, aparência e efeito em geral, apesar da sua potência média.

2) Melhores testes. Temos agora laboratórios dedicados de teste de cannabis e, com isso, as metodologias e sensibilidade dos testes de potência têm melhorado significativamente. Havia limitações sobre métodos de testes antigos que se baseavam em cromatografia em fase gasosa, que aquece o material de teste antes da análise. Esse calor altera o perfil químico da cannabis, incluindo a quebra da molécula THC-A. Seria de se esperar um aumento em potência, com um aumento na sofisticação dos testes. Isso provavelmente não leva em conta um salto enorme em potência, mas deve ser considerado quando se discute o tema.

O interessante é que, quando nos aproximamos do limite máximo de THC-A nas nossas estirpes, os consumidores estão entendendo sobre a importância de outros componentes da planta, nomeadamente terpenos e outros canabinoides menos estudados, e vejo um foco em toda a composição da planta como a próxima grande fronteira para a cannabis.

Rusty Payne

Porta-voz da Drug Enforcement Agency, entidade federal de aplicação da lei que tem prendido pessoas e proporcionando agências governamentais com amostras de cannabis apreendidas há décadas

Resumindo, a maconha é mais potente porque a qualidade do processo de cultivo tem sido reforçada pela iluminação e hidroponia, assim como a extração de THC, que cria um produto muito mais potente.

Jesse Henry

Diretor executivo da Barbary Coast Collective, um dispensário de San Francisco que fornece maconha potente para uso medicinal

A cannabis está ficando mais e mais potente porque está ficando mais especializada para necessidades específicas. Ao mesmo tempo que a cannabis está ficando cada vez menos potente, pelo mesmo motivo. Alguns pacientes necessitam de altas doses de THC e outros precisam de altas doses de CBD. O mesmo vale para THCA, THCV, CBN e cbg, para citar alguns.

Stephen Gardner

CMO da Tikun Olam, empresa de cannabis de Israel que cria estirpes medicinais de maconha

Realmente tem a ver com a forma como ela não foi regulamentada no ambiente do mercado negro. Então, nós vemos pessoas que estão tomando grandes riscos e, portanto, estão buscando garantir receber o maior rendimento e maior potência para a demanda do mercado. No seu plantio, você quer mais retorno pelo seu investimento.

Imagem do topo: Elena Scotti/GMG, fotos via Shutterstock